quarta-feira, 25 de março de 2020

A VISÃO FUTURISTA DE ALBERT CAMUS EM "A PESTE" (*)

Sessenta anos são transcorridos da morte prematura de Albert Camus. Ao escrever “A Peste”, ainda sob o impacto dos horrores da Segunda Guerra e da luta de libertação argelina, ele associa o absurdo, “que não se encontra no homem e nem no mundo, mas na coexistência entre ambos”, a uma surpreendente solidariedade que surge entre os seres humanos exclusivamente em momento de extremo estresse, como aquele vivenciado em situações de guerra e de peste, o que nos leva à atualidade da sociedade humana e da pandemia provocada pelo vírus Covid-19. Numa pandemia como a de “A Peste”, para Camus todas as ideias gerais soam falsas e o mundo agredido e agressor não lhe parecia nem explicado ou explicável. “A Peste” é a vida em comunidade. Oran, uma cidade imaginária na costa argelina, é acometida por suposta impossibilidade: um surto de peste bubônica na segunda metade do século XX! Antes da praga a cidade era modorrenta, o homem a tornara inóspita, previsível nos negócios e nos costumes. “Oran é feia… Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas e nem o sussurro de folhas. Apenas nos céus se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pelos cestos de flores que trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende em mercados.” E assegura que uma forma cômoda de travar conhecimento com uma cidade é procurar saber como se trabalha, como se ama e como nela se morre. “Na nossa cidade tudo se faz ao mesmo tempo, com o mesmo ar frenético e distante. Nossos concidadãos trabalham muito apenas para enriquecerem… Os homens e as mulheres se devoram rapidamente, no que se convencionou chamar de ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois… O mais original é a dificuldade que se tem de morrer. O doente fica muito só, dada a importância dos negócios e a qualidade dos prazeres. O que dirá o ato de morrer!” Logo, Oran é uma cidade absolutamente contemporânea, poderia ser qualquer cidade média de nosso Brasil. Um primeiro rato morre com hemorragia, depois outros e outros, aos milhares; por fim os ratos moribundos desaparecem da cidade. Logo a seguir morre o primeiro ser humano. “A imprensa tão indiscreta no caso dos ratos, não mencionava nada (a respeito dos humanos). É que os ratos morrem na rua e os homens em casa. E os jornais só se ocupam das ruas.” A descrição dos sintomas, das dores, das mortes que se acumulam é realizada minuciosamente e sem “piedade”. Mas a administração pública insiste em esconder o flagelo até que não seja mais possível fazê-lo e a cidade inteira entra em quarentena, como se sitiada fosse e os isolamentos internos são instituídos. “Os flagelos, na verdade, são coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós…Os flagelos não estão à altura do homem: disse-se então que o flagelo é irreal, um sonho mau que irá passar.” “Mas nem sempre ele passa e, de sonho mau em sonho mau, são os homens que passam e os humanistas em primeiro lugar, pois não tomaram as suas precauções”. Em “A Peste” o que mais interessa ao autor é mostrar como se comportam as pessoas quando começa a ruir tudo o que elas acreditavam ser sólido: os intercâmbios, as apostas ou bolsas de valores, as relações familiares, as comunicações, a saúde, num transformar dos habitantes em exilados do mundo. “Como poderiam ter pensado na peste que suprime o futuro, os deslocamentos, as discussões? Julgavam-se livres e nunca alguém será livre enquanto houver flagelos”. E como se comportam os “oranianos”? Inicialmente, quando os portões das cidades são fechados pelo isolamento do mundo, os laços de amor e amizade estreitam-se. Outra decorrência da peste é o exílio a que todos são confinados. “A partir de então, reintegrávamo-nos, à nossa condição de prisioneiros e estávamos reduzidos ao nosso passado e ainda que alguém fosse tentado a viver no futuro, logo dele renunciava ao experimentar as feridas que a imaginação finalmente inflige aos que nela confiam… Assim, experimentavam o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e exilados, vivendo com uma memória que não servia para nada… Impacientes com o presente, inimigos do passado e privados do futuro”. Isolamento que, gradualmente, também nivelará as pessoas, encurtando as distâncias sociais. A Peste não possui classe social quando se torna epidemia: “Porque a peste se tornava assim o dever de alguns, ela surgiu como realmente era, isto é, o problema de todos”. No princípio, quando as pessoas julgavam a peste uma doença qualquer, a religião tinha muito prestígio, os sermões do Padre Paneloux eram extremamente concorridos e ele convocava todos a se arrependerem, a buscarem o perdão divino. “Mas quando viram que o caso era sério, lembraram-se do prazer e toda a angústia que se pinta durante o dia nos rostos, dissolve-se ao crepúsculo, numa espécie de excitação desvairada, numa liberdade desajeitada que inflama todo um povo”. Camus presta muita atenção ao amor entre os amantes e ao valor da amizade: “A peste é preciso que se diga, tirara de todos os seres o poder do amor e até mesmo da amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes… Ao mesmo tempo, a peste suprimia juízos de valor”. Porém, quando “já não havia destinos individuais, mas uma história coletiva que era a peste, os sentimentos eram compartilhados por todos”. E é essa dor que devolve o valor e a força aos sentimentos. “Há sempre alguém mais prisioneiro que eu- essa era a frase que resumia a única esperança possível”. Quando casas de empesteados foram fechadas ou incendiadas por motivos sanitários, começaram também os saques. “Foram incidentes que forçaram as autoridades a assimilar o estado de peste ao estado de sítio e aplicar as leis decorrentes”. Na peste e no isolamento tudo se sacrifica à eficácia de medidas que evitem a disseminação do mal. Mas existe ainda a solidariedade humana. O comportamento de determinado grupo de pessoas que se dedicará à luta contra a peste será o da mais estrita solidariedade. “Era uma luta resignada, mas persistente, ao mesmo tempo ilimitada e sem ilusões”, aquela travada pelos homens que providenciavam o isolamento sanitário dos doentes e a quarentena dos familiares, assim como um mínimo de atendimento às vítimas da peste. A solidariedade humana é simbolizada por pessoas como o Dr. Rieux (que ao final se identifica como o narrador do episódio), um ateu que dá tudo de si no combate ao flagelo apenas por “estar bem consigo mesmo”; um “Rieux que julgava estar no caminho da verdade, lutando contra a criação tal como ela era”. Quando um popular lhe diz que ele não tinha coração, Rieux para e reflete que coração ele o tinha, pois lhe servia para suportar as vinte quatro horas por dia, nas quais via morrer homens que haviam sido feitos para viver. “O que eu odeio é a morte, é o mal. E quer queira, quer não, precisamos estar juntos para combatê-lo”. Para o narrador o heroísmo tem sempre um papel secundário perante a necessidade de luta pela felicidade, e “o hábito do desespero é pior que o próprio desespero”. O que restava ao médico ao qual não era dado salvar vidas, pois a peste era mortal? Tão somente “descobrir (o flagelado), ver, descrever, registrar, depois condenar e ordenar o isolamento”. A solidariedade também é encarnada no padre Paneloux. Ele, inicialmente, acreditava que a peste havia sido enviada por Deus para o castigo dos pecadores. Quando ocorre a morte, sob intenso sofrimento, do pequeno filho do juiz Othon, se dará o momento da ruptura do padre com o tradicionalismo da aceitação e da submissão. Paneloux diz a Rieux: “Isto é revoltante, mas talvez devamos amar o que não conseguimos compreender”. Retruca-lhe Rieux: “Eu vou recusar até a morte esta criação divina em que as crianças são torturadas”, numa reprodução do diálogo sobre a revolta, entre Aliosha e Ivan Karamazov. Tarrou é um estrangeiro em Oran, um artista revoltado que atua lado a lado com Rieux criando brigadas sanitárias; ele deseja trabalhar pelo próximo como “um santo”, mas um santo sem Deus, sem a fé. “Já que a ordem do mundo é regulada pela morte, talvez convenha a Deus que não acreditemos nele e que lutemos com todas as forças contra a morte, sem erguer os olhos para os céus, onde ele se cala”. Em determinado momento, Tarrou confessa a Rieux que a epidemia não lhe ensinava nada. “Sei de ciência certa que cada um traz dentro de si a peste, porque ninguém no mundo está isento dela”. “O que é natural é o micróbio. O resto, saúde, integridade, a pureza, é um efeito da vontade. É bem cansativo ser-se empestado, mas é ainda mais cansativo não se querer sê-lo… pois, é necessário, tanto quanto possível, permanecermos fora do flagelo”. “Eu me coloco no lado das vítimas em todas as ocasiões, apenas para limitar os prejuízos. Por meio das vítimas que auxilio, posso procurar a paz”. “A Peste” é um livro humanista feito por quem se recusa a aceitar a injustiça do Universo. No silêncio eterno dos espaços infinitos ouvem-se somente os gritos das vítimas. Os homens devem permanecer uns ao lado dos outros quer por egoísmo, quer por santidade, mas tomando consciência dos sentimentos essenciais de amor, amizade, solidariedade. Uma solidariedade que se traça como uma ponte entre moribundos e condenados. A mesma solidariedade que une os homens em perigo e que se desfaz como bruma em tempos de paz. Chega um ponto em que a epidemia regride, a cidade começa a se recuperar, o isolamento é levantado e tudo se esquece. Os ratos voltam a surgir vivos e espertos. “Pode-se dizer que, a partir do momento em que a mais ínfima esperança se tornou possível para a população, o reinado efetivo da peste havia terminado”. Entretanto, “todos os cidadãos estavam de acordo em pensar que as comodidades da vida passada não voltariam e que era mais fácil destruir que reconstruir”. De qualquer forma, a libertação que se prenunciava tinha um semblante misto de sorriso e de lágrimas. Tarrou será a última vítima a morrer de peste. “Tarrou perdera a partida como ele mesmo dizia, mas o que Rieux ganhara afinal? Lucrara apenas por ter conhecido a peste e lembrar-se dela, conhecer a ternura e lembrar-se dela também. Tudo o que o homem podia ganhar no jogo da peste e da vida era o conhecimento e a memória”. Depois da peste, que metaforicamente teria sido a Gripe Espanhola, a Segunda Guerra Mundial, os Campos de Concentração, os Gulags, os Estados de Sítio, quantos heróis da luta não voltaram para suas fraquezas? “Rieux queria fazer como todos à sua volta e crer que a peste poderia chegar e voltar a partir, sem que o coração dos homens mudasse com isso”. “Não era cristão, talvez agnóstico, não era marxista, nada! Era Albert Camus filho do sol, da miséria, da morte”, dizia Sartre. Intelectual, sem dúvida, mas um intelectual que gostava de viver e observar o viver. Participou da Resistência Francesa ao nazismo até a libertação em 1944. Foi editor do jornal O Combate. Em 1951, rompe com Sartre, ataca o socialismo real e a própria perspectiva do comunismo. Em 1957, durante a guerra de libertação argelina onde ele que defendia uma saída negociada, recebe o Prêmio Nobel de Literatura. Morre em um acidente automobilístico em 1959, aos 46 anos de idade. Ao receber o Nobel, ressaltou: “Perante tantos horrores um artista não pode conformar-se com uma diversão sem alcance, com a perfeição formal. Ele falará no vazio se não se voltar para as misérias da História”. O artista moderno é um rebelde que pinta a realidade vivida e sofrida. Mas se sua rebelião for extremamente destrutiva, não chegará aos homens, será um “Calígula de café”. Para falar a todos é necessário falar do prazer, do sol, da necessidade, do desejo, da luta contra a morte, mas falar a verdade! O “realismo socialista” nunca foi realista, pois o academicismo quer seja de direita ou de esquerda esquece o sofrimento dos homens. A arte espelha a rebelião contra o mundo tal como ele é. Nem negativa total, nem consentimento total. O objetivo da arte não é julgar, mas compreender. “Advogo por um verdadeiro realismo contra uma mitologia talvez ilógica e mortífera e contra um niilismo romântico, burguês ou pretensamente revolucionário”. Questionado se não teria deixado de ser um homem de esquerda ele responde: “Tradicionalmente a esquerda tem sempre lutado contra o obscurantismo, a injustiça e a opressão”. De todo modo, a peste dos corpos sobrevive na alma! Mas aqueles que têm consciência podem se autovigiar e evitar causar danos ao próximo e, quem sabe, proporcionar um pouco do bem. Afinal, acreditava Rieux: “há nos homens mais coisas a admirar que a desprezar”. (*) EUGENIO SANTANA é Escritor, Jornalista, Gestor editorial, Ensaísta, Redator publicitário, Blogueiro, Biógrafo, Ornitólogo. Onze livros publicados. Autor, entre outros, de "Ventos Fortes, Raízes Profundas", autoajuda, Madras editora. (41) 9.9667-8484 WhatsApp

terça-feira, 24 de março de 2020

A FÓRMULA DO SUCESSO DOS ESCRITORES CÉLEBRES PARA OS "NEÓFITOS" (*)

Para escrever boas histórias você precisará correr… literalmente! Pelo menos essa é uma condição essencial para Haruki Murakami, autor de 1Q84, Kafka à beira-mar, entre outros títulos de sucesso mundial. Quando está no chamado "modo escrita" para um novo romance, o escritor japonês acorda diariamente às 4 da manhã para começar a sua rotina de seis horas de trabalho. Mas, durante a tarde, Murakami se dedica ao exercício de seu corpo, correndo aproximadamente 10 quilômetros ou nadando cerca de 500 metros todos os dias! Manter uma rotina é muito importante para o processo criativo de Murakami, que consegue atingir desta maneira estágios mentais profundos. Outros autores também consideram o exercício físico um grande aliado durante o processo de desenvolvimento criativo. O esporte está presente na rotina de muitos escritores. É, indubitavelmente, uma excelente forma de clarear as ideias, aquela distância que se faz necessária às vezes, para que possamos enxergar as coisas melhor. Se for possível determinar um padrão entre todos os grandes nomes da literatura mundial, a preferência por escrever durante as primeiras horas da manhã seria uma característica compartilhada por muitos! Ernest Hemingway, por exemplo, declarou certa vez numa entrevista que o seu horário preferido para escrever é ainda antes do surgimento dos primeiros raios de sol. Jane Austen, Victor Hugo e vários outros autores também assumiram que a primeira coisa que fazem ao acordar é “correr” para a escrita. Ter como hábito a obrigação de fazer sempre o trabalho mais importante primeiro é essencial para a criação de uma rotina de produção menos procrastinadora e eficaz, conforme a maioria dos grandes autores. Mas também, como tudo, sempre existe uma exceção para fugir à regra. Marcel Proust e Franz Kafka são exemplos de autores que só conseguiam produzir depois do pôr-do-sol. Na realidade, caros amigos escritores, não importa se é de manhã, tarde, noite ou madrugada, o importante é dedicar-se religiosamente durante um período de tempo ao seu trabalho! A exemplo de Henry Miller (autor de Trópico de Câncer, Nexus, Plexus, Sexus, entre outros títulos), uma alternativa para conseguir organizar a rotina de trabalho é estabelecer um “Mandamento”, uma lista de regras específicas que são responsáveis por reger o desenvolvimento da sua escrita. Algumas das tarefas definidas nos “Mandamentos de Miller” são: trabalhar uma coisa de cada vez até esta estar concluída; quando você não pode criar você pode trabalhar; trabalhe de acordo com o seu programa e não conforme o seu humor; esqueça os livros que você quer escrever, e pense apenas no livro que está escrevendo; entre outras. Definir um conjunto de obrigações e limites, em forma de lista, para seguir durante o período de desenvolvimento da escrita pode ser uma excelente ferramenta norteadora, principalmente para as pessoas que são por natureza menos organizadas. Nomeada para o Prêmio Pulitzer, Barbara Kingsolver, comprova que até os escritores de maior sucesso precisam escrever dezenas de páginas para obter uma que lhes agrade. Acostumada a acordar antes do sol nascer, Barbara está sempre “cheia de palavras” na cabeça e a primeira coisa que faz logo pela manhã é transcrever tudo para o seu computador. De acordo com a escritora, são páginas e páginas de frases desconexas ou pequenos textos soltos. Enquanto os seus filhos estão na escola, Barbara consegue reler tudo o que escreveu, editando e adaptando os trechos que mais gostou, mas também deletando grande parte do conteúdo… Para a autora o escritor deve escrever (óbvio, não?), ou seja, mesmo quando não tiver algo concreto ou um desenvolvimento sólido sobre determinado tema, escreva as frases que lhe vierem à mente, como se fossem mini flashbacks. Mais tarde, ao reler tudo o que escreveu, com certeza será mais fácil construir o restante da história. Os maiores aliados da procrastinação são as redes sociais e o seu celular. Acredite. Por isso, Nathan Englander sempre desliga o seu smartphone e se desconecta de todas as suas redes sociais durante as horas que se dedica ao trabalho. Sabemos que a vontade de checar as novidades no Twitter ou as fotos dos seus amigos no Instagram é tentadora, mas se você quiser realmente ser um escritor de sucesso, o autocontrole, a disciplina e o compromisso com o seu trabalho devem vir em primeiro lugar! Encha a sua cabeça com doses diárias de novas ideias! Pelo menos este é um dos segredos do jornalista e escritor norte-americano A. J. Jacobs: manter um fluxo constante de insights. O autor aconselha que todos os jovens escritores separem alguns minutos do dia para um brainstorm antes de começar a trabalhar. Um momento de reflexão, onde a pessoa deve rever tudo o que está a sua volta e, aliado à sua criatividade e imaginação, construir um universo que será posteriormente materializado pelas suas palavras! Faça como o “rei do terror”, Stephen King que escreve diariamente mais de 2 mil palavras. Ele segue essa rotina sete dias por semana, mesmo durante as férias ou feriados... Ok, talvez você não precise ser tão "drástico", mas a mensagem importante aqui é: não deixe de exercitar constantemente a sua escrita! Para King, assim como tudo na vida, a melhoria vem com a prática. Escrever todos os dias, de acordo com o autor, ajuda a não “enferrujar” o seu estilo de escrita. O talento é algo maravilhoso, mas não é capaz de carregar quem desiste. O hábito de Khaled Housseni é escrever e reescrever todos os dias. A cada nova reescrita, o autor adiciona novas camadas ao texto, novos nuances, novas perspectivas, novas formas e assim consegue tornar a sua história mais rica e completa. Housseni ainda dá uma dica importante para os aspirantes a escritor: ESCREVAM! O primordial para um escritor é escrever, por mais óbvio que isso possa parecer (e é!). Housseni sugere que se escreva todos os dias, mesmo quando não estiver se sentindo o “maior dos escritores”. Ah, e o mais importante, escreva para você mesmo! Não pense num público específico, pois nunca conseguirá agradar a todos os gostos. Reserve-se a escrever uma história que você precisa contar e que gostaria de ler. (*) EUGENIO SANTANA é Escritor, Jornalista, Gestor editorial, Ensaísta, Redator publicitário, Blogueiro, Biógrafo, Ornitólogo. Onze livros publicados. Autor, entre outros, de "Ventos Fortes, Raízes Profundas", autoajuda, Madras editora. (41) 9.9667-8484 WhatsApp

quarta-feira, 18 de março de 2020

O QUE É O BELO? O QUE SIGNIFICA A BELEZA? (*)

Na Grécia antiga, o pensador Platão foi o primeiro a se arriscar a definir o que é beleza. Para o filósofo, o que era belo também era bom, puro e verdadeiro. Conseguir contemplar a beleza significava que sua alma conseguia se recordar de outras vidas. A beleza nada mais seria do que a cópia de coisas vistas nessas outras vidas. Ele acreditava em uma beleza absoluta que poderia se comunicar com os seres através dessa lembrança e isso os tornava belos, de acordo com o nível dessa ligação. Já para seu discípulo Aristóteles o belo não está vinculado a uma beleza maior e sim a proporção, a grandeza e a harmonia das partes em relação a um todo. O ideal grego de beleza usado até o século XVII era aquilo que tinha simetria, proporção, equilíbrio e ordem e permaneceu assim, influenciando inclusive a arquitetura das igrejas (que tempos depois usaram o principio da simetria em sua decoração). Só depois desse século é que surgiu o conceito de que o belo é algo subjetivo, relativo, de gosto individual e da maneira como cada um percebe o objeto. Cada pessoa carrega uma bagagem, uma cultura, uma crença que a faz ver as coisas de maneiras diferentes. Logo, a beleza é definida por suas vivências pessoais. Para o filósofo alemão Immanuel Kant, apesar de a beleza ser definida individualmente, ainda existem conceitos universais que todos nós usamos ao julgar algo. Nossos sentidos e nossa imaginação são comuns a todos os seres humanos e tornam possível a percepção das coisas, ou seja, o juízo estético é induzido através da imaginação (nos dando prazer) e não pelo pensamento lógico. Kant defendeu que é impossível julgar racionalmente o belo. Nós sabemos que cada um de nós tem visões diferentes de beleza, apesar disso todos nós esperamos que os outros concordem conosco sobre o que é belo a nossos olhos. Porém, algo que é belo para mim, também pode ser, embora não obrigatoriamente, para você. E é esse prazer compartilhado por mais de uma pessoa que torna esse conceito universal. Mas será que colocar conceitos sobre o que é belo é certo? Kant escreve que “Quando se julgam objetos simplesmente segundo conceitos, toda a representação da beleza é perdida”. Georg Hegel, filósofo alemão, defende que a noção do que é belo muda de acordo com a época em que se vive e não é definida em um só conceito. O que é feio agora pode ser belo amanhã. O que é bonito hoje pode ser feio futuramente. A palavra belo vem do latim bellus, que significa “lindo, bonito, encantador”. Na época clássica era um termo pejorativo para homens, mas algo bom para mulheres. Na pré-história mulheres obesas tinham o tipo físico ideal, pois significava que eram bem nutridas, o que supostamente as tornava melhores para procriar. Há 28 mil anos, a Vênus de Willendorf possuía a aparência considerada bela. A beleza para os homens gregos, era cuidar do corpo, mantendo a aparência forte e musculosa e cabelos encaracolados. As mulheres gregas evitavam expor-se ao sol (o bronzeado era considerado feio) e seus corpos eram mais cheios (com curvas acentuadas), seios pequenos, pele clara e cabelos longos (melhor ainda se fossem ruivos). Além disso, o belo era definido também pelo intelecto e pelo estilo de vida que eles levavam e não apenas pela aparência do corpo em si. Na idade média, a aparência não era importante por ser considerada pecaminosa, o foco eram as características morais. A mulher devota, de alma pura, casta, com lábios pequenos e cabelos louros eram belas. Homens tinham que ter poder. No renascimento a gordura entrava como ideal de beleza e representava o poder aquisitivo da pessoa para comprar alimentos. Para homens e mulheres, ter braços e quadris avantajados era sinal de riqueza. Cabelos longos e barriga aparente eram o ideal para elas. Na época barroca elegância era sinônimo de beleza, assim como roupas refinadas. No Romantismo o bonito mesmo era ser triste e doente. Quanto mais palidez, olheiras e cabelos bagunçados para as mulheres, melhor. Homens deviam ser boêmios para serem belos. A mídia criou padrões de beleza inatingíveis, mascarados por efeitos de programas digitais. Tem casos que nem o artista fotografado se reconhece nas fotos. Criando pessoas insatisfeitas com seus corpos e que nunca alcançarão seus objetivos (pois eles são irreais), a indústria da beleza lucra alto com a venda de produtos. Nunca se variou tanto os padrões de beleza em um curto espaço de tempo. O bonito dos anos 40 era ter curvas a la Marilyn Monroe, a regra era se inspirar nos astros de Hollywood, já na década de 60, a magreza de Twiggy era ideal. Nos anos 80 o corpo esculpido por ginástica era belo, mas sem exageros, diferente dos anos 2010, onde a febre era fitness, de corpos musculosos, com horas de academia e com alimentação regrada. (*) EUGENIO SANTANA é Escritor, Jornalista, Gestor editorial, Ensaísta, Redator publicitário, Blogueiro, Biógrafo, Ornitólogo. Onze livros publicados. Autor, entre outros, de "Ventos Fortes, Raízes Profundas", autoajuda, Madras editora. Radicado em Curitiba, PR. (41) 9.9667-8484 WhatsApp

LIVROS ESSENCIAIS QUE POTENCIALIZAM A SUA BIBLIOTECA (*)

Conhecimento é poder, já dizia Thomas Hobbes antecipando o movimento hacker. A leitura é imprescritível a inteligência dos intelectuais, ler é bom ainda que sejam títulos inócuos e de conhecimento prático letárgico. Todavia, ao bom leitor, selecionar um bom livro torna-se essencial para absorver conhecimentos e assim tecer opiniões críticas sobre seus variados temas e realidades. Justamente pensando nisso que resolvi criar essa lista de títulos compostos por obras-primas e clássicos da literatura e intelectualidade para que você que queira ter uma base intelectual razoável possa ler. Alguns livros como a Bíblia é indicado por nomes como Neil deGrasse Tyson, assim outros são clássicos inquestionáveis como 'O Príncipe' e 'A Revolução dos Bichos'. '1984', de George Orwell. A ficção científica com contornos quase proféticos é uma feroz crítica a uma ditadura que dominou o mundo. Desse livro deriva-se vários conceitos como a do 'Big Brother' além de ser uma severa crítica ao classismo. Por vezes visceral o livro narra como seu governo manipula tudo, da 'paz' a história constantemente modificada em seus livros para enaltecer o partido. 'O Príncipe', de Maquiavel. Obra essencial para estudiosos de ciências políticas o livro é uma obra prima do pensamento renascentista ao abordar pela primeira vez a política do modo como é. Ainda que dentro do contexto histórico diferente ao atual muito de seus preceitos são ainda hoje utilizados como em estratégias para o poder, ainda que derivando-se dele em sua vulgarização tenha surgido o termo 'maquiavélico'. 'A Arte da Guerra', de Sun Tzu. Ainda que haja dúvidas sobre a veracidade da existência de seu autor esse curto livro traz tratados de estratégia e ética militar mas que apesar disso hoje sua aplicação não limita-se ao militarismo sendo comumente aplicado ao meio empresarial e corporativista. Não confunda com o livro de mesmo nome de Maquiavel. 'Revolução dos Bichos', de George Orwell. Obra clássica da literatura é muito mais que um livro infantil, mas uma crítica voraz de Orwell ao que se tornava o socialismo. Ele sendo socialista e de esquerda não poupa críticas ao que ele mesmo acredita demonstrando como a luta contra o capitalismo e classismo leva, pela corrupção do poder, apenas a perpetuação do mesmo. Assim o livro torna-se não somente uma metáfora a então URSS mas até mesmo a eventos históricos mais atuais como Cuba. 'A Bíblia Sagrada'. O livro mais vendido de todos os tempos é um compêndio de inúmeros outros livros divididos entre o Antigo e Novo testamento. Mas muito mais do que uma busca doutrinária e de credo ler a Bíblia é um exercício de discernimento e interpretação, tanto que disso derivou-se de guerras à verdadeiras histórias de santos. Mas o simples fato de ser o livro que mudou a face da humanidade torna-o único exemplar para um estudo intelectual apurado sobre a essência da própria humanidade em sua busca por um significado na vida e da mais importante religião de todas, o Cristianismo. A bom entendedor desse livro deriva-se mais que doutrina, mas filosofias de vida, principalmente no Novo testamento. Mesmo para aqueles que são ateus é um livro que somente deve ser criticado ao ser lido. 'O livro Perdido de Enki', Zecharia Sitchin. A tradução das tabuletas sumérias feitas por Zecharia Sitchin demonstra uma das mais antigas mitologias da história mas que pela clareza de seus relatos ressoa como história verídica que leva a compreensão de inúmeras outras mitologias posteriores, das grega e mesmo do Pentateuco cristão. Assim para ter uma melhor compreensão da bíblia em suas origens nesse livro anterior ao mesmo torna-se uma leitura de valor inestimável além de remeter aos primeiros conceitos de extraterrestres como seus deuses. 'O Silmarillion', J.R.R. Tolkien. Um dos livros mais importantes da literatura ao lado do 'Senhor dos Anéis' traz um resumo mitológico e linguístico da Terra Média com inúmeros contos da criação até a seus emblemáticos personagens, tendo ricos apêndices com genealogias e detalhes fornecidos por esse gênio da literatura, o linguista Tolkien, homem de sucesso na vida acadêmica e que escrevia nas horas vagas. 'Uma breve história do tempo', Stephen Hawking. Similarmente a Carl Sagan na sua emblemática série Cosmos, o astrofísico Stephen Hawking traz nesse livro uma deliciosa introdução a física numa linguagem acessível sobre os principais elementos da física moderna e astronomia o qual contribuiu avidamente. O livro como um louvor a ciência é obra indispensável ao lado de 'O Universo numa casca de noz'. (*) EUGENIO SANTANA é Escritor, Jornalista, Gestor editorial, Ensaísta, Redator publicitário, Blogueiro, Biógrafo, Ornitólogo. Onze livros publicados. Autor, entre outros, de "Ventos Fortes, Raízes Profundas", autoajuda, Madras editora. Radicado em Curitiba, PR. (41) 9.9667-8484 WhatsApp

TRAVESSIA (*)

No livro sobre tudo, tudo é travessia: o rio, em que se mira um ponto e se chega em outro, pois o rio tem vida - a correnteza; o sertão escuro, quente, perigoso, pois o sertão é o impossível. “Viver é muito perigoso”. E o perigo existe porque a travessia é cega. Para cada um, um rio diferente no meio do sertão. Impossível dividir ou compartilhar, porque toda caminhada é um solo de instrumento, quando cessa todo o som ao redor. A “caminhadura" de Gil. E embora seja possível fingir que apenas se está de passagem pela vida, em alguma parte do caminho há o imprevisto à espreita, para tentar nos fazer ver que é preciso pisar sobre as pedras do caminho. E, com isto, estampa-se um início de lição dos livros sobre os homens e seus destinos, entende-se “o que a vida quer da gente": a coragem de Riobaldo, de Santiago na pequena embarcação no mar aberto de Cuba. Em algum momento será exigido que retiremos do fundo a força que mal sabíamos ser possível, as habilidades que calamos por preguiça ou modéstia, a inteligência pouco exercitada, a resiliência que só de assalto se manifesta. Nas metáforas absolutas que os livros são capazes de trazer estão escritos os maiores feitos humanos. E não se trata dos livros sobre heróis de guerras ou deuses, mas daqueles em que o homem está diante da fome, da sede, do medo, do impossível do amor, do maior peixe já visto, da sua idade avançada, dos limites de sua força física, diante do mau tempo, do escuro da vida. Esta, a única batalha necessária e inevitável e bem-vinda: o homem e ele próprio. Em algum momento de cada jornada individual será possível ao homem encontrar-se com o melhor de si, no meio de um rio dentro do sertão, no meio do mar aberto, em que tudo o mais que existe, existe, primordialmente, para a sua vitória sobre si. (*) EUGENIO SANTANA é Escritor, Jornalista, Gestor editorial, Ensaísta, Redator publicitário, Blogueiro, Biógrafo, Ornitólogo. Onze livros publicados. Autor, entre outros, de "Ventos Fortes, Raízes Profundas", autoajuda, Madras editora. Radicado em Curitiba, PR. (41) 9.9667-8484 WhatsApp