quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O POETA É UM LADRÃO DE FOGO (*)

A POESIA não é unicamente um produto escrito, uma sucessão de imagens e sons, mas na verdade, uma maneira de viver. Nerval, Baudelaire e Rimbaud anteciparam o sentido trágico desta maneira poética de viver que o surrealismo tentou levar às últimas conseqüências. A revolta de Rimbaud é a de toda adolescência, e é reconhecida como um valor permanente, que não se trata mais de refrear, mas, pelo contrário, de liberar. Em sua renúncia à poesia e na sua partida para a Abissínia, quis-se ver a significação de uma mensagem, por meio da qual deixa-se claro que se a ação equivale ao sonho, a poesia não consiste numa atividade de “mago” mas a uma atividade de expressão que tem seu lugar ao lado de todas as demais preocupações. A objetivação da poesia encontra-se domínio da vida. O absurdo torna-se um valor poético como a dor e o amor. Aprofundando-se o absurdo do mundo, uma inaudita clareza surge infinitamente mais luminosa. Lautrémont, Mallarmé e Saint-Pol-Roux nos ensinaram que é necessário penar longamente até que esta clareza chegue à consciência. Esta não se ensina. Cada um deve descobri-la nas profundezas de se ser com todos os riscos que sua aventura comporte, em esferas em que o perigo torna-se imenso. Tal foi para Gerard de Nerval, nos confins da loucura, a lição de sua procura de um absoluto. Tal é o preço da razão, ao sair do túnel para encontrar a recompensa na sabedoria e na luz. Esta é, um resumo um tanto esquemático, a linhagem dos poetas que vislumbraram a poesia como uma lição de vida, um estado de espírito. O humor e a surpresa, com Apollinaire, irrompe soberanamente nos domínios da poesia, enquanto a poesia-objeto, assim como a poesia do objeto cotidiano dos cubistas – reação contra um simbolismo metódico, anêmico e diluído – incitam-nos a considerar o mundo exterior à luz de uma verdade que Baudelaire já havia localizado, despojando-a dos oripéis convencionais dos mitos românticos. Em todos esses poetas descobre-se um desprezo violento pelas idéias aceitas, um pressentimento da idéia de que o mundo é hostil ao homem porque é “mal feito”. Fazem todos prever a chegada de um mundo novo, onde toda desordem desaparecerá, onde a beleza poderá ser visível e a vida vivível para todos os homens. (*) copydesk/fragment by Eugenio Santana, escritor, jornalista, ensaísta. Ex-Diretor Regional, em Goiás, da Editora Didática Paulista. Foi Superintendente de Jornalismo no Rio de Janeiro.

domingo, 23 de dezembro de 2012

SINCERICÍDIO (*)

Sincero. Como a água ou pedra. Nada de máscaras, representações. Sim, sim, não, não. E pronto. O mais é conversa estéril. Ou teoria hermética. Rituais, encenações, gestos de atores, atrizes, palco teatral. Os seres humanos, principalmente os letrados, nada entenderam do Sermão da Montanha. Prefiro os simples, os puros de coração, não dissimulados pelas convenções e tradições sociais. Os autênticos, de alma nua. Os analfabetos, os ingênuos e os embriagados por meio da poética. E por isso os intelectuais egos cegos, poluídos pela podridão do mal, me cansam e frustram. O céu é dos SINCEROS.
(Jornalista/escritor/publicitário Eugenio Santana)

O TEMPO DO DESCANSO É SAGRADO (*)

Descansar, após um período de trabalho intenso, é uma necessidade fundamental quase sempre subestimada. Essa mentalidade suicida de que a vida só tem sentido quando se produz, se consome e se acumulam bens materiais, quando a pessoa se movimenta e se agita sem parar, já produziu inclusive várias categorias de doenças novas e de doentes graves. Entre estes os que sofrem de estresse – a doença do século – e os workaholics, os viciados em trabalho, gente que sofre de pavorosa angústia aos sábados, domingos e feriados simplesmente por não saber como usar o tempo e o espaço disponíveis. Sem falar nos adeptos das “férias que matam”, os que confundem lazer com descanso; nos momentos que deveriam ser dedicados ao repouso, eles se entregam a uma maratona de visitas, esportes, compras, andanças, e voltam para casa muito mais cansados do que antes. Deixo aos psicólogos uma apreciação clínica a respeito das tremendas compulsões internas que levam um número tão grande de pessoas a viver em perpétua agitação, tanto na sua parte física quanto emocional e mental, renunciando ao direito e ao dever do descanso. Do ponto de vista da espiritualidade – aquele substrato de sabedoria que pode ser encontrado em todo sistema religioso verdadeiro – pode-se, no entanto dizer que essas pessoas comportam-se desse modo por se acharem dissociadas do seu self: aquele núcleo de consciência para que existe em cada um de nós e é capaz de nos alertar com precisão a respeito das nossas reais necessidades. O descanso, em seu sentido transcendental, é tanto ou mais importante do que o trabalho. O tempo do descanso é sagrado, pois, como ensina a Bíblia, no sétimo dia até Deus descansou. O descanso, que os povos do deserto simbolizam na imagem do oásis, e que os hebreus chamam de sabbath, é um tempo consagrado a Deus. É o momento da introspecção e da reconciliação com nossa origem e destino divinos.
(*) by Eugenio Santana, escritor, jornalista, autor de livros publicados. Foi Superintendente de Jornalismo no Rio de Janeiro. É membro de Grau Superior na Ordem Rosacruz – AMORC.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

ALMA E CORPO (*)

Alma e corpo, corpo e alma: que mistério! Há algo de animal na alma, e o corpo tem os seus instintos de espiritualidade. Os sentidos podem apurar e o intelecto pode aviltar-se. Quem poderia dizer onde termina o ímpeto da carne e começa o ímpeto psíquico? Como são superficiais as definições arbitrárias dos costumeiros psicólogos! E como é difícil, mesmo assim, pronunciar-se a respeito das pretensões das várias escolas! Será que a alma é uma sombra trancada na casa do pecado? Ou será então o corpo a morar de fato dentro da alma, como defendia Giordano Bruno? A própria fronteira entre espírito e matéria é um mistério.
(*) copydesk/fragment by Eugenio Santana – publicitário, consultor, relações públicas, gestor comercial, supervisor de RH, jornalista, escritor, assessor de comunicação. Ex-Superintendente de Jornalismo no Rio de Janeiro. Revisor de textos jornalísticos no Diário da Manhã.

A RIQUEZA VERDADEIRA (*)

QUANTO É SUFICIENTE? Não medimos esforços para ganhá-lo, obtê-lo, herdá-lo, gastá-lo. O dinheiro, nós achamos, é a resposta a todos os nossos problemas. Mas será? Serão mais felizes os ricos? Uma sorte inesperada mudaria a nossa vida? A verdade por trás dos mitos do dinheiro vos libertará. A verdadeira riqueza não é o seu saldo bancário: é um sentimento de abundância. “Dinheiro não compra felicidade”. Quantas vezes já ouvi essa frase! Mas ter um pouco mais de dinheiro certamente aliviaria a pressão, pelo menos. Eu gostaria de liquidar minhas dívidas e reservar alguma coisa para o futuro. Muitas pessoas não pensam assim? O dinheiro parece ser a principal preocupação de quase todo mundo nos dias de hoje. Se não o temos, nos preocupamos em obtê-lo. Se o temos, nos preocupamos em mantê-lo. Famílias brigam por ele. Casamentos se fazem – e se desfazem – por causa dele. Carreiras giram em torno dele. Quase ninguém é indiferente a ele. E você ainda está convencido de que ele faria você feliz? Bem, um pouco mais feliz, de qualquer modo... A conclusão é que, apesar de toda nossa obsessão com dinheiro – em obtê-lo, gastá-lo, poupá-lo, investi-lo – o fato de possuí-lo não tem quase nenhum efeito sobre a nossa felicidade. A verdadeira riqueza não se mede por ativos ou fluxos de caixa, e sim pelo nosso sentimento de opulência.
(*) copydesk/fragment by Eugenio Santana, escritor, jornalista, publicitário, ensaísta. Autor de cinco livros publicados. Assessor de Comunicação de projeção nacional.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

VIDA É MOVIMENTO. TRANSFORMAÇÃO. TRANSCENDÊNCIA (*)

Puro insight. Certeza absoluta: vida é movimento. Transformação. Transcendência. Toque de iluminação anímico, oculto, invisível, incognoscível. Muito além de cósmicos jardins? Silente convocação de gregos, egípcios, essênios, rosacruzes, templários, celtas, druidas , maias, astecas e cátaros. Insólita chama acesa no coração de um escritor? Andarilho do tempo e da florestrela? Levitação do escriba no ostracismo, exercitando, purificando, sublimando seu involuntário ócio? Velado e inusitado convite ritualístico para um Novo Despertar de Consciências? Mero e vero exercício incontrolável e inconcebível de narcisismo e êxtase intelectual? Asa do tempo. Flor do tempo. Rosazul alada de um surrealista amanhecer. Visão da aurora boreal. Sol da meia noite ou meia noite em Paris? Encontro lunar com lilith? Águas misteriosas e pantanosas do conhecimento rudimentar da cultura oral da Austrália? Oráculos dos deuses. Mitos e ritos. Olimpo do verbo. Luz tênue no túnel da vivência humana. Claridade ofuscante de sabedoria milenar. Ancestral registro akhásico... Anos-luz na travessia de espaço-tempo da filosofia que encanta, canta, dança, baila, esvoaça asas e revoluciona o céu estrelado de lábios ávidos que emitem incessantemente estilhaços-fragmentos de Palavras de Luz. Lembranças-saudade. Registros memoráveis falhos, mas, o coração aceso ilumina o cérebro. Inquire, busca e pesquisa. Não contém o frêmito e quer deixar impresso nos Cadernos do Tempo e nos pergaminhos da vida os valores éticos de um escritor e jornalista valoroso, ético e que, inapelavelmente, diariamente comete “sincericídio.” É preocupante aqueles que cultivam e cultuam a síndrome dos valores invertidos do século 21: cientistas, tecnólogos, sociólogos, doutores controladores da robótica-cibernética, desejam que a palavra-luz-ensinamento, o livro impresso, termine no labirinto escuro de abissal abismo no mais profundo fundo oceânico. Esses infelizes, enviados do “encardido”, ruminam em vídeo-texto; viciados virtuais. Abomináveis senhores confinados, não roubem meus leitores, please! Ainda assim, apaixonadamente lanço essas pérolas ao sabor de indomáveis ciclones. Silenciosos albatrozes sobrevoando o mar da mediocridade e hipocrisia. Revelo – e não é nenhuma novidade – que só o AMOR INCONDICIONAL e a EMPATIA salvam, regeneram, libertam, transformam; sublima, eleva e enleva. O AMOR resistirá, inexoravelmente, aos séculos e milênios! O Amor será a razão vital para a continuidade da VIDA no planetazul. Maktub. (*) Eugenio Santana é cronista, contista, ensaísta, jornalista, publicitário e editor. Autor de cinco livros publicados. Sócio da UBE/SC – União Brasileira de Escritores, Florianópolis/SC. Fundador do jornal “Verbo-Pássaro”. Foi Superintendente de Imprensa no Rio de Janeiro.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O FIM DOS TEMPOS SEGUNDO EDGAR CAYCE (*)

Outro visionário extraordinário que predisse o fim dos tempos foi Edgar Cayce. Considerado por muitos como o mais talentoso vidente do século XX, Cayce era um clarividente americano, nascido em 1877 na zona rural do Kentucky, que fazia leituras psíquicas e proféticas inacreditáveis. Apesar de só ter o diploma secundário, Cayce tornou-se médico, curador, profeta e vidente, fez mais de 14000 leituras em 45 anos de atividade e nos mais diferentes assuntos. Era chamado pela imprensa como “O Profeta adormecido” porque fazia suas leituras de olhos fechados, deitado num divã com as mãos sobre o plexo solar, numa espécie de transe. Quando criança se sentia diferente dos outros e podia memorizar livros inteiros apenas por deitar-se sobre eles. Tinha visões desde menino e, quando seu avô morreu, Cayce dizia tanto ver quanto ouvir e falar com ele. Aos poucos, o vidente foi descobrindo seus extraordinários talentos, que iam desde diagnósticos de doenças, tratamentos de saúde, predições de assuntos pessoais, políticos e econômicos, até espiritualidade, leis universais, reencarnação, imortalidade, origem e destino da humanidade. Cayce previu o início e o fim dos conflitos das duas grandes guerras, o surgimento do Nazismo, a Grande Depressão de 1929, o fim do comunismo na Rússia e o surgimento da China como superpotência, além da morte de dois presidentes americanos e o surgimento de doenças modernas como o stress. Especialistas dizem que Edgar Cayce também anteviu o fim dos tempos e que a sua maior previsão era a de “uma catástrofe causada por forças do universo que agiriam sobre a Terra e provocariam uma mudança no eixo de rotação do planeta e a inversão dos seus pólos. Tais mudanças promoveriam inundações primeiramente nos EUA, depois em todo o continente, gerando um tsunami jamais visto que se propagaria até o Japão. O fim do continente americano alteraria as correntes marítimas, trazendo frio intenso para o norte da Europa e uma nova Era do Gelo.” Cayce, que nada sabia sobre placas tectônicas, disse que outras terras surgirão no Atlântico e no Pacífico, assim como haveria o ressurgimento do continente perdido da Atlântida, o aumento da atividade vulcânica, terremotos, tempestades e furacões.
Cayce se referia à Atlântida como uma civilização cujo nível de desenvolvimento era fantástico e que registros de tal povo podiam ser encontrados em alguns lugares do planeta como na península de Yucatán e no Egito. O mais incrível é que as mudanças climáticas e cataclísmicas previstas por Edgar Cayce se encaixam nas previsões para 2012, apesar do visionário jamais ter citado esta data especificamente. Edgar Cayce morreu em janeiro de 1945, de um acidente vascular cerebral. (*) Jornalista Eugenio Santana

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

AMOR TRÁGICO E SURPREENDENTE (*)

Nem um carro, nem um transeunte, nem um gato, nem um cão. De vez em quando, nuvem de poeira. Por volta das 6 horas, sombras furtivas começarão a esgueirar-se ao longo das altas casas abandonadas. Sombras dobradas ou torcidas, lutando contra o vento selvagem. Dentro em pouco, tudo voltará a ser deserto de pedra e poeira. O inverno vale a pena ser vivido. É de um rigor incomparável. Não nos poupa nada, atormenta-nos, julga-nos. Obriga a nos olharmos bem de frente, no espelho, reduzidos à nossa expressão mais simples, ou seja, a nós mesmos, isto é, à angústia. Os homens que acotovelam as mesas de mármore fingem ver a TV. Silhuetas torcidas se agitam. A locutora sorri para os anjos e anuncia a chuva e o tempo bom. Poderia anunciar o fim do mundo, que os homens não se mexeriam, continuariam assim, como estátuas. São velhos, são nodosos, são oliveiras destacadas da terra. São indiferentes e impassíveis. Invejo-os. E o autor, bem entendido, na justa medida da minha loucura, se estou louco, da minha angústia, se estou angustiado, do meu delírio, se estou delirante. De todas as maneiras, da minha solidão. Estou só. Assim o quis. Detesto as multidões. -- E por que precisa de solidão? -- Na vida de cada um, chegam um momento e uma idade... Tenho quarenta e seis anos... Em que é necessário determinar a rota, fazer o balanço das nossas forças e das nossas fraquezas, das nossas derrotas e das nossas conquistas. Esse momento chegou, para mim. -- Mesmo no plano sentimental? -- Mesmo no plano sentimental. Quanto à alusão, não pense que ela me perturba. -- Pensa escrever outro livro? -- Sem dúvida. -- Um romance? -- Um romance autobiográfico. -- Detalhes? -- Só posso dizer que se intitulará “Os Pessegueiros Florescem no Outono.” -- Onde pensa refugiar-se? -- Não sei ainda, provavelmente em Edeia, Pirenópolis, Goiás Velho, São Miguel do Passa Quatro, Silvânia, Pilar de Goiás, Ceres, Orizona, Itapaci... ... A imprensa retira-se. (Setembro de 2011). Neuroforia, isso não vem no dicionário. Durante três noites, Zoé sumiu. Uma noite voltou tranqüila, um pouco cansada. -- Acabou a neuroforia. Mais tarde, bem mais tarde, ela tentou explicar-me. Vou, por meu lado, tentar traduzir Zoé. Digamos que a neuroforia é uma força incoercível, louca, que nasce em nós, cresce e explode. Então, nada nos pode impedir de ir até ao limite de tudo. E mais além, se for possível. Então, a gente luta, bebe e come, faz o amor e toma drogas, fala e fala ainda. Isso pode durar de dez a cinqüenta horas, até que o doente fique exausto. É a fuga para diante, à frente da angústia. É a chance da última chance. É engolir o tempo e engolir o espaço. E negá-lo. Milhões de homens morrem intatos. Ou seja, pouquíssimos diferentes do que eram ao nascer. Sem terem conhecimento realmente de nada, nem experimentado, nem aprendido. Morrem intatos, sem jamais terem gasto o capital psíquico, a força real, o dinamismo que é dado a cada indivíduo. Um monte de carvão não consumido, que se deixa apodrecer sobre o chão da mina. Esses consumiram a vida. O amor não existe, eu juro. É hora de dizê-lo, de proclamá-lo por cima dos telhados, de anunciá-lo à trombeta. Ou, melhor, minha cara Zoé, o amor não existe senão para alguns. Eis o segredo. E você, com as suas recordações de pesadelo, não faz parte daqueles a quem foi dado o amor. Você, como milhares, como milhões de outros. Como todas as multidões imensas do planeta, que obedecem a reflexos condicionados. Todos alienados pela religião, pela mídia, pela TV, pelo cinema, pela literatura, a boa e a má, que miam a cada minuto, a cada segundo, o amor, sempre o amor. Não há amor, não há milagre para todos esses, desprovidos, condicionados, que vivem redondamente equivocados. O amor, o verdadeiro, é sempre trágico, exaltador. É uma sociedade secreta, cuja iniciação é cruel e complexa. É o que viviam Tristão e Isolda, com a espada no centro do leito. É o que perseguia Dom Quixote nas planícies da Mancha, essa caça à sombra, essa busca exaustiva e raramente triunfante. Donde a necessidade que eu tenho da literatura. É mais fácil e menos perigoso. Estamos tão doentes! A maioria não sabe, mas eu sei. -- Doente de quê, Sr. Mário? -- Não da alma, não da consciência, não do cérebro. Não, é demasiado vago. Doente de ternura, de generosidade, solidariedade e do dom de si mesmo. Doente de Deus, talvez, doente de amor sempre. Doente do corpo de todas as mulheres do mundo. Doente do tempo e doente do espaço na busca infrutífera de transcendência, consciência cósmica e uni/versos paralelos; doente das palavras, quando escrevo e não publico, das carícias, quando amo, dos lençóis, quando durmo. Doente da morte, cara doutora. -- E qual o seu remédio, caro escritor? Não há remédio, a não ser, sempre e sem parar, a contestação e o protesto. Tem de haver orvalhos e vaga-lumes no jardim que velam todas as noites enquanto os outros dormem e têm pesadelos. Tem de haver quem berre, ao vento, as verdades essenciais, quem despedace e quem destrua, quem ponha tudo em causa, minha bela. E não importa que meio, recomendável ou não. O importante é que deixe marcas. -- O senhor é um anarquista, Sr. Mário. -- E a senhorita é uma imbecil! A caverna tem isto de bom, é confortável e ao abrigo dos outros. Cada qual pode ficar indefinidamente na sua caverna. É, aliás, o que todo mundo faz ou se esforça por fazer. Só eu resolvi sair da minha caverna, e há muito tempo. Ou, mais exatamente, errar de caverna em caverna, sabendo o que elas são, apreciando provisoriamente o seu conforto, mas sem nunca dormir nelas. Sei agora que as sombras não passam de sombras. Sei que lá fora é dia, mas que no interior das cavernas ainda posso representar e me contar histórias. Não sou mais um idiota. Tudo isto para lhe dizer que não existe pessoa dupla de você ou de quem quer seja. Que somos sós e únicos, e que é preciso acomodar-se a esse estado. Conseqüentemente, tenho ao mesmo tempo a tristeza e o prazer de lhe diz er, de lhe afirmar, de lhe jurar que o amor não existe. Fricciono-me. Sinto-me realmente novo, mudei de pele a neuroforia foi afogada. Volto para o quarto, visto-me. Trouxeram a bandeja com o chá, o doce, as torradas e a manteiga. Sirvo-me, bebo, como, o mundo me pertence. Estou pronto, gentleman bem barbeado e cheirando a lavanda. Zoé guarda a roupa suja na maleta. Termino o meu chá. Zoé pega a maleta, dirige-se para a saída, eu a sigo. Segui-la-ei até ao fim do mundo, e seguirei apenas a ela. Ela acende um cigarro, põe o carro em marcha. – ligue o aquecimento. O navio deixa o porto. É necessário morrer, quando os rostos já não nos fazem sinais, quando as vozes se tornam incompreensíveis. Então, é uma questão de dignidade. Não se morre quando um ser nos abandonou. Morre-se quando nós mesmos nos abandonamos. Estou aqui, não estou aqui. Não sei nada. Em suma, quero anular-me, mas com todas as garantias possíveis. Quero ter a certeza de que estou desertado. Sôo oco, sou um fantasma. E grito para dentro, como um filósofo-de-bolso: a vida é absurda, eu sou absurdo. Ando às voltas dentro das armadilhas da casa de vidro. Zoé, silenciosa, vigia-me. Assiste impassível à minha agonia, como boa conhecedora. Dêem-me garantias e eu me anulo, fico fora de combate. Silêncio. As vozes cochichadoras, destiladora s de bons conselhos, estão mudas. Cabe a mim arranjar-me, só, sempre só. E recomeçar uma vez mais a análise das razões, a procura das causas. Não se trata dos meus livros, mas da minha alma. Não me interessa a literatura, não me interessam os meus livros. “Todos os meus livros por um Reino!” O que eu procuro, é um reino. O que eu preciso é fazer um inventário, uma grande faxina. Jogar fora o que estiver demasiado usado, limpar e só guardar o essencial. Voltar ao essencial, ao absoluto, ao definitivo. Gostaria de ter a meu lado um ser com quem pudesse falar, a quem pudesse comunicar tudo o que vivo, tudo o que experimento. Zoé não basta. Com ela, são sempre monólogos paralelos. E onde está ela? Onde está aquela que viverá comigo todas as aventuras do corpo e do coração? E também do espírito. Aquela que comigo construirá a alta torre da solidão partilhada? Finalmente... Luciene. O mesmo sentimento cada vez que a vejo e a mesma impotência para expressar essa espécie de paralisia que atinge. Poderia amá-la até à eternidade, amá-la até morrer, com todas as pisaduras e todas as feridas do amor. Com todas as ternuras do mundo e todos os impulsos que só esperam para brotar, verdadeiros e fortes. A estrada. Os faróis, os plátanos. Uma luz baça envolve a noite. Talvez vá chover. O silêncio repousado. O da satisfação e da paz. As palavras não significam mais nada. Pulverizaram-se. Recordar. A avareza da Memória. Recordar-se dos momentos, arquivá-los, guardá-los na cabeça... Explodi neste amor. Fiquei reduzido a pó. Mas para ressuscitar, para ressuscitar, enfim. E que tudo agora seja claro e legível. Quero ler-me em livro aberto... Os plátanos, a estrada, os faróis. A neblina branca, dissimulada... Era para melhor renascer. Ressuscitei... Uma transformação teve lugar quando eu já não esperava nada. Quando eu já pedia demissão... O amor que temos a fazer, a inventar. O império que precisamos edificar. Depressa, muito depressa. Precisamos lutar contra o tempo, agarrá-lo em velocidade. Ele é o inimigo. Um amor, isso existe? Existe, mas em estado bruto. É uma pedra, um objeto. E a gente não sabe o que fazer com essa pedra, embora tudo se possa inventar. É preciso dar um sentido ao amor, uma direção. Animá-lo, iluminá-lo. De outra forma, ele fenece, asfixiado pela sua própria inércia... Crer na virtude das palavras por si sós. Mas as palavras não têm virtude, a não ser a que se lhes quer dar. E que se lhes dá por impotência, por ociosidade, por covardia. Também é fácil fazer um filho. Supremo álibi para lutar contra o medo e a solidão. E a morte, também. Para existir por procuração. Para enganar. Um menino, isso permite, por instante, julgar-se imortal. Não mais fingir viver com os outros que fingem viver. Admitir que os meus antigos amores eram falhos, que não passavam de atos de egoísmo e de orgulho. Admitir que aquilo que a que eu chamava de “minha filosofia” nada mais era do que paródia de um pensar rigoroso. Admitir que o que eu escrevi nada mais foi do que o reflexo do carnaval em que vivi. A descrição hábil dessa partida de esconde-esconde de que eu brinco comigo mesmo há quarenta e seis anos, para não me confrontar com a “minha realidade”. Negar-me. Aprender a humildade. Um par de faróis me ilumina e me fustiga. O carro de Luciene acaba de estacionar ao lado do meu. Fico imóvel, paralisado. Ela me vê. E eu, alucinado, vejo-a descer, vir para mim, inclinar-se para mim, beijar-me. E eu soluço.
-- Luciene, Luciene, meu amor... Os anjos da escuridão... Eles quase me tiveram. (*) EUGENIO SANTANA é cronista, contista, poeta, crítico literário, jornalista, publicitário, relações públicas, assessor de comunicação. Foi Superintendente de Imprensa no Rio de Janeiro e é membro efetivo da Academia de Letras do Noroeste de Minas (ALNM), cadeira número 2

domingo, 4 de novembro de 2012

VOCÊ FALA COM OS OLHOS

Suas palavras entram em mim de forma inusitada.
Você fala com os olhos. Suas pálpebras sobem, descem, numa alternância incrível; permanecem abertas, semicerradas, fechadas. E atrás delas estão os olhos, lindos e expressivos, compondo uma sinfonia que faz dançar os meus no compasso dos seus. Vejo o que seus olhos vêem. Suas palavras trazem a doce canção da sua alma alada azul, no timbre do bem-querer que instiga todo o meu ser. Mesmo que fossem em língua estranha, eu entenderia o que você está me dizendo. Suas mãos, qual asas ao vento, dançam um bailado místico do corpo que emana uma energia sutil infinita, cósmica. Que acende meu vôo de transcendência. Sua energia é sua vida, que me leva a voar à sua volta, incansável, perdidamente atraído pelo que você é. Levo-a para meus sonhos e devaneios. Quero-a andando pelas nuvens, deitada ao sol, acariciada pela lua, abençoada pelas estrelas. Tudo agora é tão efêmero. Só nós dois. Somos a eternidade.

A FACA E A FERIDA; O BÁLSAMO E A DOR (*)

Li certa vez na “Filosofia da Composição”, de Edgar Allan Poe que “a Beleza é a única província legítima do poema” e que “o tom de sua mais alta manifestação é o tom da tristeza”. A beleza de qualquer espécie, em seu desenvolvimento supremo, invariavelmente provoca na alma sensitiva as lágrimas. A melancolia é, assim, o mais autêntico de todos os tons poéticos. É verdade! Meditei enquanto evocava uma afirmação da poetisa Adélia Prado: “Poesia é a revelação do real, é a coisa mais triste e mais bonita que existe!” É triste, por exemplo, acreditarmos que Deus tomou forma humana em Jesus e que morreu numa cruz para nos salvar, para pagar ao Príncipe que reina neste mundo, o príncipe do poder e do mal, o nosso resgate. É triste, mas é belo, enche-nos de esperança e de consolo, eleva a nossa alma ao céu da gratidão e do amor. Assim é a verdadeira poesia, aquela que nos traz emoções psíquicas breves e intensas, lágrimas de puro prazer. Lembrei-me de quando era adolescente. Tinha como todos os adolescentes uma grande inquietação e oscilava e todo instante entre o riso e o choro. Sentia-me sozinho, franzino, e feio. Tinha dificuldade de me relacionar com as pessoas. Chegava em meu quarto, trancava a porta e punha-me a ler livros e mais livros de filosofia e poesia. São daquele tempo as vozes românticas de Cruz e Sousa, Drummond, Vinícius, Augusto Frederico Schmidt, Manuel Bandeira e Martins Fontes. Eu lia e chorava e entre soluções pensava – eles me entendem, sofrem como eu, a casa da poesia é a minha casa, é onde quero sempre morar. Caímos aqui num ponto crucial: quantos poetas jovens acabaram no suicídio ou se afogaram no desânimo e na depressão; quantos outros tomaram o caminho da rebeldia e se voltaram contra família, moral e religião: Jean-Nicholas Arthur Rimbaud, Maiakovski, Kaváfis, Sílvia Plath, Lord Byron, Baudelaire, Augusto dos Anjos, Hilda Hilst, Florbela Espanca, Fernando Pessoa. A lista é desnecessária e seria muito extensa. Ser poeta é perigoso, é caminhar pelo fio de uma navalha. Qual a saída? A saída é a sublimação da alma através da poesia. A poesia deve ser para o poeta a tábua de salvação e o mar encrespado; a faca e a ferida; o bálsamo e a dor. Há uma grande tristeza intacta no fundo da alma de cada poeta! (*) Eugenio Santana, FRC - é místico rosacruz desde 1983; Escritor: contista, cronista e verse maker; jornalista, copydesk, publicitário, revisor de textos, editor e crítico literário. Autor de livros publicados

A BREVIDADE DA VIDA (*)

A vida na terra é uma atribuição efêmera. Nossos dias sobre a terra são transitórios como uma sombra. Para usar sua vida da melhor forma possível, você não deve nunca esquecer duas verdades. Primeira: em comparação com a eternidade, a vida é extremamente breve. Segunda: a terra é apenas uma residência temporária. Você não ficará aqui por muito tempo, então não fique muito apegado. Peça ao Todo-Poderoso que o ajude a ver a vida na terra como ele a vê. Mostra-me como a vida é curta e eu sou frágil. Você só está de passagem, apenas visitando. As pessoas deveriam carregar "green cards" espirituais, para nos lembrarmos de que a nossa cidadania é no céu. A nossa identidade está na eternidade, e a nossa pátria é o céu. Quando flertamos com as tentações deste mundo, o Ser Supremo chama isso de adultério espiritual. É somente ao lembrarmos que a vida é um teste, uma incumbência de confiança e uma atribuição temporária que o encanto dessas coisas perderão o domínio sobre nossa vida. As coisas que vemos agora estão aqui hoje e amanhã se foram. Mas as coisas que não podemos ver agora vão durar para sempre. Para impedir que fiquemos muito apegados à terra, Deus nos permite sentir uma substancial quantidade de descontentamentos e desgostos na vida - anseios que jamais serão satisfeitos deste lado da eternidade. Não somos completamente felizes porque não era para sermos! A terra não é nosso lar definitivo; fomos criados para algo muito melhor. Você terá momentos felizes por aqui, mas nada comparado ao que Deus tem planejado para você. Tudo o que não é eterno é eternamente inútil. É preciso ter fé para viver na terra como estrangeiro. (*) EUGENIO SANTANA é escritor, jornalista e poeta.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A COMUNICAÇÃO VERDADEIRA E PROFUNDA(*)

Às vezes não sentimos, mas cada um de nós é um mistério diferente de todos os outros. O mistério que você é e o mistério que eu sou nunca existiram antes. Ninguém exatamente igual a você ou a mim vai existir outra vez. A combinação de suas qualidades e seus talentos é um conjunto que nunca foi reunido antes. É tão particular quanto suas impressões digitais. E só você pode compartilhar seu mistério e seus talentos comigo. Também é verdade que cada floco de neve e cada grão de areia da praia tem uma estrutura particular, diferente de todas as outras; da mesma forma, eu também sou diferente de todos os outros seres humanos de toda a história de nossa espécie. O tesouro de minha originalidade é meu, para dar ou para recusar. Se você prefere recusar-me seu tesouro, serei privado do conhecimento do mistério particular e da experiência de sua pessoa. Da mesma forma, posso recusar-lhe a experiência indireta do que é ser minha pessoa. Assim como uma recusa mútua nos deixará para sempre essa privação, a possibilidade oposta também é verdadeira: podemos ficar enriquecidos para sempre pela abertura e pelo compartilhamento mútuo. A participação indireta na existência de outro ser humano único sempre é enriquecedora. Essa é a grande dádiva da comunicação. Ao dizer-me quem é, você compartilha comigo sua originalidade, faz-me entrar num mundo diferente, num tempo e um lugar diferentes, numa família diferente. Você vai compartilhar comigo seus antigos vizinhos e contar-me as histórias que ouviu quando criança. Vai me levar pelos vales e topos de montanhas que eu nunca vi. Vai me fazer entrar nos cofres secretos das experiências que não fizeram parte de minha vida. Vai me apresentar a emoções, esperanças e sonhos que nunca foram meus. Isso só pode aumentar as dimensões de minha inteligência e de meu coração. E ficarei para sempre enriquecido pelo que compartilhamos. Meu mundo experienciado vai ficar permanentemente maior por causa de sua generosidade para comigo. Para conseguirmos ajudar um ao outro, preciso abrir minha pessoa e meu mundo para você entrar. E você precisa abrir sua pessoa e seu mundo para mim. Preciso permitir-lhe experienciar-me como pessoa, em toda a plenitude do que sou. E preciso de permissão para experienciá-lo da mesma forma. Preciso dizer-lhe quem sou e você precisa dizer-me quem é. Esse tipo de comunicação é o único caminho que leva às riquezas mais preciosas de uma relação humana. A comunicação verdadeira e profunda com o outro é absolutamente necessária para nosso crescimento enquanto pessoas. A maioria de nossas relações dizem respeito basicamente às coisas práticas, como resolver problemas e fazer planos. A ênfase primordial deve ser, ao contrário, nesse compartilhar mais profundo de nossas pessoas.
(*) Copydesk/fragment by Eugenio Santana, escritor e jornalista.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A DESTRUIÇÃO DA FLORESTA AMAZÔNICA (*)

O Brasil é a segunda maior nação florestal do planeta, depois da Rússia, mas a mais rica em biodiversidade, uma vez que as florestas tropicais abrigam um número muito maior das espécies. Dos 8,5 milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro, mais de 60% são cobertos por florestas naturais exploradas por várias cadeias produtivas, como papel e celulose, madeira e móveis, siderurgia, lenha e energia, óleos e resinas, fármacos, cosméticos e alimentos. Só os três primeiros setores empregam 7 milhões de pessoas e geram 4% do PIB. Trata-se, portanto, de uma economia expressiva e de vasta capilaridade social, entranhada na cultura brasileira, embora explorada sob a lógica do mais puro imediatismo: apesar do vigoroso desenvolvimento da indústria do reflorestamento, o país consome quase duas vezes mais madeira natural do que madeira plantada. O índice de ilegalidade na extração de madeira nativa na Amazônia é altíssimo. Cerca de 22% das florestas da Região Norte já foram destruídas. Uma das causas do desmatamento recorde que o país ostenta há 40 anos é a exploração predatória e itinerante das florestas por meio da migração ilegal de serrarias para áreas virgens tão logo uma área se esgota. Em 1994, o Brasil desmatava 29 mil km quadrados de florestas por ano. Esse número caiu para 7 mil km quadrados por ano, atualmente. No entanto, essa importante conquista não basta. Consumidores esclarecidos sabem que as florestas não são um “fator de produção” comum, pois prestam serviços ambientais como regulação de chuva e do clima, proteção de bacias hidrográficas e conservação da biodiversidade. Elas também são a base do desenvolvimento das biotecnologias que movimentam um mercado global sete vezes maior do que o mercado de madeira. A modernização da economia, a promoção do potencial florestal e a preservação dos serviços ambientais das florestas dependem da sua conservação “em pé”. Mudar a cultura predatória e consolidar a incipiente tecnologia do manejo sustentável das florestas naturais são desafios de fundamental importância para o Brasil.
(*) Eugenio Santana, jornalista investigativo e cultural.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

CICLO DE SOFRIMENTO, RENASCIMENTO E SUPERAÇÃO (*)

Algumas de nossas histórias mais conhecidas, da Antiguidade aos dias de hoje, ilustram a transformação pessoal que pode ocorrer quando alguém completa um ciclo de sofrimento, renascimento e crescimento. Esse processo está profundamente enraizado em nossa história e seu conhecimento pode nos ancorar quando vivenciamos a turbulência dos nossos próprios ciclos de dor. A história de Jó, no Velho Testamento é um exemplo interessante. De acordo com a Bíblia, ele era o homem mais poderoso de todo Oriente. Possuía milhares de camelos, bois, ovelhas, burros e escravos. Tinha sete filhos e três filhas. Apesar disso tudo, seu inferno pessoal durou muitos e muitos dias. Foi, de fato, uma experiência profundamente pessoal. Antes mesmo que um portador de más notícias partisse, outro chegava: seus burros e bois haviam sido roubados, e os homens que cuidavam deles, mortos; as ovelhas e os pastores morreram, vitimados por raios em uma tempestade; um bando de malfeitores roubou seus camelos. Por fim, chegou a pior notícia de todas: durante um banquete, o teto da casa desabou, matando seus filhos, noras e filhas. Ele perdeu a família e todos os seus bens materiais. E qual foi a reação de Jó? Caiu de joelhos e disse: “O Senhor deu, o Senhor tirou, abençoado seja o nome do Senhor!”. A história conta que Jó recebe de volta todos os seus bens em dobro e que viveu mais cem anos. Em outras palavras, quando ele deixa de reagir defensivamente diante das perdas e aceita a responsabilidade pelo presente, então é transformado. Fica em paz e mais uma vez sua vida se enche de prosperidade. Toda a história de Jó gira em torno de suas dolorosas reações emocionais. Quarenta e um capítulos descrevem sua dor, e o último refere-se à sua aceitação de uma nova realidade, a uma profunda iluminação, a uma descoberta: “Falei de coisas que não entendia, maravilhosas demais para a minha compreensão”. Quando Jó fez alusão às coisas que não entendia, tenho certeza de que se referia ao fato de ter descoberto que todas as mudanças e perdas fazem parte de ciclos: sofrimento, renascimento e crescimento. (*) Eugenio Santana é escritor e jornalista. Autor dos livros publicados: “Asas da Utopia”; “Guiado pelos Pássaros”; “Florestrela”; “Crepúsculo e Aurora” e “InfinitoEfêmero”.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

PÁSSAROS MIGRAM SEM DESTINO (*)




Ardo em chamas. No quartel, bombeiros afinam instrumentos da banda.

Todos os telefones estão mudos. O vento, senil, dorme nas dobras da noite.

Ardo em chamas. Não há plantão na farmácia nem remédio para tamanha loucura.

Pássaros migram sem destino.

Ardo solitário num deserto sem oásis.

A angústia goteja e perfura entranhas e desejos.

Nem toda a água do mar bastaria para apagar este incêndio.

Sob o fogo, estranha euforia dilata artérias e desejos. Calcinado, serei enterrado em teu corpo, sem promessa de ressurreição.

Quero-te poesia, poço, paço, parto e ponte.

Essa dor clama e chamusca minha alma alada de ardor.

(*) Eugenio Santana é escritor, jornalista e poeta. Autor de cinco livros publicados. Consultor na Empresa NWI - T.I.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

RECOMEÇAR... (*)




Nossas vidas também estão sujeitas a ciclos e estações. Todos nós experimentamos um fluxo interminável de começos e fins. Todas as estações de nossas vidas têm começos e fins, que levam a novos começos. Quando termina a infância, começa a adolescência, quando a idade adulta termina, começa a meia-idade, terminando a meia-idade, começa a velhice.

Como gostamos dos começos, temos costume de celebrar o novo. Geralmente resistimos aos finais e tentamos adiá-los. Muitas vezes, deixamos de sentir a alegria dos começos porque sabemos que todos eles escondem as sementes de algum fim. Talvez alguns finais possam ser dolorosos, mas essas dores diminuem se não resistirmos e considerarmos o tempo como um processo natural: como brotos que surgem na primavera e se desenvolvem em folhas verdes, no verão amadurecendo e tornando-se douradas no outono e desfolhando no inverno. Compreender que somos parte integrante do grande projeto do Criador é um grande consolo.

Muito de nossa resistência aos finais é proveniente de nosso desconhecimento sobre novos começos e de nossa incapacidade de acreditar na possibilidade do novo começo. Quanto mais nos permitirmos confiar no fato de que todos os finais trazem um novo ciclo, mais diminuirá a nossa resistência ao novo.

Imagine ser uma lagarta, sentindo um estranho desejo de tecer um casulo ao redor do corpo – morte certa! Como deve ser difícil desistir da única vida que se conhece, essa vida de rastejar na terra, em busca de alimento. No entanto, o final dessa vida de verme confinado à terra significará o começo de uma outra vida, sob a forma de uma linda borboleta...

O poderoso potencial das transformações se baseia na possibilidade, inerente a cada novo começo, de trazer alegria e liberdade em proporções nunca antes imaginadas. Se isso verdadeiramente acontece ou não – se continuamos ou não a evoluir por meio dos ciclos de nossas vidas – depende em grande parte de nós.

Podemos considerar todos os finais como tragédias – lamentando-os e resistindo a eles – ou podemos considerar cada um como um novo começo e uma abertura para maiores oportunidades. O que para a lagarta é a tragédia da morte, para a borboleta é o milagre do nascimento.

(*) EUGENIO SANTANA é escritor, jornalista, ensaísta literário, publicitário, poeta e Editor-fundador da Hórus9 Editora. Foi Superintendente de Imprensa no Rio de Janeiro (2009/2011). Atualmente, é CONSULTOR na Empresa NWI.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O AMOR ACONTECE NO TEMPO CERTO (*)






Sim, é verdade que existe um dito popular avisando que "quem muito escolhe acaba escolhido". Entretanto, o lembrete serve para nos alertar sobre o excesso de críticas, o orgulho exagerado ou a análise que paralisa e impede a tomada de decisão.

Ou seja, o ideal é aprender a calibrar o coração para que não haja nem negligência no ato de decidir se é hora de exercitar o amor ou de esperar, nem um medo sem sentido de tentar de novo. Pessoas carentes demais, que aceitam qualquer relacionamento para aplacar seu pavor de ficar só e ter de encarar a si mesmo e suas limitações, certamente, vão terminar e começar relações sem se questionarem qual o aprendizado, qual o amadurecimento para um futuro encontro que seja mais satisfatório e harmonioso.

Por outro lado, pessoas críticas demais, orgulhosas demais ou que morrem de medo de se entregar a uma relação e vir a sofrer, também pagarão um preço alto, muitas vezes amargando a solidão e se privando da alegria e do privilégio de vivenciar o amor.

Minha sugestão é para que você, em primeiro lugar, tenha muito claro para si o que realmente deseja viver quando o assunto é amor. O que tem para oferecer? Quanto se sente preparado para lidar com as dificuldades que vêm à tona num relacionamento, sejam elas ciúme, insegurança, falta de auto-estima, ausência do outro, diferenças de ritmo etc.? Quanto já aprimorou sua habilidade de se comunicar, de falar sobre o que sente, o que quer e, principalmente, de ouvir o outro e tentar uma conciliação sempre que necessário?

Depois, com um mínimo de autoconhecimento, sugiro que você se questione e reflita sobre sua noção de merecimento e crenças. Quanto você realmente acredita que merece viver um amor baseado na confiança, na lealdade e na intensidade? Quanto você realmente acredita que possa existir um amor assim? Pode apostar: se você não acredita nesta possibilidade, dificilmente vai viver uma relação que valha a pena, simplesmente porque esta opção não faz parte do seu universo, do seu campo de visão.

E, por último, mais do que ansioso ou distraído, mantenha-se tranqüilo e seguro de que o amor acontecerá no momento certo. Nem antes e nem depois. Não é preciso que você busque desesperadamente. Apenas viva a partir do que existe de melhor em você e permaneça presente, atento ao que acontece ao seu redor. E todo o universo estará conspirando a seu favor, porque, afinal de contas, nascemos para amar e sermos amados.

(*) Eugenio Santana é escritor, jornalista, publicitário, poeta e ensaísta literário. Autor dos livros publicados: “Asas da Utopia” (1993); “Guiado pelos Pássaros” (1994); “Florestrela” (2002); “Crepúsculo e Aurora” (2006) e “InfinitoEfêmero” (2012)