domingo, 20 de agosto de 2017

MÚSICA ERUDITA OU CLÁSSICA: ÊXTASE PARA A ALMA E O CORAÇÃO (*)

A música produz silêncio. Toda palavra é profana. Faz-se silêncio porque a beleza é uma epifania do cósmico. Ouvir música é oração, reflexão, meditação. A música clássica proporciona alegria. Há músicas que nos inspiram prazerosamente. Mas a alegria é muito mais que prazer. O prazer é coisa humana, deliciosa. Mas é criatura do primeiro olho, onde moram as coisas do tempo, efêmeras, que aparecem e logo desaparecem. A alegria, ao contrário, é criatura do segundo olho, das coisas eternas que permanecem. Superior ao êxtase, a alegria tem o poder divino de transmutar a tristeza. Haverá maior explosão de alegria do que a parte final da Nona Sinfonia? E, no entanto, a vida de Beethoven chegava ao fim, marcada pela tristeza suprema de não poder ouvir o que mais amava, a música. Estava totalmente surdo. Mas é precisamente dessa tristeza que nasce a beleza. A vida é triste. E nisso está a honestidade da música clássica: ela não mente. Se soubéssemos disso, se sentíssemos a tristeza da vida, seríamos mais serenos, mais sábios, mais bonitos. Há músicas que contêm memórias de momentos vividos. Trazem-nos sentimentos... Lembrar-se do passado é triste-alegre... Alegre porque houve beleza de que nos lembramos. Triste porque a beleza é apenas lembrança... Não mais existe. Mas há músicas que nos fazem retornar a um passado que nunca aconteceu. É uma saudade indefinível, sentimento puro, sem conteúdo. Não nos lembramos de nada. Apenas sentimos. Sentimos a presença de uma ausência. Há músicas que nos levam para o tempo antes de nós mesmos e para lugares onde nunca estivemos. Talvez o que Ângelus Silésius disse para os olhos possa ser dito também para os ouvidos. Parafraseando-o: Temos dois ouvidos. Com um, ouvimos as coisas que no tempo existem e desaparecem. Com o outro, ouvimos as coisas divinas, eternas, que para sempre permanecem. A música tem virtudes médicas. Cura. Nesse tempo em que todo mundo sofre de estresse, aconselha-se música do estilo new age para acalmar. Há música para os mais variados tipos de doença: Mozart, Beethoven, Schumann, Chopin, Bach, Vivaldi, Brahms, Ravel, Debussy. Os médicos deveriam receitar aos seus pacientes, com os remédios bioquímicos, a música... Bom seria se a música clássica se ouvisse nos consultórios médicos, nas escolas, nas indústrias, nos escritórios, nas rádios. Há cidades que têm essa felicidade: rádios FM que tocam música clássica o dia inteiro. O Rio de Janeiro e Brasília exercitam essa cultura musical. A música clássica desperta, nas pessoas, aquilo que elas têm de melhor e de mais bonito. Música clássica contribui para a cidadania. (*) EUGENIO SANTANA é escritor, jornalista, assessor de comunicação, publicitário, ensaísta, relações públicas, revisor de textos e copidesque. Membro efetivo da Academia de Letras do Noroeste de Minas, ocupante da cadeira número dois.

sábado, 19 de agosto de 2017

UM NOVO AMOR, CÉU AZUL SEM NUVENS... (*)

- Por que brigam – pergunto. - Porque se amam. É a resposta óbvia, simples e lacônica. Não entendi. Se eles se amam, não deveriam brigar, e se brigam, talvez não se amem. Admito que nem sempre a lógica ajuda a resolver as contradições humanas, principalmente quando o amor intervém. Tento decifrar o paradoxo. Exercitam um modelo singular de relação, tempos de paz se alternam com guerras, ciúmes, respostas inadequadas, falta de carinho, de respeito ou de cuidado. Dá a impressão de que nos bons momentos, por uma brecha invisível, são derramadas poucas gotas de gasolina que, de maneira imperceptível, se acumulam até que, por puro acaso, uma centelha inicia a combustão e tudo explode. Começa o confronto. Separam, sem dúvida a melhor solução para enfrentar a violência, ambos convencidos do caráter definitivo da ruptura. Novo cenário, outras mulheres e homens, alívio... Até que, num entardecer de domingo, lembram das horas felizes, sentem que os novos relacionamentos são superficiais e incompletos. A lembrança se transforma em obsessão e ciúme, principalmente quando imaginam o outro feliz e com nova companhia. As saudades aumentam. Finalmente um telefonema, um encontro para conversar, uma tarde de amor, e tudo recomeça. Agora mais real e intenso, um amor novo, céu azul sem nuvens. Só algumas poucas gotas de gasolina sobre o chão que, insignificantes, não representam perigo. Porém, se acumulam com o tempo, ganham massa crítica, até que dias mais tarde... nova faísca. Inventaram um estilo cíclico de amor, sem gasolina falta energia, com gasolina a explosão é inevitável. Por quê? Pergunto, novamente. Porque amor e ódio são intensos e simultâneos, estão tão próximos que só podem circular um de cada vez, alternados em rigorosa fila. Onde houve amor, doação, carinho, haverá hostilidade que, no bate-boca, transveste-se de ódio. O amor os une, o ódio os separa, ambos os sentimentos desfilam pelo estreito corredor de vida e morte da esperança. Tempos de amor e tempos de ódio, cada um na sua vez resolvem a contradição. Nem tudo está perdido, o sistema tem suas vantagens: a cada reencontro, a relação se renova, sempre é novidade, sem tédio, nunca envelhece. A desvantagem é que a cada briga o relacionamento perde prestígio, e em ambos surge o desejo de amar de uma forma mais calma e convencional. Precisam saber que ficaram viciados em atacar o relacionamento para depois salvá-lo, por isso são sobreviventes de uma guerra que tenta superar dúvidas e desconfianças básicas. A grande verdade é que não confiam um no outro e, por isso, colocam à prova constantemente. Poderiam, em nome do amor, reparar danos e esquecer ofensas? Sim. Com a única condição de resolver a equação amor-ódio: estender as fases do amor até que, na hora certa, as gotas de ódio evaporem e desapareçam. “Se a tua vida se estender Mais do que a minha Lembra-te, meu ódio-amor, Das cores que vivíamos Quando o tempo do amor nos envolvia. Do ouro. Do vermelho das carícias. Das tintas de um ciúme antigo Derramado Sobre o meu corpo suspeito de conquistas. Do castanho de luz do teu olhar Sobre o dorso das aves. Daquelas árvores: Estrias de um verde-cinza que tocávamos. E folhas da cor de tempestades Contornando o espaço De dor e afastamento. Tempo turquesa e prata Meu ódio-amor, senhora da minha vida. Lembra-te de nós. Em azul. Na luz da caridade.” (Eugenio Santana é escritor, jornalista, publicitário, poeta, ensaísta literário, copydesk e Editor. Autor de nove livros publicados, alguns de autoajuda; recém-contratado da MADRAS Editora, de São Paulo, Capital)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

A ROTA DO VÔO PARA O PLANO INFINITO (*)

Há qualquer coisa de infinito em cada um de nós. Não nos bastamos. Não nos saciamos. Queremos ir além das pegadas de nossos passos, tocar mais distante que a extensão de nossas mãos, ver o invisível, ouvir as insinuações do inefável, sentir as pulsações da terra e o sabor do fogo e do gelo em nossas entranhas. A vida, dentro da história, é curta demais para conter a infinita ânsia de amar. Somos sempre para além de nós mesmos. Nossos olhos registram as faces queridas, a casa paterna, o bolo da infância, a praça da matriz, os colegas de rua e dos primeiros anos escolares, o sorriso inconfundível, a música marcante, certas palavras esculpidas em nosso afeto. Às vezes, por um momento, nos julgamos saciados pelo poder, pelo dinheiro ou pela fama. À luz do sol a maré baixa e o vazio se manifesta. Só o alimento pode saciar nossa fome. Só a água pode matar nossa sede. Só os outros podem nutrir nossa penúria. Sozinhos, somos a derrota orgulhosa, a vitória mentirosa. Há esse ímpeto de ir além, ultrapassar fronteiras, conquistar o inacessível. A transcendência. Assim como o vôo se faz de movimento, vento, espaço, o amor e a liberdade se tecem de mediações concretas: as condições sociais de nossa existência. Ao contrário das aves, caminhamos sobre a terra e as nossas pegadas são gravadas a cada passo. Voamos sem conhecer o rumo e sem saber o destino. A rota do céu passa pelo caminho da Terra. Os pássaros são abatidos em pleno vôo e continuamos a falar em velocidade. Nossas palavras são como essas bandeiras coloridas estendidas sobre caixões no dia do funeral. Na transparência dos outros encontramos a transcendência de Deus. O que sobrará? Um livro, talvez, escrito nas noites insones, palavras e mais palavras, pensamentos e pensamentos, reflexões e mais reflexões, nele permanecendo um pouco – ou muito? – de nossos anseios, de nossos sonhos e utopias, de nossas dúvidas, de nossas esperanças e fé? Talvez fragmentos de nossas vidas ávidas transformando seres reais em personagens ou universos oníricos em realidades palpáveis? E quando o tempo se for, as páginas, já amareladas e carcomidas, trarão as marcas indeléveis do pensamento de quem o escreveu, tornando-o recordação duradoura. O que ficará? Os filhos, cada um trazendo a lembrança de um grande amor vivido, traços e gestos que não permitem esquecer a pessoa amada, e os filhos de nossos filhos na continuidade da árvore genealógica, de gerações que farão lembrar sempre uma trajetória plena de mutações, mas imutável em seu correr célere e constante? O que sobrará? Nossas boas ações que colocarão nos lábios dos que nos querem bem palavras de reconhecimento e ternura, eternizando nossa imagem? Ou o mal que fizemos um dia, transformando corações magoados em sótão de tristezas, porque deixou cicatrizes de dor no outro? O que ficará? Talvez os sonhos não concretizados, esperando que outros os realizem, mas recordando as motivadoras palavras de Rubem Alves: “A vida é uma sonata que, para realizar sua beleza, tem que ser tocada até o fim. A vida é um álbum de minissonatas. Cada momento vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e de amor justifica a vida inteira”. Temos convicção de que, cumprida a sonata de cada um de nós, ínfima que seja, com seus instantes de beleza e de amor incondicional, outras sonatas continuarão nossos acordes, promovendo o ciclo da existência que não se acaba jamais. Indecifrável mistério da morte. D/amor/te.
(*) por EUGENIO SANTANA, membro efetivo da Academia de Letras do Noroeste de Minas, escritor, jornalista, assessor de comunicação, relações públicas e ensaísta. Sócio da UBE-GO/SC – União Brasileira de Escritores e autor de nove livros publicados. Contratado por cinco anos pela MADRAS Editora, de São Paulo, Capital.

sábado, 12 de agosto de 2017

INFINITAS ASAS DE SAUDADES, PAPAI (*)

Incontáveis sonhos feneceram. Resta-nos a famigerada esperança. Esperar. Dias melhores virão? Por que tanta crença somente no futuro e nenhum aprendizado ou vivência de felicidade no agora? Dizem que a única certeza são as chegadas e partidas. Quase vinte anos se passaram – exatamente em 21 de outubro de 1997. O primeiro dia mais triste de minha vida e, posteriormente, 02/5/2011, o segundo dia mais triste, a despedida e o adeus à minha mãe; as piores perdas e a impactante sensação de impotência. Embora uma revelação ficasse nítida, para sempre, em meu cérebro e no meu coração: Deus existe. Tive, sim, a honra e o privilégio de ter ficado mais próximo de você, antes da sua partida definitiva para o Plano Infinito. Doeu papai, interná-lo inúmeras vezes, e quando recebia alta médica, ajudava a carregá-lo para o banheiro, porque já não conseguia andar sozinho... Por ironia do destino um homem de quase 1m90cm de altura e muito forte física e moralmente. Dois dias antes da sua morte, em 19/10, eu estava recebendo a nomeação de membro efetivo da Academia de Letras lá em nossa terra-natal, após o término da solenidade recebi o telefonema fatídico de que você já estava na UTI, em estado gravíssimo. Foi à pior viagem de minha vida: voltei no meu carro desorientado, desnorteado e acelerando muito. Chorei, copiosamente, durante a viagem, ao longo dos 412 km que separam Paracatu de Anápolis. O ícone e referencial de homem honrado, trabalhador e íntegro? Será sempre você, papai. E, hoje, neste mundo de invertidos valores, está em falta homens como o senhor. Se não segui seus exemplos e conselhos, pai, a escolha foi minha, mas, a melhor educação soube me proporcionar e sua ausência física dói; a dor é lancinante, porque sempre fui muito sozinho e introspectivo desde menino e o senhor, como ninguém, sabia disso... E eis-me aqui outra vez pai, sozinho em Anápolis, após o retorno do Rio de Janeiro, no início deste 2011, mas sei que sua presença luminosa e anímica me acompanha e me nutre de confiança e proteção, porque foi justamente no dia do seu funeral que o meu ceticismo acabou e o agnosticismo também. Senti Deus falando comigo sobre a sua partida e sei, amado pai, que de um modo geral os bons vão primeiro, inclusive Cristo Jesus, John Lennon. Há uma lista interminável de homens bons; incluindo mestres de amor e sabedoria... Tantos foram os conselhos úteis e verdadeiros e as sugestões oportunas papai. Ainda me lembro quando disseste: “Filho, seu lugar é em Brasília”. Ainda bem que tive a chance de lhe pedir perdão, pelo meu ato falho de mudar para o interior de São Paulo, embora houvesse um motivo forte: minha filhinha Nuria Liz... O melhor de tudo em minha vida, papai, foi acompanhá-lo entre os meus 4 e 9 anos na imensa Fazenda do avô materno José Ulhôa Sant’Anna. Ensinou-me a lidar com o gado, a pescar e caçar, a andar a cavalo e ajudá-lo a cuidar das lavouras de arroz e feijão; e colaborando, igualmente, nas hortaliças que anualmente minha mãe preparava, com uma habitualidade britânica. Segui-lo no carro-de-boi, e aquele ritual quando me chamava para ir até ao paiol selecionar as palhas bem lisinhas para enrolar os seus cigarros de fumo sertanejo, natural – plantado e colhido na própria fazenda de vovô; andar na garupa do seu cavalo rumo à fazenda Quilombo – reduto de seus ancestrais, pertencente ao município de Unaí. A jornada de subir a serra e depois cruzar o Rio Aldeia são aventuras ao seu lado, papai, inesquecíveis e estão viajando – sempre – na asa da memória. 13 de agosto de 2017. O 19º dia dos pais sem contar com a sua presença física, grande e fabuloso Fabião da Silva Couto, o tão querido “Niquinho”... Hoje, acordei cedo e orei e pedi sua benção, no silêncio dessa casa enorme. Conter as lágrimas? Missão impossível! Agora, papai, vivencio a amarga aceitação de sua ausência e, mais recentemente, da minha mãe, sua alma-gêmea. Espero que ela já tenha feito a passagem e esteja feliz ao seu lado, nesta – digamos – Dimensão Cósmica, Plano Espiritual e Infinito. Agradeço mil vezes, papai, a Deus por ter vindo a este mundo por meio de você – e como somos parecidos meu papai querido! Mas, a saga da árvore genealógica continua: em 8/7/2010 nasceu seu neto mineiro-carioca Arthur Emmanuel Lacerda Santana. Hoje o senhor estaria exatamente com 87 anos e poderia carregá-lo no colo e ver quanta semelhança... Posteriormente, em 20/11/2014, eis que vem ao Planeta-blue Enzo Gabriel Moraes Santana, seu neto mineirinho de Uberaba. Ínfimo é meu gesto que tenta explicar a Saudade que sinto em conseqüência de sua ausência e da nobre e admirável mãe Adília. Deus sabe a dimensão do que sinto e do vazio impreenchível que deixaram. Perdoe-me, papai, por tudo que não pude fazer por você, em sua trajetória de vida, 67 anos, que passou aqui na Terra, sem conhecer o mar... Nossos laços são eternos e o meu amor por você, Infinito! Que o nosso reencontro seja um reencanto. Afinal, estou órfão de mimesmo... (*) Eugenio Santana - é escritor, jornalista, ensaísta, redator publicitário, revisor de textos, relações públicas , professor de português e literatura. O mineiro-menino de Paracatu, filho de Fabião S. Couto (em memória) e Adília Santana (em memória) – ambos fazendeiros em Minas Gerais e Goiás – os melhores seres humanos que conheci até hoje e pra todo o sempre. Maktub!

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O AVANÇO TECNOLÓGICO DESTRÓI VALORES FAMILIARES (*)

As transformações sociais, o avanço tecnológico, a inversão de valores, acontecem numa velocidade assustadora. Está em andamento uma aceleração histórica que nos faz refletir e rever conceitos. Quando se fala em família, hoje, nem sempre se refere àquele tipo de família que vivenciamos. Não estou lembrando a família patriarcal, dominada pela implacável autoridade paterna. Falo da família comum, onde fomos criados. O ambiente era diferente. Havia um relacionamento de respeito, segurança, permanência. A casa, falo do espaço físico, geográfico, nos dava um sentido de solidez. “A minha casa”, “o meu lar”, o “meu teto seguro”. Lá onde eu encontrava paz, afeto, harmonia, diálogo, compreensão, amor incondicional. Havia falhas. Havia muitas coisas limitadas, mas as consequências eram menos dolorosas. Eu tinha meu pai. Eu tinha minha mãe. Meus irmãos eram filhos do mesmo pai, da mesma mãe. Ninguém nascia in vitro. Nem se falava em embriões. Os filhos não eram escolhidos nos artifícios que proliferam via Internet. Quando se falava em família, pensava-se naquele triângulo básico: pai, mãe, filhos. O termo família, hoje, tomou um sentido muito amplo, distorcido, pejorativo. Existe muita família assim constituída: pai, pai, filho (adotivo). Ou então: mãe, mãe, filho (adotivo). De família só se tem as arestas, o conceito, o contexto e o conteúdo são outros. Há uma escola sociológica que, explicando a origem da família, afirma que, no princípio, os homens e mulheres andavam em bandos. Todos eram de uma e um era de todas. Às vezes chego a cogitar que, mais umas três décadas, as coisas não serão muito diferentes. Tudo o que estou dizendo não significa que estou lutando para uma volta à família ancestral. Sei que os conceitos mudam. Sei que os valores se alternam de acordo com a especificidade de cada geração. É imprescindível impor alguns limites. Ser moderno e estar atualizado não significa ignorar os valores do passado. Existe algo que se chama bom-senso que não pode e não deve ser esquecido. (*) EUGENIO SANTANA é jornalista, escritor, ensaísta, publicitário e editor. Autor de nove livros publicados. Articulista e colaborador do jornal Diário da Manhã. Ex-Superintendente de Imprensa no Governo do Rio de Janeiro. E-mail: autoreugeniosantana9@gmail.com e WhatsApp: (62) 98107-2799

sexta-feira, 9 de junho de 2017

ENSAIO SOBRE AS MULHERES CONTEMPORÂNEAS (*)

Existem vantagens na emancipação feminina, mas dificilmente os melhores entre nós percebem. Essas vantagens têm a ver com a superação da eterna e falsa fragilidade feminina, arma mortal usada contra os homens que querem “cuidar” das suas amadas. Temos vergonha de ser fracos e não atendê-las em suas demandas. E essa vergonha é utilizada dia a dia, sem nenhuma cerimônia, pela quase totalidade das mulheres. Dizem que existem mulheres que não fazem uso desse “recurso”, mas eu nunca conheci uma delas. Na troca de pneus, no enfrentamento de brigas, nas dificuldades financeiras, nos fracassos em geral, se repete o uso desse “recurso”. Uma vez libertas das garras de uma sociedade que as impediria de crescer, as mulheres não mais poderiam se esconder atrás da fragilidade como destino feminino, mas sim alcançariam altos vôos por si mesmas e, assim, realizariam sua força até então reprimida. E aí entra a vantagem: os homens poderiam abandoná-las a sua sorte de solitárias livres quando se cansassem delas sem sentir culpa por suas misérias de mulheres abandonadas. Desse modo, estaríamos todos livres e solitários. O primeiro problema é que, assim como a dominação muitas vezes é erótica na cama (ouvi-las gemer sob a força do sexo que as penetra é uma delícia), a dependência feminina sempre seduziu a maioria esmagadora dos homens. A dependência feminina sempre foi, no plano mais sofisticado da química entre os amantes, uma manipulação da qual o homem só escapa quando não ama a mulher. A única libertação seria a indiferença. Todo homem casado que ama sua esposa sabe que ela é quem manda na relação cotidiana: escolhe mesas em restaurantes, decide quais amigos vão ao cinema, manda em suas roupas, escolhe a casa em que vão morar, a cor das paredes, controla seus silêncios, interpreta seus sonhos. Engana-se quem supõe que detalhes assim não tecem a vida e contaminam a alma das pessoas. Uma mulher lhe diz se você é vencedor ou derrotado. Quando um homem cansa de obedecer, ele vai embora. Quando ele já não teme o que ela sente ou pensa, ela já está só. Mas deixe-me dizer um segredo, minha bela leitora: neste ensaio pouco me importa o que você ou qualquer outro argumento feminista queira dizer. Desta vez, eu falo, e você ouve. Isso, claro, se você quiser ter alguma chance de escapar dessa cama solitária na qual você se deita todas as noites porque os homens ou bem têm medo de você é de seu sucesso e (pretensa) segurança, ou bem a acham uma chata que fala demais e (pensa) que sabe demais. Quem sabe posso ajudá-la a entender a “alma masculina” que algumas de suas amigas mais nervosas estão prestes a varrer do mundo, civilizando-a até a morte. Não pense que, porque dormimos quando vocês querem discutir a relação, isso implica que não sabemos do que vocês falam. Levem a sério nosso tédio com o que vocês dizem. Ele fala da descrença (e do desencanto) que a experiência com o mundo prático gera com relação às palavras e também fala acerca de alguns medos essenciais que temos. Quais são esses medos? Antes de tudo, segure a respiração porque sei que você se apavora só em pensar que os homens têm medo de alguma coisa. A sensibilidade masculina a desorienta. Você gosta dela nos filmes e nos carinhos no sexo. No fundo, você quer o monopólio da sensibilidade para você. E quer o mesmo homem de sempre (seguro, sólido, sem dúvidas), só não quer sentir-se submetida a ele. Mas os homens têm sido empurrados para a sensibilidade e para a cultura da subjetividade. Talvez sempre fôssemos capazes disso, mas a vida tal como era nos poupava ou impedia. Agora nos afogamos em palavras que não dominamos. Mesmo com toda a conversa da modernidade, os homens permanecem presos ao sentimento de que devem sustentar suas mulheres (quando de fato as querem para valer), e as mulheres também querem ser sustentadas. O sentimento é de exigência sem fim. Mas, por outro lado, não podemos exigir nada porque, de repente, acende a luz vermelha da “opressão sobre a mulher”. Não há opções a não ser o sucesso profissional que deve sustentar todo o resto, mesmo que esteja vivendo com uma mulher emancipada e bem-sucedida. O único ganho real do homem com a emancipação feminina, é poder abandoná-la à sua sorte sem culpa. E os melhores entre nós nunca faria isso. Nada mudou no mundo, tirando o fato de que nós perdemos todos os “direitos” que tínhamos. Com o passar dos anos, os homens envelhecem e mudam, e também o seu olhar sobre as mulheres. Pior ainda se pensarmos em homens mais inteligentes e exigentes. Não, não basta “trazer uma cerveja e vir pelada”. O problema é que as mulheres, na realidade, apesar de dizerem que buscam homens mais inteligentes e exigentes, não estão preparadas para isso quando encontram. Para além das fantasias da empregada, da enfermeira e da colegial, queremos sutileza e pouca preparação. Mais espontaneidade e menos obviedade. Não acredite na história de que somos gorilas com pouco pelo. A grande metáfora da condição masculina, independentemente de qualquer blá-blá-blá moderno, é: diante de uma mulher carregando algo pesado, se você não carregar por ela, é um mal-educado, um covarde, um fraco. Mesmo que ela seja “culpada” por tentar transportar algo com peso acima de sua capacidade, ao homem ainda é negada a possibilidade de dizer “não”. Quando amamos, carregamos tudo com felicidade. Se o peso for exagerado, morreremos, mas não desistiremos de carregá-lo se amarmos a mulher que está do nosso lado. Normalmente, antes de tudo, morrerá o amor por ela. Talvez o resumo da ópera seja: o homem precisa aprender a dizer “não”, assim como a mulher aprendeu. Ela diz “não” para a cozinha, para a maternidade, para a virgindade, para a fidelidade, sob as palmas da cultura pós-moderna. Como uma liberta das amarras do passado, ela caminha solta em meio aos escombros de seus velhos papéis sociais. O homem precisa aprender a dizer “não” para a mulher que se oferece sexualmente, para a suspeita sobre ele lançada de que não seja capaz de sustentá-la (em todos os sentidos da palavra), para a obrigação de estar sempre presente quando ela desperta de seu sonambulismo emancipado e volta à atávica cobrança de sempre. (*) EUGENIO SANTANA é jornalista, escritor e ensaísta. Autor de nove livros publicados. Sócio da UBE – União Brasileira de Escritores. Colaborador da ADESG-DF e do Greenpeace, SP.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

PAR IDEAL (*)

Uma das características mais importantes que você deve procurar em alguém para se casar é a flexibilidade da pessoa na convivência e também a inteligência de saber apreciar diferentes pontos de vista. Não existe parceiro perfeito. O que existe são pessoas reais, com qualidades e defeitos aos quais você tem que aprender a se adaptar. Não importa se você gosta muito da pessoa ou se a acha bonita. O mais importante é pensar: ela serve para você? E você, serve para ela? Certas coisas no relacionamento são passageiras e não sustentam o amor. O que fica realmente são aquelas coisas que nosso parceiro nos proporciona, como paz, atenção, compreensão, apoio, cuidado e respeito. A pessoa adequada a você nunca, intencionalmente, o ferirá nem tentará torná-lo alguém que você não é. Outra palavra que qualifica uma pessoa para ser uma boa companhia para o resto da vida é “auxiliadora”. Não basta ser adequada para você, tem de lhe ser útil também. Isto é, contribuir para que você alcance seus objetivos e seja uma pessoa melhor. Foque em também se tornar uma pessoa adequada e adquirir um caráter de um auxiliador. Sem essas duas qualidades, nenhuma quantidade de sentimento afetivo será suficiente para manter a relação. Casamento feliz é possível sim, e muito bom, mas dá trabalho. Não é fruto do acaso. Não é automático. Não é consequência da sorte, nem de cupido, nem de achar a pessoa certa ou só crer em Deus.
(*) EUGENIO SANTANA é escritor, jornalista e ensaísta. Autor de nove livros publicados. Membro efetivo da ALNM – Academia de Letras do Noroeste de Minas, cadeira dois.

terça-feira, 25 de abril de 2017

CARREGO BREVE A MINHA CRUZ (*)

Um dia é feito de tantos fragmentos, pedaços sujos de estrelas, papéis mofados e carcomidos; crepúsculos e auroras, caminhos que levam a nada. Um dia é feito de portas que se abrem para o limo das palavras: uma lua de papel habita essa terra desabitada. Nas encruzilhadas cavalos dormem um sono cheio de signos e suas crinas trançadas com o lusco-fusco das estradas. As amáveis pessoas que conheci à margem da vida e que me escaparam das mãos de maneira ou de outra como um pássaro escapa, como um sopro escapa de dentro dos ossos voltem, me enlacem e me envolvam e me ajudem a suportar o peso quieto das palavras e o rumor invisível das águias. Por que se perderam de mim essas doces pessoas? Tragam de volta seus rostos como frutas de seda numa bandeja, como borboletas noturnas, lilases. Assim, farejo minhas raízes de frente para o passado nos meus olhos. Antepassados navegam em veleiros espantados. Suas histórias se enredam como flores no concreto, ritos e amores o chão lavado para os momentos sagrados. Um arco de violino toca sete notas nas asas do vento. Fecho os olhos submerso em seus cânticos lamentáveis. O encanto se desmancha. Estou só com o meu destino. Carrego breve a minha cruz. E um retrato entrecortado roído nas bordas pelos ratos que dormem nos porões da memória. Pelos ratos que acordam quando o navio do tempo faz água. Um corte, um hiato, o tempo se contrai e se dilata: quem era eu nesse retrato, quem eram todos aqueles que a vida engoliu? (*) EUGENIO SANTANA é escritor, jornalista, ensaísta, biógrafo, redator publicitário, copidesque, revisor de textos e relações públicas. Sócio da Academia de Letras de Uruguaiana-RS, colaborador da ADESG-DF – Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra, Comendador (honorário) da Ordem Ka-huna do Poder Mental, membro ativo e grau superior da AMORC – Ordem Rosacruz. Autor de nove livros publicados e detentor de dezoito prêmios literários, em âmbito nacional. Autor CONTRATADO pela MADRAS Editora, de São Paulo.

sábado, 22 de abril de 2017

A TRAVESSIA PELO RIO DO TEMPO (*)

Existe um questionamento que, quando feito a um escritor, dói mais que picada de serpente. A mim, particularmente, jamais fizeram. Mas fizeram a amigos meus. “Ele é do jeito mesmo que escreve?” é uma indagação brotada do amor: acharam belas as coisas que escrevi e agora estão curiosos para saber se me pareço com o que escrevo. Como afirmei, nunca me fizeram a pergunta, diretamente. Mas eu respondo. “Não, eu não sou igual ao que escrevo.” O que escrevo é melhor que eu. Invento ser outro: O eu - lírico. O texto é mais bonito que o escritor. Fernando Pessoa se espantava com isso. Ele tinha nítida consciência de que ele era muito pequeno comparado com a sua obra. Depois de escrever, leio... Por que escrevi isto? Onde fui buscar isto? De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu... Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta com que alguém escreve pra valer o que nós aqui traçamos? O que escrevo não é o que tenho; é o que me falta. Escrevo porque tenho sede e não tenho água. Sou oásis. Não. Não escrevo o que sou. Escrevo o que não sou. Sou pedra. Escrevo pássaro. Sou tristeza. Escrevo alegria. É que nós somos corpos dilacerados – o corpo é o lugar onde moram as coisas amadas que nos foram tomadas, presença de ausências, daí a saudade, que é quando o corpo não está onde está... O escritor escreve para invocar essa coisa ausente. Todo texto é um ato de alquimia do verbo cujo objetivo é tornar presente e real aquilo que está ausente e não tem realidade. O que escrevo é uma ponte de palavras aladas que tento construir para atravessar o rio do tempo. (*) EUGENIO SANTANA é escritor, jornalista, ensaísta, biógrafo, influenciador digital, blogueiro e redator publicitário. Diretor de Redação da revista Cenário Goiano; foi Superintendente de Comunicação no Governo do Rio de Janeiro. Nove livros publicados

sexta-feira, 21 de abril de 2017

A BELEZA TORNA ALEGRE A MINHA SOLIDÃO (*)

Parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis. Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, esta é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você”. Pare. Leia de novo. E pense. E reflita. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim. Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões de saúde, incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em sintonia com a Natureza. Elas não veem as árvores, nem as flores, nem as nuvens, nem sentem a asa do vento acariciar o rosto. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo diálogo prolixo e vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um subterfúgio para evitar o contato com nós mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que “o inferno são os outros”. Eis o que Nietzsche escreveu sobre a solidão: “Ó solidão! Solidão, meu lar!... tua voz – ela me fala com ternura e felicidade! Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas. Pois onde quer que estas, ali as coisas são abertas e luminosas. E ate mesmo as horas caminham com pés saltitantes. Ali as palavras e os tempos, poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim falar”. Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: “As obras de arte são de uma solidão infinita”. E na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta. O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kierkegaard, um solitário que me faz companhia ate hoje, observou que o inicio da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria pele. Foi quando eu, menino do interior de uma cidadezinha de Minas Gerais, me mudei para o Rio de Janeiro que conheci as dificuldades. Comparei-me com eles: cariocas, perspicazes, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca convidei nenhum deles a ir onde eu morava: no apartamento do meu tio, na Rua Senador Vergueiro, no bairro do Flamengo. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. Nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão... Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. (*) EUGENIO SANTANA é escritor, jornalista, ensaísta, biógrafo, redator publicitário, copidesque, revisor de textos e relações públicas. Sócio da Academia de Letras de Uruguaiana-RS, colaborador da ADESG-DF – Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra, Comendador (honorário) da Ordem Ka-huna do Poder Mental, membro ativo e grau superior da AMORC – Ordem Rosacruz. Autor de nove livros publicados e detentor de dezoito prêmios literários, em âmbito nacional. Autor CONTRATADO pela MADRAS Editora, de São Paulo.

sexta-feira, 31 de março de 2017

SE COMEÇAR NO VIRTUAL, NÃO PROLONGUE O ENCONTRO REAL (*)

Não tente se encaixar. Apenas seja você mesmo. Muitas pessoas ficam pensando e tentando ser 'quem' acreditam que o outro quer encontrar. Isso é idiotice, perda de tempo e tem grandes chances de dar errado! Quando você tenta parecer quem não é, termina atraindo alguém que não vai lhe fazer feliz. Poupe sua energia e apenas seja você. Os homens não costumam mentir sobre o que querem. Freqüentemente, ouço mulheres contando sobre o fato de saírem com homens que afirmam não querer nada sério. O problema é que quando eles aparecem, mesmo que eventualmente, são muito carinhosos e atenciosos, fazendo com que elas acreditem que, no fundo, eles estão sim interessados. Não estão. A história é o que é: se eles disseram que querem apenas saídas sem compromisso, mesmo sendo carinhosos, não estão apaixonados e nem dispostos a investir num compromisso. Simples assim. Não abra todas as portas de uma vez. Mesmo estando muito interessado por alguém, vá com calma. Mostrar todos os sinais verdes, fazer vários convites, facilitar demais todas as chances, faz com que o outro perca a motivação da conquista. Sem contar que é uma dinâmica humana: quanto mais fácil é conseguir algo, menos valor parece que tem. Não seja difícil demais. Embora possa parecer, essa dica não contradiz a anterior. Se não é legal facilitar tudo e fazer de tudo para que o outro queira ficar, também é uma grande monotonia estar com alguém que dificulta qualquer possibilidade. Nem oito, nem oitenta. O melhor mesmo é ouvir sua intuição e viver um dia de cada vez. Não se trata de fazer joguinho. Se existe algo que considero realmente exaustivo é se relacionar com alguém que joga o tempo todo. Quer, mas diz que não quer. Faz, mas diz que não faz. Seja autêntico e assuma o que quer e o que sente e assuma as conseqüências e os riscos. Segurança e espontaneidade são poderosos afrodisíacos. Mantenha-se atento aos fatos. Quando se está muito carente ou ansioso para encontrar alguém bacana, é mais fácil se deixar enganar e terminar acreditando no que 'se quer' e não no 'que é'! Ouça o que o outro diz. Observe o que ele faz. Seja claro quanto ao que você quer e mantenha-se atento ao modo como ele reage e o que diz sobre isso. Se começar no virtual, não prorrogue demais o encontro real. Conhecer alguém pela internet é ótimo, mas passar anos nesta relação virtual sem nunca se encontrarem, é uma perigosa armadilha. É viver num mundo que não existe de verdade. Trate de marcar este encontro real assim que possível, até para constatar se vão se gostar também frente a frente, incluindo cheiros, gostos, manias, entre outros detalhes que a gente só percebe na convivência. (*) Escritor/jornalista EUGENIO SANTANA, FRC. Nove livros publicados. Ocupa a cadeira número dois da Academia de Letras do Noroeste de Minas (ALNM); é autor contratado pela Madras Editora, SP, email: autoreugeniosantana9@gmail e Zap (61) 99581-4765

terça-feira, 14 de março de 2017

FRAGMENTOS DA MEMÓRIA (*)

Fazendas Quilombo, Cedro e Cachoeira, Chapada, Bonito, Bonsucesso, Mundo Novo, Água Fria, Forquilha, Lamarão, Vera Cruz, Santa Maria Lagoa Torta e “Aldeia de Cima” (onde nasci)... Cheiro forte de araticum, gabiroba, cagaita, jatobá, baru, cajuzinho, mangaba, marmelada, jambo, jenipapo e outras frutas silvestres do cerrado que perfumava e invadia meu chão de infância, os anos verdes, meu querido e inolvidável pai. Lembro-me o tempo de menino puro e inocente que agasalhavas nos seus braços longos, fortes e musculosos... A cantilena modorrenta do carro-de-boi, meu pai, subindo a serra verde-azulada; sulcando fundo a terra vermelha dos campos de sonhos da amada e inesquecível Minas Gerais, região noroeste. Imenso município de Paracatu “do Príncipe” ou “Atenas Mineira”. Gritavas a plenos pulmões: “Diamante, Gigante, ôôôaaahhh!... Dois bois estimados, laboriosos e ao mesmo tempo dóceis. Nós – os restantes – aprendizes de carreiros, filhos das rochas, rios e ventos carreávamos com entusiasmo e indisfarçável alegria. Lembro-me do teu ritual de organizar as cangas e colocar o azeite, um óleo ônix que tão bem sabias preparar; lubrificavas os eixos das rodas e o carro-de-boi rangia, cortando o Sertão preguiçosamente e cantava – cantiga de cigarras – na vastidão dos nossos campos Gerais, percorridos e pesquisados, também, pelo saudoso e memorável homem de letras, o nosso escritor mineiro Guimarães Rosa, acompanhado do seu fiel escudeiro o vaqueiro Manuelzão. O velho carro-de-boi avançava lentamente nas estradas de chão batido formando sulcos profundos – rastros do tempo – na terra molhada... Menino pequeno e franzino seguia-te “chamando guia, à frente”, com a vara de ferrão. Não gostava, pai, das investidas surpreendentes dos marimbondos traiçoeiros que atacavam, às vezes, quando estávamos desprevenidos, pois precisávamos estar atentos à caravana. Adorava quando cavalgavas aquele seu cavalo pampa amansado pelo seu primo Santos Perez, na garupa eu seguia contente: o menino mais feliz do mundo! Colhias com gestos de carinho o fruto maduro, doce e agradável da marmelada-do-campo, uma das minhas frutas prediletas. E aquela aventura periódica e imperdível, pai, de subir a íngreme serra. Após a perigosa escalada enfrentávamos com indômita bravura e coragem o “Rio Aldeia”, invariavelmente transbordando suas águas turvas. Fazíamos a travessia por meio de uma frágil pinguela ou nadando, agarrados à montaria. Após a extenuante vitória rumávamos para o “Quilombo”: a fazenda-origem de teus ancestrais, meu querido e amado velho “Nequinho!”. Ali estava, papai, teu filho-do-meio – Toninho: tímido, calado, introspectivo; mas, cúmplice, parceiro obediente; tão magrinho... Seguindo-te por léguas e léguas nas imensas distâncias das Minas Gerais. Nas Asas da saudade e da memória, recordo, pai, a barraca de lona improvisada onde acampamos por volta de 1963. Uma vida cigana tão autêntica, vivência agradável respirando Natureza por todos os lados. Uma árvore bonita e frondosa “fruta-de-óleo”, foi parte do nosso teto; privilégio para a contemplação do incrível brilho das Estrelas. Hernandes e eu (o mano-ébano, “irmão de coração”), ajudávamos no feitio da cerca de arame farpado, serviço contratado pelo vovô Zé Sant’Anna, dono da extensa e promissora fazenda “Forquilha”. Velhos tempos, pai, de banho de rio e muita pescaria. Parece que foi ontem... “Brejo Alegre”... que alegria, pai, compartilhar a tua companhia e da amada mãe Adília... Hernandes meu leal guardião; águas de cacimba, caçadas intermináveis aos tatus, seriemas, saracuras, pombas-do-bando, jaós... Incontáveis aves e pássaros povoaram minha infância, querido velho, graças a ti. “Ilha do pau pombo”... Inventamos esse nome, lembras-te? Lenha de murici tão apreciada por minha mãe. Fogueiras sob o luar do outono, para espantar possíveis animais peçonhentos. O mel de abelha jataí, encontráveis normalmente no pau-terra. Os inumeráveis ferimentos nos dedos em conseqüência do constante labor com os pregos-triângulo na cadência intermitente do martelo nas estacas de “vinhático”, tua madeira preferida para cercas de arame. E como entendia de madeira de lei, meu velho? Admirável o teu conhecimento. Invejável a tua experiência e capacidade. Gratidão é o Sol do Verbo ou simplesmente a Palavra alada? Não importa os erros gramaticais, o palavreado simplório, por conta de nossas origens rurais, cometidos ao sabor desta inominável emoção. Nestas circunstâncias o coração do “poetalado” de milenares vidas, sangra visceralmente. Literalmente. Por favor, Anjo Lecabel, forneça a senha para o carrossel mágico de lembranças... Uma infância lúdica e prazerosa. Sentia a natureza penetrar os olhos, a mente, alma, braços, pernas, coração. Gratidão, meu velho Nequinho, por teres me propiciado a melhor infância do planetazul. Após a maravilhosa temporada nas fazendas dos queridos parentes, integrantes da nossa Árvore da Vida, construístes, a duras penas, a casa que nos abrigou, na cidade, no alto do bairro Bela Vista, palco e cenário de tantas reminiscências... O mano Eustáquio e minhas irmãs Lúcia e Graça. Patrícia, a caçula, veio por último já em chão goiano, Anápolis. Raras fotografias no alpendre... Os biscoitos fritos preparados pela mãe Adília. A marmita que eu levava diariamente para o seu almoço na máquina de beneficiar arroz do Sr. Juquita Vargas. Os banhos na “praia do matinho”... As chegadas bizarras, esfuziantes, hilárias e fugazes dos amáveis Ciganos, que acampavam ao longo da “praia”. Nosso fetichismo e curiosidade. Fui menino “voyeur” das ciganinhas, é claro. Os jogos de futebol, meu time, meu chute certeiro com a “canhotinha de ouro”. As bolas de meia; bolas de gude, bolas de lobeira... Os amigos Beto, Samuel, Donizete, Plínio: infernizávamos meu Deus, a chácara do “seu Jerônimo”... Era uma correria danada. Divertíamos muito! A “comédia”, as “galinhas noturnas”, “horas dançantes” ao sabor da jovem guarda. Circos e parques. A novidade recém-inaugurada Rádio “Juriti” e o vozeirão inconfundível do primeiro locutor, o Eurico Santos. E pelas ondas sonoras vindas de São Paulo, o romântico programa “Barros de Alencar”. Velhos tempos dos anos 1960: amor, leveza, alegria, descontração pura e contagiante. A Primeira Comunhão na Igreja Matriz Catedral de Santo Antonio. Naquele tempo, vestíamos de “Anjo”, indumentária alada, muito interessante... Maria Lúcia ficou tão linda! Eustáquio arrasou, com o terninho com gravata borboleta e a vela na mão. Graça, ainda muito pequena, me acompanhava nas “caçadas” aos passarinhos: visgo, arapuca, alçapão, estilingue e espingarda de pressão. Minha infância povoada de pássaros e aves marcou-me a vida para sempre. O amplo quintal, o vasto pomar: abacaxis, pêssegos, goiabas, mangas, abacates, jabuticabas, laranjas, mamão, amoras. A horta de mãe Adília: eu gostava tanto de ajudá-la a adubar, regar, cercar... E ousava, também, plantar com a orientação dela, claro. Velhas lembranças mescladas com o teu amor perene, insubstituível. Mangabas sazonadas no início do Verão. “Morro do Ouro”: fico amarelo e morro de saudades. A “Gruta Cachoeira de Vênus”, na praia dos Macacos. Encima árvores frutíferas incluindo saborosos jambos. As indefectíveis lavadeiras pobres do “Córrego Rico”. Alzira – minha Flor Azul: o primeiro esboço de amor adolescente... Largo do Jenipapeiro. O hangar dos pequenos monomotores onde eu escondia quando estava sorumbático e brincava, solitário, quem sabe ensaiando a vontade frustrada de ser, um dia, piloto de avião. O Largo do Sant’Anna e o velho casebre onde morou “dona Beja”, a famigerada cortesã. Não sofro, renasço. Revivo o que foi melhor em minha vida: a cidade natal, o palco da minha infância, a memorável presença e companhia do meu pai. Fiquei órfão e mais pobre sem as suas presenças essências querido, valoroso e amado pai Fabião e da senhora minha querida e valiosa mãe Adília. Jesus – O Sol do Verbo – O Mestre do Amor e da Sabedoria – O Cristo Cósmico é o companheiro inseparável: minha âncora, minha bússola. O consolo, o alento infinito. O Caminho, a Verdade e a Vida. Deus – Autor de nossas vidas nos enviou o Messias, o Príncipe da Paz para que nos perdoemos e encontremos a harmonia, em meio à surpresa, ao mistério e ao caos, existentes neste “Vale de Lágrimas”. Um dia, é certo, juntar-me-ei a vocês, nessas paragens cósmicas que desconhecemos. “Ele” pediu-me, carinhosamente, para não tentar desvelar os “Mistérios insondáveis”. Genuflexo e humilde reporto-me à Suprema Sabedoria Celestial. Imperecível saudade nestas asas da Memória, papai e mamãe. Os Anjos de Luz sussurram o verbo da coragem, fé, esperança, entusiasmo e amor incondicional. Eis o meu simples tributo. Esta tentativa de réquiem... Só Deus sabe porquê escrevo; escravo de uma Saudade inesgotável e que nunca terá fim. Beijos alados de seus filhos “Toninho”, Eustáquio, Maria Lúcia, Maria das Graças e Patrícia. Nossos laços são infinitos, intermináveis. É só olhar para as faces de Ingrid, Nuria Liz, Arthur Emmanuel, Enzo Gabriel, Camila, Bruna, Giovanna, Leonardo, Lílian, Glauciane, Janine, Marlon Régis, Gabriela... O amor que dedicaram a nós está impregnado em nossas almas e corações. Até a próxima. Até breve. Até sempre! Maktub. (*) EUGENIO SANTANA é jornalista, escritor, ensaísta, influenciador digital e blogueiro. Membro efetivo da ALNM – Academia de Letras do Noroeste de Minas, cadeira dois. Membro Acadêmico “Benemérito Ad Honorem” do Centro Cultural, Literário e Artístico de Portugal; Autor de nove livros publicados – Dedico à memória do meu pai Fabião Couto e de minha mãe Adília Santana.

segunda-feira, 13 de março de 2017

AS ASAS AZUIS DO PÁSSARO DO AMOR (*)

Pai, eu vi um pássaro voando e me lembrei de você. E o meu coração se encheu de saudade... Dos seus braços fortes me segurando no colo. Dos seus conselhos severos e de suas esperanças em meu futuro. Do quanto você teve paciência e tolerância comigo. Sabe, quando somos jovens, não sabemos o que um pai sente. Não valorizamos quem segura nossa barra e nos sustenta. Com o tempo, também nos tornamos pais, e aí compreendemos. A experiência transforma o olhar e faz ver além... Então, lembramos de que um dia fomos filhos. E a saudade vem de cheio, junto com o agradecimento. Pai, ontem eu não sabia; hoje eu sei, com todo meu Ser. Com a chegada do meu filho Enzo Gabriel, o vento do amor arejou meu coração. Assim como arejou seu coração, quando você me recebeu como seu filho. Fico pensando nas coisas que não são ditas entre pais e filhos. Coisas que o tempo leva na memória do vento... Coisas que não têm preço. Lembranças que viajam pela Asa do coração... Com o passar dos anos, sinto o que antes não sentia. Amando meu filho, penso no seu amor por mim. E se isso é assim, aqui no Planeta-escola, imagino um Amor Maior, em tudo. Um Grande Coração Universal, onde pais e filhos viajam nos sentimentos reais. Fico imaginando o Poder Maior que nos colocou aqui, como pais e filhos. E elevo meus pensamentos a Ele, Pai de todos nós, agradecendo o presente. Sim, agradeço o presente de hoje ser pai, e de um dia ter sido seu filho. Pai, o Pássaro do Amor passou voando pelas fibras do meu coração. E ele me disse: "O Grande Espírito lhe ordenou escrever algo para os pais e filhos". Não questionei, apenas escrevi o que senti, consciente da missão. Pois sei que há um Poder Maior capaz de interligar invisivelmente as consciências. Como sei, também, que algumas palavras podem chegar no momento certo para alguém. Talvez, a corações feridos, que reconsiderem sentimentos e reúnam novamente pais e filhos. Ou, simplesmente, por entre os planos da vida, pais e filhos se toquem no infinito. Por obra e graça de um Poder Maior, isso é possível. Como é possível refletir... Sim, refletir, para recomeçar. Talvez para melhorar pais e filhos, pela vastidão do Universo criado por Deus – Todo-Poderoso: Onisciente, Onipresente e Onipotente. Então, que esses escritos viajem nas Asas do Vento, cumprindo sua função e unindo corações. Que o Pássaro do amor leve essas palavras a quem de direito, como deve ser... (*) copydesk/fragment by EUGENIO SANTANA, da Academia de Letras do Noroeste de Minas, escritor, jornalista, publicitário, relações públicas, copydesk, verse maker; self-made man. Sócio da UBE-GO/SC – União Brasileira de Escritores e autor de nove livros publicados. Ex-Superintendente de Jornalismo no Rio de Janeiro, RJ (2009/11) dedico à memória do meu pai Fabião Couto e à minha filha Ingrid e ao meu filho Arthur Emmanuel