domingo, 5 de abril de 2020

ESCASSOS ESCRITORES LATINO-AMERICANOS QUE CONQUISTARAM O PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA (*)

Começando a ser entregue em 1901, só em 1945 o Prêmio Nobel de Literatura veio a premiar alguém da América Latina, e foi - curiosamente - uma poetisa: Gabriela Mistral. O fato é curioso, porque comunga três raridades na história do prêmio: mulher (onde os homens são maioria), poesia (onde a prosa é maioria) e América Latina (onde a Europa reina). Gabriela Mistral, pseudônimo de Lucila Maria del Perpetuo Socorro, assim sendo, é alguém a ser lembrada: poetisa chilena de um lirismo surpreendente. Diplomata e feminista, suas obras são carregadas de uma poesia ora forte e violenta, ora leve e romântica. Foi professora do "Liceu de Moças" no Chile e sofreu muito preconceito por ser mulher na sua vida de pedagoga e escritora. São versos dela: "Dá-me a mão e dançaremos,/ dá-me a mão e me amarás./ Como uma só flor seremos, como uma flor, e nada mais...// O mesmo verso cantaremos,/ ao mesmo passo dançarás./ Como uma espiga ondularemos,/ como uma espiga, e nada mais...// Chamas-te Rosa e eu Esperança,/ mas teu nome esquecerás,/porque seremos uma dança/ na colina e nada mais..." "Dame la mano y danzaremos" de Gabriela Mistral "Como sou rainha e fui mendiga, agora/ vivo em puro temor de que me deixes,/ e te pergunto, pálida, a cada hora:/ 'Estás comigo ainda? Ai, não te afastes!'// Quisera eu fazer as marchas sorrindo/ e confiando agora que vieste;/ mas até em dormir estou temendo/ e pergunto entre sonhos: 'não te foste?'" "Desvelada" de Gabriela Mistral Gabriela Mistral é, até hoje, a última mulher latinoamericana a receber o Nobel de Literatura. Em 1967, Miguel Ángel Asturias, poeta e diplomata da Guatemala, recebe o prêmio Nobel por sua literatura enraizada e, em especial, por seu livro Hombres de maíz. Assim começa seu romance mais conhecido: "O Gaspar Ilón deixa que à terra de Ilón lhe roubem os sonhos dos olhos. O Gaspar Ilón deixa que à terra de Ilón lhe joguem as pálpebras com machado... O Gaspar Ilón deixa que à terra de Ilón lhe chamusquem as manchas dos cílios com as chamas que deixam a lua com cor de formigas velhas." Início de Hombres de maíz de Miguel Astúrias. Em 1971, outro poeta fruto de terras chilenas é coroado com as rosas do Nobel: Pablo Neruda (sobre ele já escrevi aqui e aqui) Alguém que acompanhe a coluna há algum tempo já deve ter percebido minha fixação por Neruda, aprendi espanhol por causa dele e sua poesia até hoje é invencível. O autor de Crepusculario, Veinte poemas de amor y una canción desesperada, Residencia en la tierra, Odas elementales y Libro de las preguntas passa impoluto pelos tempos. Neruda, pseudônimo de Ricardo Neftalí Reyes, foi poeta e cônsul. São versos dele: "(Amo o amor dos marinheiros/ que beijam e se vão.// Deixam uma promessa./ Não voltam nunca mais.// Em cada porto uma mulher espera:/ os marinheiros beijam e se vão.// Uma noite se encostam na morte/ no leito do mar.// (4) // Amo o amor que se reparte/ em beijos, leito e pão.// Amor que pode ser eterno/ e pode ser fugaz.// Amor que quer libertar-se / para voltar a amar.// Amor divinizado que se achega./Amor divinizado que se vai.)" "Farewell" de Pablo Neruda "Melisanda: Em teus braços, enredam-se as estrelas mais altas. Tenho medo. Perdoa-me por não ter chegado antes. Pelleas: Um sorriso teu apaga todo um passado: guardem teus lábios doces o que já está distante. Melisanda: Em um beijo, saberás tudo o que calei." "Pelleas y Melisanda" de Pablo Neruda Em 1982, foi a vez do Gabo. O colombiano fantástico Gabriel García Márquez, autor de romances intraspassáveis como El amor en los tiempos del cólera e Cien años de soledad, recebia, então, a honra de figurar no rol de agraciados com o Prêmio Nobel, por "seus romances e contos, em que o fantástico e o real se combinam num mundo densamente composto pela imaginação, refletindo a vida e os conflitos de um continente", como afirmou a Academia Sueca ao anunciá-lo. "Florentino Ariza havia pensado em levar-lhe as setenta folhas que então já poderia declamar de memória de tanto que as lera, mas se decidiu por um meia página sóbria e explícita, em que só prometia o essencial: sua fidelidade a toda prova e seu amor para sempre." Gabriel Garcia Márquez em "O amor nos tempos do cólera" "Havia achado, sempre, que morrer de amor não era outra coisa além de uma licença poética. Naquela tarde, de regresso para casa outra vez, sem o gato e sem ela, comprovei que não apenas era possível, mas que eu mesmo, velho e sem ninguém, estava morrendo de amor. E também percebi que era válida a verdade contrária: não trocaria por nada neste mundo as delícias do meu desassossego. Passei uma semana inteira sem tirar o macacão de mecânico nem de dia nem de noite, sem tomar banho, sem fazer a barba, sem escovar os dentes, porque o amor me mostrou tarde demais que a gente se arruma para alguém, se veste e se perfuma para alguém, e eu nunca tinha tido para quem" Gabriel García Márquez em "Memórias de minhas putas tristes" Octavio Paz, poeta, ensaísta, teórico e diplomata mexicano, recebeu em 1990 a honraria. Autor dos clássicos El arco y la lira e El laberinto de la soledad, o poeta destacou-se no cenário latino-americano de modo surpreendente. São versos do autor: "Minhas mãos,/ abrem as cortinas de teu ser/ te vestem com outra desnudez/ descobrem os corpos de teu corpo/Minhas mãos/ inventam outro corpo ao teu corpo." ** "Entro em ti,/ verdade das trevas./ Quero as evidencias do obscuro,/ beber o vinho negro:/ toma meus olhos e arrebenta-os." Octavio Paz em "Através" "Palavras? Sim, de ar,/ e no ar perdidas./ Deixa que eu me perca entre palavras,/ deixa-me ser o ar em alguns lábios,/ um sopro vagabundo sem contornos/ que o ar desvanece.// Também a luz em si mesma se perde." Octavio Paz em "Destino de poeta" O último nome da América Latina a entrar na lista foi o romancista, dramaturgo, político e ensaísta peruano Mario Vargas Llosa. Sou um fã de Vargas Llosa em muitos aspectos e por muitos motivos, sua literatura e sua postura perante a arte não ícones. Em 2010, a Academia Sueca anunciava a sua premiação por "sua cartografia de estruturas de poder", o que realmente se destaca na obra de Llosa, composta por obras como La ciudad y los perros e La fiesta del Chivo, sempre impregnadas de política. "Agarrei-o pela camisa e disse: ‘Se você chegar perto da Teresa outra vez, a surra vai ser pior.’ [...] Ele me disse: ‘Você está apaixonado até a alma. [...] O amor é a pior coisa que existe. Você anda feito um idiota e deixa de cuidar da vida. As coisas mudam de significado e você é capaz de fazer as maiores loucuras e de se ferrar sempre num segundo.'" Mario Vargas Llosa em "A cidade e os cachorros" "Por volta do meio-dia, muitos andamarquinos já se aventuravam a ir até o centro da praça para manifestar suas queixas, fazer suas recriminações e apontar os maus vizinhos, os maus amigos, os maus parentes. [...] Todos foram condenados por um bosque de mãos. [...] Foram executados de joelhos, apoiando as cabeças num broquel de poço d’água." Mario Vargas Llosa em "Lituma nos Andes" Porque por seis vezes o Nobel de Literatura passou pela América Latina, coroou alguns e a outros esqueceu. A lista de esquecidos é grande: Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Carlos Fuentes, e outros e outros e outros. Porque por seis vezes o Nobel de Literatura passou pela América Latina, coroou alguns e a outros esqueceu. Tomara que ele volte. (*) EUGENIO SANTANA é Escritor, Jornalista, Gestor editorial, Ensaísta, Redator publicitário, Blogueiro, Biógrafo, Ornitólogo. Onze livros publicados. Autor, entre outros, de "Ventos Fortes, Raízes Profundas", autoajuda, Madras editora. (41) 9.9667-8484 WhatsApp

quarta-feira, 25 de março de 2020

A VISÃO FUTURISTA DE ALBERT CAMUS EM "A PESTE" (*)

Sessenta anos são transcorridos da morte prematura de Albert Camus. Ao escrever “A Peste”, ainda sob o impacto dos horrores da Segunda Guerra e da luta de libertação argelina, ele associa o absurdo, “que não se encontra no homem e nem no mundo, mas na coexistência entre ambos”, a uma surpreendente solidariedade que surge entre os seres humanos exclusivamente em momento de extremo estresse, como aquele vivenciado em situações de guerra e de peste, o que nos leva à atualidade da sociedade humana e da pandemia provocada pelo vírus Covid-19. Numa pandemia como a de “A Peste”, para Camus todas as ideias gerais soam falsas e o mundo agredido e agressor não lhe parecia nem explicado ou explicável. “A Peste” é a vida em comunidade. Oran, uma cidade imaginária na costa argelina, é acometida por suposta impossibilidade: um surto de peste bubônica na segunda metade do século XX! Antes da praga a cidade era modorrenta, o homem a tornara inóspita, previsível nos negócios e nos costumes. “Oran é feia… Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas e nem o sussurro de folhas. Apenas nos céus se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pelos cestos de flores que trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende em mercados.” E assegura que uma forma cômoda de travar conhecimento com uma cidade é procurar saber como se trabalha, como se ama e como nela se morre. “Na nossa cidade tudo se faz ao mesmo tempo, com o mesmo ar frenético e distante. Nossos concidadãos trabalham muito apenas para enriquecerem… Os homens e as mulheres se devoram rapidamente, no que se convencionou chamar de ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois… O mais original é a dificuldade que se tem de morrer. O doente fica muito só, dada a importância dos negócios e a qualidade dos prazeres. O que dirá o ato de morrer!” Logo, Oran é uma cidade absolutamente contemporânea, poderia ser qualquer cidade média de nosso Brasil. Um primeiro rato morre com hemorragia, depois outros e outros, aos milhares; por fim os ratos moribundos desaparecem da cidade. Logo a seguir morre o primeiro ser humano. “A imprensa tão indiscreta no caso dos ratos, não mencionava nada (a respeito dos humanos). É que os ratos morrem na rua e os homens em casa. E os jornais só se ocupam das ruas.” A descrição dos sintomas, das dores, das mortes que se acumulam é realizada minuciosamente e sem “piedade”. Mas a administração pública insiste em esconder o flagelo até que não seja mais possível fazê-lo e a cidade inteira entra em quarentena, como se sitiada fosse e os isolamentos internos são instituídos. “Os flagelos, na verdade, são coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós…Os flagelos não estão à altura do homem: disse-se então que o flagelo é irreal, um sonho mau que irá passar.” “Mas nem sempre ele passa e, de sonho mau em sonho mau, são os homens que passam e os humanistas em primeiro lugar, pois não tomaram as suas precauções”. Em “A Peste” o que mais interessa ao autor é mostrar como se comportam as pessoas quando começa a ruir tudo o que elas acreditavam ser sólido: os intercâmbios, as apostas ou bolsas de valores, as relações familiares, as comunicações, a saúde, num transformar dos habitantes em exilados do mundo. “Como poderiam ter pensado na peste que suprime o futuro, os deslocamentos, as discussões? Julgavam-se livres e nunca alguém será livre enquanto houver flagelos”. E como se comportam os “oranianos”? Inicialmente, quando os portões das cidades são fechados pelo isolamento do mundo, os laços de amor e amizade estreitam-se. Outra decorrência da peste é o exílio a que todos são confinados. “A partir de então, reintegrávamo-nos, à nossa condição de prisioneiros e estávamos reduzidos ao nosso passado e ainda que alguém fosse tentado a viver no futuro, logo dele renunciava ao experimentar as feridas que a imaginação finalmente inflige aos que nela confiam… Assim, experimentavam o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e exilados, vivendo com uma memória que não servia para nada… Impacientes com o presente, inimigos do passado e privados do futuro”. Isolamento que, gradualmente, também nivelará as pessoas, encurtando as distâncias sociais. A Peste não possui classe social quando se torna epidemia: “Porque a peste se tornava assim o dever de alguns, ela surgiu como realmente era, isto é, o problema de todos”. No princípio, quando as pessoas julgavam a peste uma doença qualquer, a religião tinha muito prestígio, os sermões do Padre Paneloux eram extremamente concorridos e ele convocava todos a se arrependerem, a buscarem o perdão divino. “Mas quando viram que o caso era sério, lembraram-se do prazer e toda a angústia que se pinta durante o dia nos rostos, dissolve-se ao crepúsculo, numa espécie de excitação desvairada, numa liberdade desajeitada que inflama todo um povo”. Camus presta muita atenção ao amor entre os amantes e ao valor da amizade: “A peste é preciso que se diga, tirara de todos os seres o poder do amor e até mesmo da amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes… Ao mesmo tempo, a peste suprimia juízos de valor”. Porém, quando “já não havia destinos individuais, mas uma história coletiva que era a peste, os sentimentos eram compartilhados por todos”. E é essa dor que devolve o valor e a força aos sentimentos. “Há sempre alguém mais prisioneiro que eu- essa era a frase que resumia a única esperança possível”. Quando casas de empesteados foram fechadas ou incendiadas por motivos sanitários, começaram também os saques. “Foram incidentes que forçaram as autoridades a assimilar o estado de peste ao estado de sítio e aplicar as leis decorrentes”. Na peste e no isolamento tudo se sacrifica à eficácia de medidas que evitem a disseminação do mal. Mas existe ainda a solidariedade humana. O comportamento de determinado grupo de pessoas que se dedicará à luta contra a peste será o da mais estrita solidariedade. “Era uma luta resignada, mas persistente, ao mesmo tempo ilimitada e sem ilusões”, aquela travada pelos homens que providenciavam o isolamento sanitário dos doentes e a quarentena dos familiares, assim como um mínimo de atendimento às vítimas da peste. A solidariedade humana é simbolizada por pessoas como o Dr. Rieux (que ao final se identifica como o narrador do episódio), um ateu que dá tudo de si no combate ao flagelo apenas por “estar bem consigo mesmo”; um “Rieux que julgava estar no caminho da verdade, lutando contra a criação tal como ela era”. Quando um popular lhe diz que ele não tinha coração, Rieux para e reflete que coração ele o tinha, pois lhe servia para suportar as vinte quatro horas por dia, nas quais via morrer homens que haviam sido feitos para viver. “O que eu odeio é a morte, é o mal. E quer queira, quer não, precisamos estar juntos para combatê-lo”. Para o narrador o heroísmo tem sempre um papel secundário perante a necessidade de luta pela felicidade, e “o hábito do desespero é pior que o próprio desespero”. O que restava ao médico ao qual não era dado salvar vidas, pois a peste era mortal? Tão somente “descobrir (o flagelado), ver, descrever, registrar, depois condenar e ordenar o isolamento”. A solidariedade também é encarnada no padre Paneloux. Ele, inicialmente, acreditava que a peste havia sido enviada por Deus para o castigo dos pecadores. Quando ocorre a morte, sob intenso sofrimento, do pequeno filho do juiz Othon, se dará o momento da ruptura do padre com o tradicionalismo da aceitação e da submissão. Paneloux diz a Rieux: “Isto é revoltante, mas talvez devamos amar o que não conseguimos compreender”. Retruca-lhe Rieux: “Eu vou recusar até a morte esta criação divina em que as crianças são torturadas”, numa reprodução do diálogo sobre a revolta, entre Aliosha e Ivan Karamazov. Tarrou é um estrangeiro em Oran, um artista revoltado que atua lado a lado com Rieux criando brigadas sanitárias; ele deseja trabalhar pelo próximo como “um santo”, mas um santo sem Deus, sem a fé. “Já que a ordem do mundo é regulada pela morte, talvez convenha a Deus que não acreditemos nele e que lutemos com todas as forças contra a morte, sem erguer os olhos para os céus, onde ele se cala”. Em determinado momento, Tarrou confessa a Rieux que a epidemia não lhe ensinava nada. “Sei de ciência certa que cada um traz dentro de si a peste, porque ninguém no mundo está isento dela”. “O que é natural é o micróbio. O resto, saúde, integridade, a pureza, é um efeito da vontade. É bem cansativo ser-se empestado, mas é ainda mais cansativo não se querer sê-lo… pois, é necessário, tanto quanto possível, permanecermos fora do flagelo”. “Eu me coloco no lado das vítimas em todas as ocasiões, apenas para limitar os prejuízos. Por meio das vítimas que auxilio, posso procurar a paz”. “A Peste” é um livro humanista feito por quem se recusa a aceitar a injustiça do Universo. No silêncio eterno dos espaços infinitos ouvem-se somente os gritos das vítimas. Os homens devem permanecer uns ao lado dos outros quer por egoísmo, quer por santidade, mas tomando consciência dos sentimentos essenciais de amor, amizade, solidariedade. Uma solidariedade que se traça como uma ponte entre moribundos e condenados. A mesma solidariedade que une os homens em perigo e que se desfaz como bruma em tempos de paz. Chega um ponto em que a epidemia regride, a cidade começa a se recuperar, o isolamento é levantado e tudo se esquece. Os ratos voltam a surgir vivos e espertos. “Pode-se dizer que, a partir do momento em que a mais ínfima esperança se tornou possível para a população, o reinado efetivo da peste havia terminado”. Entretanto, “todos os cidadãos estavam de acordo em pensar que as comodidades da vida passada não voltariam e que era mais fácil destruir que reconstruir”. De qualquer forma, a libertação que se prenunciava tinha um semblante misto de sorriso e de lágrimas. Tarrou será a última vítima a morrer de peste. “Tarrou perdera a partida como ele mesmo dizia, mas o que Rieux ganhara afinal? Lucrara apenas por ter conhecido a peste e lembrar-se dela, conhecer a ternura e lembrar-se dela também. Tudo o que o homem podia ganhar no jogo da peste e da vida era o conhecimento e a memória”. Depois da peste, que metaforicamente teria sido a Gripe Espanhola, a Segunda Guerra Mundial, os Campos de Concentração, os Gulags, os Estados de Sítio, quantos heróis da luta não voltaram para suas fraquezas? “Rieux queria fazer como todos à sua volta e crer que a peste poderia chegar e voltar a partir, sem que o coração dos homens mudasse com isso”. “Não era cristão, talvez agnóstico, não era marxista, nada! Era Albert Camus filho do sol, da miséria, da morte”, dizia Sartre. Intelectual, sem dúvida, mas um intelectual que gostava de viver e observar o viver. Participou da Resistência Francesa ao nazismo até a libertação em 1944. Foi editor do jornal O Combate. Em 1951, rompe com Sartre, ataca o socialismo real e a própria perspectiva do comunismo. Em 1957, durante a guerra de libertação argelina onde ele que defendia uma saída negociada, recebe o Prêmio Nobel de Literatura. Morre em um acidente automobilístico em 1959, aos 46 anos de idade. Ao receber o Nobel, ressaltou: “Perante tantos horrores um artista não pode conformar-se com uma diversão sem alcance, com a perfeição formal. Ele falará no vazio se não se voltar para as misérias da História”. O artista moderno é um rebelde que pinta a realidade vivida e sofrida. Mas se sua rebelião for extremamente destrutiva, não chegará aos homens, será um “Calígula de café”. Para falar a todos é necessário falar do prazer, do sol, da necessidade, do desejo, da luta contra a morte, mas falar a verdade! O “realismo socialista” nunca foi realista, pois o academicismo quer seja de direita ou de esquerda esquece o sofrimento dos homens. A arte espelha a rebelião contra o mundo tal como ele é. Nem negativa total, nem consentimento total. O objetivo da arte não é julgar, mas compreender. “Advogo por um verdadeiro realismo contra uma mitologia talvez ilógica e mortífera e contra um niilismo romântico, burguês ou pretensamente revolucionário”. Questionado se não teria deixado de ser um homem de esquerda ele responde: “Tradicionalmente a esquerda tem sempre lutado contra o obscurantismo, a injustiça e a opressão”. De todo modo, a peste dos corpos sobrevive na alma! Mas aqueles que têm consciência podem se autovigiar e evitar causar danos ao próximo e, quem sabe, proporcionar um pouco do bem. Afinal, acreditava Rieux: “há nos homens mais coisas a admirar que a desprezar”. (*) EUGENIO SANTANA é Escritor, Jornalista, Gestor editorial, Ensaísta, Redator publicitário, Blogueiro, Biógrafo, Ornitólogo. Onze livros publicados. Autor, entre outros, de "Ventos Fortes, Raízes Profundas", autoajuda, Madras editora. (41) 9.9667-8484 WhatsApp

terça-feira, 24 de março de 2020

A FÓRMULA DO SUCESSO DOS ESCRITORES CÉLEBRES PARA OS "NEÓFITOS" (*)

Para escrever boas histórias você precisará correr… literalmente! Pelo menos essa é uma condição essencial para Haruki Murakami, autor de 1Q84, Kafka à beira-mar, entre outros títulos de sucesso mundial. Quando está no chamado "modo escrita" para um novo romance, o escritor japonês acorda diariamente às 4 da manhã para começar a sua rotina de seis horas de trabalho. Mas, durante a tarde, Murakami se dedica ao exercício de seu corpo, correndo aproximadamente 10 quilômetros ou nadando cerca de 500 metros todos os dias! Manter uma rotina é muito importante para o processo criativo de Murakami, que consegue atingir desta maneira estágios mentais profundos. Outros autores também consideram o exercício físico um grande aliado durante o processo de desenvolvimento criativo. O esporte está presente na rotina de muitos escritores. É, indubitavelmente, uma excelente forma de clarear as ideias, aquela distância que se faz necessária às vezes, para que possamos enxergar as coisas melhor. Se for possível determinar um padrão entre todos os grandes nomes da literatura mundial, a preferência por escrever durante as primeiras horas da manhã seria uma característica compartilhada por muitos! Ernest Hemingway, por exemplo, declarou certa vez numa entrevista que o seu horário preferido para escrever é ainda antes do surgimento dos primeiros raios de sol. Jane Austen, Victor Hugo e vários outros autores também assumiram que a primeira coisa que fazem ao acordar é “correr” para a escrita. Ter como hábito a obrigação de fazer sempre o trabalho mais importante primeiro é essencial para a criação de uma rotina de produção menos procrastinadora e eficaz, conforme a maioria dos grandes autores. Mas também, como tudo, sempre existe uma exceção para fugir à regra. Marcel Proust e Franz Kafka são exemplos de autores que só conseguiam produzir depois do pôr-do-sol. Na realidade, caros amigos escritores, não importa se é de manhã, tarde, noite ou madrugada, o importante é dedicar-se religiosamente durante um período de tempo ao seu trabalho! A exemplo de Henry Miller (autor de Trópico de Câncer, Nexus, Plexus, Sexus, entre outros títulos), uma alternativa para conseguir organizar a rotina de trabalho é estabelecer um “Mandamento”, uma lista de regras específicas que são responsáveis por reger o desenvolvimento da sua escrita. Algumas das tarefas definidas nos “Mandamentos de Miller” são: trabalhar uma coisa de cada vez até esta estar concluída; quando você não pode criar você pode trabalhar; trabalhe de acordo com o seu programa e não conforme o seu humor; esqueça os livros que você quer escrever, e pense apenas no livro que está escrevendo; entre outras. Definir um conjunto de obrigações e limites, em forma de lista, para seguir durante o período de desenvolvimento da escrita pode ser uma excelente ferramenta norteadora, principalmente para as pessoas que são por natureza menos organizadas. Nomeada para o Prêmio Pulitzer, Barbara Kingsolver, comprova que até os escritores de maior sucesso precisam escrever dezenas de páginas para obter uma que lhes agrade. Acostumada a acordar antes do sol nascer, Barbara está sempre “cheia de palavras” na cabeça e a primeira coisa que faz logo pela manhã é transcrever tudo para o seu computador. De acordo com a escritora, são páginas e páginas de frases desconexas ou pequenos textos soltos. Enquanto os seus filhos estão na escola, Barbara consegue reler tudo o que escreveu, editando e adaptando os trechos que mais gostou, mas também deletando grande parte do conteúdo… Para a autora o escritor deve escrever (óbvio, não?), ou seja, mesmo quando não tiver algo concreto ou um desenvolvimento sólido sobre determinado tema, escreva as frases que lhe vierem à mente, como se fossem mini flashbacks. Mais tarde, ao reler tudo o que escreveu, com certeza será mais fácil construir o restante da história. Os maiores aliados da procrastinação são as redes sociais e o seu celular. Acredite. Por isso, Nathan Englander sempre desliga o seu smartphone e se desconecta de todas as suas redes sociais durante as horas que se dedica ao trabalho. Sabemos que a vontade de checar as novidades no Twitter ou as fotos dos seus amigos no Instagram é tentadora, mas se você quiser realmente ser um escritor de sucesso, o autocontrole, a disciplina e o compromisso com o seu trabalho devem vir em primeiro lugar! Encha a sua cabeça com doses diárias de novas ideias! Pelo menos este é um dos segredos do jornalista e escritor norte-americano A. J. Jacobs: manter um fluxo constante de insights. O autor aconselha que todos os jovens escritores separem alguns minutos do dia para um brainstorm antes de começar a trabalhar. Um momento de reflexão, onde a pessoa deve rever tudo o que está a sua volta e, aliado à sua criatividade e imaginação, construir um universo que será posteriormente materializado pelas suas palavras! Faça como o “rei do terror”, Stephen King que escreve diariamente mais de 2 mil palavras. Ele segue essa rotina sete dias por semana, mesmo durante as férias ou feriados... Ok, talvez você não precise ser tão "drástico", mas a mensagem importante aqui é: não deixe de exercitar constantemente a sua escrita! Para King, assim como tudo na vida, a melhoria vem com a prática. Escrever todos os dias, de acordo com o autor, ajuda a não “enferrujar” o seu estilo de escrita. O talento é algo maravilhoso, mas não é capaz de carregar quem desiste. O hábito de Khaled Housseni é escrever e reescrever todos os dias. A cada nova reescrita, o autor adiciona novas camadas ao texto, novos nuances, novas perspectivas, novas formas e assim consegue tornar a sua história mais rica e completa. Housseni ainda dá uma dica importante para os aspirantes a escritor: ESCREVAM! O primordial para um escritor é escrever, por mais óbvio que isso possa parecer (e é!). Housseni sugere que se escreva todos os dias, mesmo quando não estiver se sentindo o “maior dos escritores”. Ah, e o mais importante, escreva para você mesmo! Não pense num público específico, pois nunca conseguirá agradar a todos os gostos. Reserve-se a escrever uma história que você precisa contar e que gostaria de ler. (*) EUGENIO SANTANA é Escritor, Jornalista, Gestor editorial, Ensaísta, Redator publicitário, Blogueiro, Biógrafo, Ornitólogo. Onze livros publicados. Autor, entre outros, de "Ventos Fortes, Raízes Profundas", autoajuda, Madras editora. (41) 9.9667-8484 WhatsApp

quarta-feira, 18 de março de 2020

O QUE É O BELO? O QUE SIGNIFICA A BELEZA? (*)

Na Grécia antiga, o pensador Platão foi o primeiro a se arriscar a definir o que é beleza. Para o filósofo, o que era belo também era bom, puro e verdadeiro. Conseguir contemplar a beleza significava que sua alma conseguia se recordar de outras vidas. A beleza nada mais seria do que a cópia de coisas vistas nessas outras vidas. Ele acreditava em uma beleza absoluta que poderia se comunicar com os seres através dessa lembrança e isso os tornava belos, de acordo com o nível dessa ligação. Já para seu discípulo Aristóteles o belo não está vinculado a uma beleza maior e sim a proporção, a grandeza e a harmonia das partes em relação a um todo. O ideal grego de beleza usado até o século XVII era aquilo que tinha simetria, proporção, equilíbrio e ordem e permaneceu assim, influenciando inclusive a arquitetura das igrejas (que tempos depois usaram o principio da simetria em sua decoração). Só depois desse século é que surgiu o conceito de que o belo é algo subjetivo, relativo, de gosto individual e da maneira como cada um percebe o objeto. Cada pessoa carrega uma bagagem, uma cultura, uma crença que a faz ver as coisas de maneiras diferentes. Logo, a beleza é definida por suas vivências pessoais. Para o filósofo alemão Immanuel Kant, apesar de a beleza ser definida individualmente, ainda existem conceitos universais que todos nós usamos ao julgar algo. Nossos sentidos e nossa imaginação são comuns a todos os seres humanos e tornam possível a percepção das coisas, ou seja, o juízo estético é induzido através da imaginação (nos dando prazer) e não pelo pensamento lógico. Kant defendeu que é impossível julgar racionalmente o belo. Nós sabemos que cada um de nós tem visões diferentes de beleza, apesar disso todos nós esperamos que os outros concordem conosco sobre o que é belo a nossos olhos. Porém, algo que é belo para mim, também pode ser, embora não obrigatoriamente, para você. E é esse prazer compartilhado por mais de uma pessoa que torna esse conceito universal. Mas será que colocar conceitos sobre o que é belo é certo? Kant escreve que “Quando se julgam objetos simplesmente segundo conceitos, toda a representação da beleza é perdida”. Georg Hegel, filósofo alemão, defende que a noção do que é belo muda de acordo com a época em que se vive e não é definida em um só conceito. O que é feio agora pode ser belo amanhã. O que é bonito hoje pode ser feio futuramente. A palavra belo vem do latim bellus, que significa “lindo, bonito, encantador”. Na época clássica era um termo pejorativo para homens, mas algo bom para mulheres. Na pré-história mulheres obesas tinham o tipo físico ideal, pois significava que eram bem nutridas, o que supostamente as tornava melhores para procriar. Há 28 mil anos, a Vênus de Willendorf possuía a aparência considerada bela. A beleza para os homens gregos, era cuidar do corpo, mantendo a aparência forte e musculosa e cabelos encaracolados. As mulheres gregas evitavam expor-se ao sol (o bronzeado era considerado feio) e seus corpos eram mais cheios (com curvas acentuadas), seios pequenos, pele clara e cabelos longos (melhor ainda se fossem ruivos). Além disso, o belo era definido também pelo intelecto e pelo estilo de vida que eles levavam e não apenas pela aparência do corpo em si. Na idade média, a aparência não era importante por ser considerada pecaminosa, o foco eram as características morais. A mulher devota, de alma pura, casta, com lábios pequenos e cabelos louros eram belas. Homens tinham que ter poder. No renascimento a gordura entrava como ideal de beleza e representava o poder aquisitivo da pessoa para comprar alimentos. Para homens e mulheres, ter braços e quadris avantajados era sinal de riqueza. Cabelos longos e barriga aparente eram o ideal para elas. Na época barroca elegância era sinônimo de beleza, assim como roupas refinadas. No Romantismo o bonito mesmo era ser triste e doente. Quanto mais palidez, olheiras e cabelos bagunçados para as mulheres, melhor. Homens deviam ser boêmios para serem belos. A mídia criou padrões de beleza inatingíveis, mascarados por efeitos de programas digitais. Tem casos que nem o artista fotografado se reconhece nas fotos. Criando pessoas insatisfeitas com seus corpos e que nunca alcançarão seus objetivos (pois eles são irreais), a indústria da beleza lucra alto com a venda de produtos. Nunca se variou tanto os padrões de beleza em um curto espaço de tempo. O bonito dos anos 40 era ter curvas a la Marilyn Monroe, a regra era se inspirar nos astros de Hollywood, já na década de 60, a magreza de Twiggy era ideal. Nos anos 80 o corpo esculpido por ginástica era belo, mas sem exageros, diferente dos anos 2010, onde a febre era fitness, de corpos musculosos, com horas de academia e com alimentação regrada. (*) EUGENIO SANTANA é Escritor, Jornalista, Gestor editorial, Ensaísta, Redator publicitário, Blogueiro, Biógrafo, Ornitólogo. Onze livros publicados. Autor, entre outros, de "Ventos Fortes, Raízes Profundas", autoajuda, Madras editora. Radicado em Curitiba, PR. (41) 9.9667-8484 WhatsApp

LIVROS ESSENCIAIS QUE POTENCIALIZAM A SUA BIBLIOTECA (*)

Conhecimento é poder, já dizia Thomas Hobbes antecipando o movimento hacker. A leitura é imprescritível a inteligência dos intelectuais, ler é bom ainda que sejam títulos inócuos e de conhecimento prático letárgico. Todavia, ao bom leitor, selecionar um bom livro torna-se essencial para absorver conhecimentos e assim tecer opiniões críticas sobre seus variados temas e realidades. Justamente pensando nisso que resolvi criar essa lista de títulos compostos por obras-primas e clássicos da literatura e intelectualidade para que você que queira ter uma base intelectual razoável possa ler. Alguns livros como a Bíblia é indicado por nomes como Neil deGrasse Tyson, assim outros são clássicos inquestionáveis como 'O Príncipe' e 'A Revolução dos Bichos'. '1984', de George Orwell. A ficção científica com contornos quase proféticos é uma feroz crítica a uma ditadura que dominou o mundo. Desse livro deriva-se vários conceitos como a do 'Big Brother' além de ser uma severa crítica ao classismo. Por vezes visceral o livro narra como seu governo manipula tudo, da 'paz' a história constantemente modificada em seus livros para enaltecer o partido. 'O Príncipe', de Maquiavel. Obra essencial para estudiosos de ciências políticas o livro é uma obra prima do pensamento renascentista ao abordar pela primeira vez a política do modo como é. Ainda que dentro do contexto histórico diferente ao atual muito de seus preceitos são ainda hoje utilizados como em estratégias para o poder, ainda que derivando-se dele em sua vulgarização tenha surgido o termo 'maquiavélico'. 'A Arte da Guerra', de Sun Tzu. Ainda que haja dúvidas sobre a veracidade da existência de seu autor esse curto livro traz tratados de estratégia e ética militar mas que apesar disso hoje sua aplicação não limita-se ao militarismo sendo comumente aplicado ao meio empresarial e corporativista. Não confunda com o livro de mesmo nome de Maquiavel. 'Revolução dos Bichos', de George Orwell. Obra clássica da literatura é muito mais que um livro infantil, mas uma crítica voraz de Orwell ao que se tornava o socialismo. Ele sendo socialista e de esquerda não poupa críticas ao que ele mesmo acredita demonstrando como a luta contra o capitalismo e classismo leva, pela corrupção do poder, apenas a perpetuação do mesmo. Assim o livro torna-se não somente uma metáfora a então URSS mas até mesmo a eventos históricos mais atuais como Cuba. 'A Bíblia Sagrada'. O livro mais vendido de todos os tempos é um compêndio de inúmeros outros livros divididos entre o Antigo e Novo testamento. Mas muito mais do que uma busca doutrinária e de credo ler a Bíblia é um exercício de discernimento e interpretação, tanto que disso derivou-se de guerras à verdadeiras histórias de santos. Mas o simples fato de ser o livro que mudou a face da humanidade torna-o único exemplar para um estudo intelectual apurado sobre a essência da própria humanidade em sua busca por um significado na vida e da mais importante religião de todas, o Cristianismo. A bom entendedor desse livro deriva-se mais que doutrina, mas filosofias de vida, principalmente no Novo testamento. Mesmo para aqueles que são ateus é um livro que somente deve ser criticado ao ser lido. 'O livro Perdido de Enki', Zecharia Sitchin. A tradução das tabuletas sumérias feitas por Zecharia Sitchin demonstra uma das mais antigas mitologias da história mas que pela clareza de seus relatos ressoa como história verídica que leva a compreensão de inúmeras outras mitologias posteriores, das grega e mesmo do Pentateuco cristão. Assim para ter uma melhor compreensão da bíblia em suas origens nesse livro anterior ao mesmo torna-se uma leitura de valor inestimável além de remeter aos primeiros conceitos de extraterrestres como seus deuses. 'O Silmarillion', J.R.R. Tolkien. Um dos livros mais importantes da literatura ao lado do 'Senhor dos Anéis' traz um resumo mitológico e linguístico da Terra Média com inúmeros contos da criação até a seus emblemáticos personagens, tendo ricos apêndices com genealogias e detalhes fornecidos por esse gênio da literatura, o linguista Tolkien, homem de sucesso na vida acadêmica e que escrevia nas horas vagas. 'Uma breve história do tempo', Stephen Hawking. Similarmente a Carl Sagan na sua emblemática série Cosmos, o astrofísico Stephen Hawking traz nesse livro uma deliciosa introdução a física numa linguagem acessível sobre os principais elementos da física moderna e astronomia o qual contribuiu avidamente. O livro como um louvor a ciência é obra indispensável ao lado de 'O Universo numa casca de noz'. (*) EUGENIO SANTANA é Escritor, Jornalista, Gestor editorial, Ensaísta, Redator publicitário, Blogueiro, Biógrafo, Ornitólogo. Onze livros publicados. Autor, entre outros, de "Ventos Fortes, Raízes Profundas", autoajuda, Madras editora. Radicado em Curitiba, PR. (41) 9.9667-8484 WhatsApp

TRAVESSIA (*)

No livro sobre tudo, tudo é travessia: o rio, em que se mira um ponto e se chega em outro, pois o rio tem vida - a correnteza; o sertão escuro, quente, perigoso, pois o sertão é o impossível. “Viver é muito perigoso”. E o perigo existe porque a travessia é cega. Para cada um, um rio diferente no meio do sertão. Impossível dividir ou compartilhar, porque toda caminhada é um solo de instrumento, quando cessa todo o som ao redor. A “caminhadura" de Gil. E embora seja possível fingir que apenas se está de passagem pela vida, em alguma parte do caminho há o imprevisto à espreita, para tentar nos fazer ver que é preciso pisar sobre as pedras do caminho. E, com isto, estampa-se um início de lição dos livros sobre os homens e seus destinos, entende-se “o que a vida quer da gente": a coragem de Riobaldo, de Santiago na pequena embarcação no mar aberto de Cuba. Em algum momento será exigido que retiremos do fundo a força que mal sabíamos ser possível, as habilidades que calamos por preguiça ou modéstia, a inteligência pouco exercitada, a resiliência que só de assalto se manifesta. Nas metáforas absolutas que os livros são capazes de trazer estão escritos os maiores feitos humanos. E não se trata dos livros sobre heróis de guerras ou deuses, mas daqueles em que o homem está diante da fome, da sede, do medo, do impossível do amor, do maior peixe já visto, da sua idade avançada, dos limites de sua força física, diante do mau tempo, do escuro da vida. Esta, a única batalha necessária e inevitável e bem-vinda: o homem e ele próprio. Em algum momento de cada jornada individual será possível ao homem encontrar-se com o melhor de si, no meio de um rio dentro do sertão, no meio do mar aberto, em que tudo o mais que existe, existe, primordialmente, para a sua vitória sobre si. (*) EUGENIO SANTANA é Escritor, Jornalista, Gestor editorial, Ensaísta, Redator publicitário, Blogueiro, Biógrafo, Ornitólogo. Onze livros publicados. Autor, entre outros, de "Ventos Fortes, Raízes Profundas", autoajuda, Madras editora. Radicado em Curitiba, PR. (41) 9.9667-8484 WhatsApp

domingo, 5 de janeiro de 2020

ENCHA-SE DE VIDA MAS, CONTINUE ESCREVENDO (*)

Continuar escrevendo é buscar compreender a si próprio, trazer à vida as palavras que lhe consomem, as verdades tão relativas que permeiam a ilusão que é viver. Você vai continuar escrevendo por não conhecer uma maneira melhor de expôr seus demônios, não ter outra maneira lógica de expor a miséria e a confusão em que se encontra. Tampouco consegue compartilhar os momentos de epifania, alegria intensa e aprendizado sem passar por palavras, por notas, por listas. Você vai continuar escrevendo para provocar, para permitir que as pessoas o entendam melhor. Vai compartilhar teus pensamentos na ânsia de que o outro te encontre no caminho — é sempre uma conversa. Acima de tudo, você vai escrever para entender quem realmente é. Você, ao escrever, vai passar a ver conexões entre coisas distintas, sinais nas pequenas coisas — tudo se torna uma metáfora, uma maneira de aliviar as dores e compreender o mundo. Escrever vai se tornar uma companhia para a vida toda, uma terapia, um escape. E a partir de então, já não importa mais o que os outros pensam ou dizem. Não importa se gostam ou não do que você escreve ou da maneira como se expressa. Ao escrever e se expor, você estará sujeito a coisas maravilhosas e também à crueldade daquele que o lê. E vai se sentir mal muitas vezes, vai pensar que talvez não devesse ter escrito aquilo, vai perceber que não há para onde correr. Você vai estar ali, em medidas diferentes e mesmo que insignificantes, sendo julgado a todo o tempo. A gramática, aquela palavra repetida, aquele pensamento, todos aqueles clichês: tudo isso saltará aos olhos dos mais atentos, dos mais críticos. E ainda assim, nadando contra a maré, você continuará escrevendo. Vai continuar por saber que não vai ficar rico com isso e, por assim ser, ou você escreve porque gosta ou enterra logo tudo isso. A recompensa parece não vir nunca, mas você vai ler o que escreveu há anos —  primeiramente vai se envergonhar de tudo aquilo —  e depois vai refletir sobre quem era e quem se tornou. Vai pensar se lá no passado você já dava indícios de que seria quem é hoje. E assim prosseguirá juntando frases, tentando dar sentido às coisas. E vai perceber que a busca por palavras te leva a lugares que talvez nunca iria se não fosse pela escrita. Vai perceber que a poesia, a prosa e os textos que fazem parte da sua vida estão por toda parte. Nas ruas, nas esquinas, nas pessoas que encontra, nos caminhos e cidades que ainda irá explorar. Se há algo que a escrita requer é experiência, é vida, é estrada e pessoas. Ainda que o processo seja extremamente solitário, dolorido e indulgente, ele requer experiência humana. Ele requer que sejamos, acima de tudo, um colecionador de vidas, de pessoas que passam por nós e nos fazem lembrar que viver é difícil mas vale a pena. Pessoas que talvez vão mudar nossas percepções sobre determinado tema, nos fazer refletir sobre coisas que talvez nunca pensamos antes. E é ai que está a beleza de escrever. As histórias nascem a partir de nós mesmos, de nossos questionamentos, de nossas vivências. Escrever é um atestado da fragilidade humana, do encantamento que temos por nós mesmos, seres tão iguais e tão diferentes ao mesmo tempo. Ter descoberto a escrita tão cedo adicionou à minha existência quartos que posso acessar a qualquer momento. Alguns são escuros, outros parecem receber a luz do nascer do sol, meio amarelada, que nos cega até que nos acostumemos a ela. Escrever não é fácil quando o que se está em em jogo é uma busca frenética pelo sentido da vida. Eu não entendo o mundo, não entendo a vida, sequer entendo a mim mesmo. Neste sentido, acho que escrever é também perder-se, mais do que se encontrar. É embaralhar o quebra-cabeças simplesmente porquê tudo aquilo que você julga saber não passa de ilusão. E assim você se refaz, reescreve, anota, deixa o papel em branco marcado de tinta para que não se esqueça jamais de que as coisas são passageiras. A palavra será sua melhor companhia nos dias solitários, nas manhãs enquanto toma café, nos bancos das praças e voos longos. É a partir dos livros, dos textos, do que os outros escreveram, que você irá encontrar razão para continuar escrevendo. E não se torture muito. Lembre-se que você escreve a partir de suas próprias circunstâncias e, por isso mesmo, não deva se comparar demasiado com os outros. Não é preciso querer ser como determinado escritor, mas é importante invejá-los e tentar absorver um pouco de cada um deles. No final das contas, escrever será um exercício para toda a vida. Uma necessidade, uma pedra a ser polida — cada dia melhor, cada vez mais próximo de como você realmente deseja escrever. E talvez você nunca se satisfaça com o texto, com o tom que dá às palavras. Desde que isso não lhe impeça de escrever, tudo bem. Hoje, andando sozinho pela cidade tive algumas ideias e uma ou outra conversa que com certeza renderia um bom texto. Mas ao invés de escrevê-las resolvi tentar entender a razão pela qual escrevo e quando tudo isso começou, de fato. Tomava meu café enquanto tentava voltar no tempo e ter algum resquício de memória sobre quando, de fato, comecei a escrever. Por que continuar a escrever? O que te move até as palavras, as frases, as metáforas? Por que você leva isso a sério? O que você ganha com isso? Escrevo para me encontrar e me perder, para salvar histórias, capturar pessoas e lugares. Escrevo para entender e confundir, para dar um sentido narrativo à minha vida. E continuarei escrevendo, por mais dolorido que seja, ainda que precise vencer todo e qualquer crítico e, principalmente, a mim mesmo. E você vai continuar escrevendo porquê escrever é, acima de tudo, viver. Encha-se de vida e continue. (*) EUGENIO SANTANA é Escritor, Jornalista, Gestor editorial, Ensaísta, Redator publicitário, Blogueiro, Biógrafo, Ornitólogo. Onze livros publicados. Autor, entre outros, de "Ventos Fortes, Raízes Profundas", autoajuda, Madras editora. Radicado em Curitiba, PR. (41) 9.9667-8484 WhatsApp

sábado, 14 de dezembro de 2019

LUTO CONTRA O LUTO. ORO E CHORO. ADEUS, MANO VELHO! (*)

Pensamos no instante da perda que nunca mais seremos capazes de sorrir, mas isso não é verdade. Depois de algumas auroras e alguns crepúsculos, vamos descobrindo que a vida ainda está muito presente, que ainda somos capazes de nos alegrar com outras coisas, sem que isso diminua o amor e a saudade que sentimos de quem partiu. O mais difícil: o primeiro aniversário, o primeiro natal, o primeiro réveillon, as primeiras férias... são as ocasiões mais doloridas. Mas o passar dos dias ameniza a dor e vai dando lugar a uma certa nostalgia, ao carinho da lembrança. Aceitamos dificilmente a morte porque nos esquecemos com facilidade que nossa vida na terra é apenas uma passagem. E quando alguém parte, é como se acordássemos para essa realidade: somos eternos para a vida, mas não a terrena! Inconscientemente pensamos na nossa própria morte e na daqueles que ainda estão conosco. Mas... enquanto o sangue pulsar nas nossas veias, é a vida que pulsa e tudo o que podemos e devemos fazer é vivê-la. Alguém que amamos parte para sempre e isso é tremendamente doloroso. Essa pessoa é insubstituível ao nosso coração, já que cada pessoa é única em si no nosso viver e somos conscientes disso. Mas outros que amamos e que nos amam ainda estão por aqui e isso deve ser motivo de alegria e reconforto. Afinal, "Deus costuma usar a solidão Para nos ensinar sobre a convivência. Às vezes, usa a raiva para que possamos Compreender o infinito valor da paz. Outras vezes usa o tédio, quando quer nos mostrar a importância da aventura e do abandono. Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar sobre a responsabilidade do que dizemos. Às vezes usa o cansaço, para que possamos Compreender o valor do despertar. Outras vezes usa a doença, quando quer Nos mostrar a importância da saúde. Deus costuma usar o fogo, para nos ensinar a andar sobre a água. Às vezes, usa a terra, para que possamos Compreender o valor do ar. Outras vezes usa a morte, quando quer Nos mostrar a importância da vida." (*) EUGENIO SANTANA é escritor, jornalista, ensaísta, agente literário, gestor editorial e biógrafo. Onze livros publicados. Membro benemérito "ad honorem" do Centro Cultural, Literário e Artístico de PORTUGAL. Contato: autoreugeniosantana9@gmail.com e (41) 9.9667-8484 WhatsApp, Curitiba, PR

ADEUS, PADRINHO LITERÁRIO, POETA PAULO NUNES BATISTA (*)

Nem as palavras mais bonitas deste mundo poderiam trazer algum tipo de alegria para o dia de hoje. A saudade conseguiu preencher todos os espaços das nossas vidas, inclusive aqueles que por algum motivo continuavam livres. O vazio deixado pela ausência é imensurável com a pura certeza que jamais será novamente ocupado. Por mais que os segundos passem a dor não minimiza e há aquela incerteza de como será possível seguir em frente nos próximos dias, só complica ainda mais os pensamentos confusos que invadiram as nossas vidas. Mas o pior de tudo isso é ter a certeza que é preciso encontrar forças, mesmo que por dentro não consigamos acreditar que elas existem. Encontrar a esperança em um dia tão triste pode até ser improvável, mas nunca impossível. Apesar da dor e do sofrimento, não podemos ignorar que é realmente necessário seguir em frente. A saudade será eterna e a presença não poderá mais ser sentida, mas as lembranças dos bons momentos vividos são um ótimo conforto, que permanecerá para sempre conosco. O tempo necessário para toda esta dor ir embora é ainda indeterminado, mas todos os dias em que a coragem de seguir em frente vencer a tristeza devem ser devidamente comemorados.O luto por quem amamos é sempre eterno, assim como as saudades e as lembranças de tudo que compartilhamos. Nada nunca será capaz de me fazer esquecer a falta que você faz na minha vida. A sua morte ficou marcada na minha alma como uma tatuagem profunda. Com o tempo, a dor e a ausência causadas pela morte viram apenas uma forte saudade que aparece por causa de uma antiga fotografia, um velho baú de recordações, uma história relembrada ou um cheiro que surge do nada. Sua memória para sempre viverá em mim; suas lembranças para sempre me aquecerão o coração. Mas a sua perda eu jamais superarei, e eternamente chorarei sua partida. (*) EUGENIO SANTANA é escritor, jornalista, ensaísta, agente literário, gestor editorial e biógrafo. Onze livros publicados. Membro benemérito "ad honorem" do Centro Cultural, Literário e Artístico de PORTUGAL. Contato: autoreugeniosantana9@gmail.com e (41) 9.9667-8484 WhatsApp, Curitiba, PR

sábado, 23 de novembro de 2019

COMO SUPERAR O FIM DE UM RELACIONAMENTO AFETIVO? (*)

Para curar um “coração partido”, você precisa se isolar de todas as lembranças e referências do ex-companheiro ou companheira. Para isso, evite falar ou encontrar com a pessoa que deseja “esquecer”. Sabemos que pode ser muito difícil, pois provavelmente vocês têm muitos amigos em comum, mas acredite que este é o primeiro grande passo rumo à sua "desintoxicação". Como já dizia a antiga máxima popular: “o que os olhos não vêem, o coração não sente”. Quando estamos num relacionamento por muito tempo, podemos “perder” ou “esquecer” a essência de quem somos como seres individuais para viver a vida de casal. Bem, está na hora de (re)descobrir a sua identidade! Quem você é? O que te deixa feliz, triste, irritado? Quais as suas aspirações e desejos pessoais? Se concentre em tentar se autoconhecer e invista em VOCÊ! Se inscreva na academia, mude de look, se matricule num curso que sempre sonhou em se especializar, enfim… as opções são inesgotáveis! Muitas coisas ficam por dizer no fim de um relacionamento, na maioria das vezes… Pensamentos, histórias, frases, idéias… Palavras que não foram ditas, mas que permanecem presas na sua cabeça. Liberte-as! Escrever é uma ótima alternativa para te ajudar a descarregar toda a carga emocional que dificulta a superação do fim do relacionamento. Ninguém precisa ler o que você escreve, não se preocupe. Encare isso apenas como uma terapia pessoal, ok? Foque toda a sua energia em algo que possa servir como uma “distração” para a montanha-russa de sentimentos que insistem em te tirar o sono. Seja um projeto filantrópico, um curso de culinária oriental ou aulas de salsa, não importa, contanto que você tenha rotinas diárias e objetivos para atingir. Esta também pode ser uma excelente oportunidade de pensar em dar um novo passo no seu trabalho, investindo toda a sua concentração e tempo na evolução da sua carreira. Se você tem um “pé de meia” guardado, aproveite para fazer aquela viagem que sempre sonhou! Tire um tempo para conhecer novas culturas, viver aventuras diferentes e conhecer lugares inusitados. Além de ser uma excelente oportunidade de autoconhecimento e crescimento pessoal, também conhecerá muitas pessoas interessantes pelo caminho… quem sabe até mesmo um novo amor. Remoer o passado pensando no que poderia ter feito para evitar o fim do relacionamento ou nutrir raiva e sentimento de vingança contra o/a ex não vai te ajudar a dar a volta por cima! Como eu disse antes, se concentre nas coisas que fará DAQUI PARA FRENTE! Pense no SEU futuro, afinal de contas você ainda tem uma vida inteira pela frente! E mesmo seguindo todas as minhas dicas, não esqueça: dê tempo ao tempo! Não tenha vergonha de desabafar com o melhor amigo, chorar ou passar o fim de semana vendo filmes românticos e comendo sorvete de pijamas na cama… Existe um limite daquilo que você poderá fazer para se sentir bem e o resto… Bem, o resto é com o tempo. (*) EUGENIO SANTANA é Escritor, Gestor editorial, Assessor de imprensa, Ensaísta, Redator publicitário, Blogueiro, Biógrafo, Agente literário. Onze livros publicados. Autor, entre outros, de "Ventos Fortes, Raízes Profundas", autoajuda, Madras editora. Radicado em Curitiba, PR. (41) 9.9667-8484 WhatsApp

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

RICO E ATEMPORAL É O LEGADO FILOSÓFICO DE NIETZSCHE (*)

Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 1844 na cidade de Röcken, Alemanha. Ele cresceu em um ambiente ortodoxo e protestante dominado por mulheres; seu pai era pastor evangélico e faleceu quando ele tinha cinco anos de idade. Nietzsche estudou em um orfanato na maior parte de sua formação escolar. Ele se interessava principalmente por antiguidade grega e romana. Cursou filosofia clássica nas universidades de Bonn e Leipzig. Nesta última, ele estabeleceu contato primordial com as ideias de Arthur Schopenhauer, seu maior influenciador literário, e com a música clássica de Wagner, compositor que admirava e que mais tarde se tornaria seu amigo pessoal. Em 1869, com 25 anos de idade, Nietzsche atuava como professor de filologia clássica na Universidade da Basileia. Contudo, seu ofício foi interrompido um ano depois, quando eclodiu a Guerra Franco-Prussiana. O alemão participou ativamente do conflito como enfermeiro, até ser obrigado a abandonar a função por causa de uma gravíssima disenteria, da qual nunca se recuperou totalmente. No ano de 1881, Nietzsche conheceu a mulher de sua vida: Lou Andreas Salomé, por quem se apaixonou perdidamente. Mas, por crueldade do destino, ela acabou se casando com um amigo seu. Essa traição estapafúrdia foi o estopim para consolidar nele uma forte misoginia e ceticismo em relação ao amor. O coração de Nietzsche nunca mais seria habitado por alguém além de si mesmo. O alemão passou a desenvolver uma resistência afetiva quase que completamente ascética, do que surpreende sua estrondosa sensibilidade na investigação de assuntos humanos. Solitário e inconsolável de amor, mais frívolo do que antes, o filósofo estabeleceu-se na Riviera francesa e no norte da Itália, lugares que ele considerava frutíferos para pensar e escrever. Imensamente frustrado por suas obras não serem consideradas pelo público, ele passou a sofrer de acessos de loucura e paranoia em 1889, quando morava em Turim e já estava praticamente cego, literal e naturalmente. Depois de ficar internado em algumas clínicas de reabilitação na Basileia, Nietzsche passaria o fim de sua vida na casa da mãe e da irmã, esta que cuidou dele até ele morrer. O alemão se foi em 1900. Apesar do melancólico fim, Nietzsche deixou um legado filosófico riquíssimo que até hoje não perdeu o poder inspirador e efetivo. A seguir, encontram-se 20 das maiores ideias do filósofo: 1. O destino dos homens é feito de momentos felizes e não de épocas felizes A felicidade costuma ser frágil e volátil, por isso só é possível senti-la em certos momentos. Se pudéssemos experimentar a felicidade ininterruptamente, ela perderia todo seu valor, uma vez que só percebemos ser felizes por comparação. Após um dia inteiro de trabalho, um pouco de descanso é tudo que queremos. Após um dia inteiro de chuva, o raiar do sol nos é maravilhoso. Da mesma forma, a alegria aparenta ser genuína e intensa quando atravessamos um período de tristeza. A obrigação de ser feliz é grande motivadora de estresse e frustração. Nietzsche nos lembra: "A felicidade vem em lampejos. Tentar fazer com que ela dure para sempre é aniquilar esses lampejos que nos ajudam a seguir em frente no longo e tortuoso caminho da vida." 2. A verdade é uma vontade de engano Nietzsche pensava que a verdade em que se acredita nada mais é do que uma crença na veracidade de um engano. Sendo assim, a verdade seria uma ilusão de criação. O autor refere-se à verdade como sendo uma vontade. Para ele, a verdade não é uma coisa que está ali para se descobrir, mas algo que está por criar e que dá nome a um processo. Nietzsche entende que a vontade de verdade decorre de uma vontade de engano: a necessidade de se atribuir um determinado valor à categoria de verdade para fazê-lo mais forte e poderoso a fim de que se possa acreditar nele. Porém, como este valor foi criado historicamente, seria um engano tê-lo por definitivo. "Verdade: em minha maneira de pensar, a verdade não significa necessariamente o contrário de um erro, mas, somente, e em todos os casos mais decisivos, a posição ocupada por diferentes erros uns em relação aos outros." Se se aceita a verdade como moral, ela representa uma conduta necessária. É impossível viver sem ter representações morais da verdade. Precisamos acreditar na verdade para validarmos nossa existência, por exemplo, sem a qual não haveria engano. Para Nietzsche, a vontade de verdade e a vontade de engano são a mesma, só que observadas de duas perspectivas diferentes. A vontade de verdade, a busca da verdade e a crença nesta verdade decorrem da necessidade de se acreditar nas construções históricas e culturais. 3. A mentira mais comum é a que um homem usa para enganar a si mesmo Mentimos para sermos mais felizes, embora se prefira negar. Niezsche costumava dizer que "enganar os outros é um defeito insignificante, pois o que nos transforma em monstros é o autoengano". De fato, é muito mais fácil não admitir que se está errado do que aceitar o próprio erro. Às vezes, basta assumir humildemente um erro; apenas dessa forma nos contentaremos com as consequências de uma ilusão que possa ser vivida. 4. A potência intelectual de um homem se mede pelo humor que ele é capaz de manifestar Por várias vezes, Nietzsche falou sobre a importância do humor, que ele considerava uma tábua de salvação para os desgostos que a vida oferece: "O homem sofre tão terrivelmente no mundo que se viu obrigado a inventar o riso." Para o filósofo, as pessoas deveriam tachar de falsa toda verdade que não seja acompanhada por um sorriso. Essa é uma ideia acalentadora, embora possa ser mentirosa em sua própria atribuição. Mas os benefícios são evidentes. 5. O homem amadurece quando reencontra a seriedade que demonstrava em suas brincadeiras de criança "Em qualquer homem autêntico existe uma criança querendo brincar." Para Nietzsche, considerar fábulas e jogos coisas infantis é sinal de grande pobreza de espírito, pois somente as pessoas capazes de manter a curiosidade e o senso lúdico da infância terão sempre novos êxitos ao seu alcance. Crianças encaram a vida como uma brincadeira, e pensam que contos de fada são verdadeiros. Não significa que devemos agir de forma ingênua, mas é essencial mantermos um pé no mundo da fantasia, o que aflora nossa imaginação e nos torna mais criativos e producentes. Às vezes, tudo que precisamos é deixar de lado o mundo dos adultos e assumir a persona que já fomos antes. 6. Não se aprende a voar voando De acordo com o filósofo, quem deseja aprender a voar deve primeiro aprender a caminhar. Fazer qualquer coisa sem estar preparado gera decepção iminente: "Quem espera levantar voo sem antes passar pelo aprendizado básico está condenado a uma queda da qual não se reerguerá." Aquele que conhece suas capacidades e, mais importante, suas limitações, sabe exatamente quais lutas pode lutar e quais não. 7. Quem luta contra monstros deve ter cuidado para não se transformar em um deles "Os cínicos costumam se esconder por trás da maldade do mundo para dar asas à própria perversão. No entanto, os atos alheios nunca justificam os nossos." Com esta reflexão, Nietzsche refere-se às dificuldades da vida, que podem fazer com que uma pessoa aparentemente benevolente se torne malévola por uma justiça fraudulenta. Entretanto, ele lembra que, no final, uma decisão, mesmo terrível, é opção pessoal, e a responsabilidade, intransferível. 8. É muito difícil os homens entenderem sua ignorância no que diz respeito a eles mesmos "Somente quando o homem tiver adquirido o conhecimento de todas as coisas poderá conhecer plenamente a si mesmo. Porque as coisas nada mais são que as fronteiras do homem." O filósofo sugere que não há nada mais trabalhoso que o autoconhecimento. Então, para se chegar a um elevado nível de sabedoria, o homem precisa se dispor a aceitar seus limites intelectuais, é claro, com ambição e humildade suficientes. 9. O sucesso sempre foi um grande mentiroso O êxito costuma ser um veneno, pois um privilegiado pode agir como prepotente, e assim ficar estagnado. Nietzsche ensina que, quando a sorte deixa de sorrir para o bem-sucedido, de uma hora para outra seu mundo vira de cabeça para baixo. O fracasso, por sua vez, representa sempre uma oportunidade para melhorar; favorece a humildade, nos ajuda a manter o pé no chão, estimula nossa imaginação e nos faz explorar novas perspectivas. Aqueles que se dispõem a alcançar algo precisam estar devidamente preparados para derrocar, ao passo que novas oportunidades possam ser almejadas. 10. A melhor arma contra o inimigo é outro inimigo Segundo Nietzsche: "Uma guerra não é travada apenas nos campos de batalha tradicionais, em que tropas tentam aniquilar umas às outras. A luta acontece em qualquer área em que os seres humanos disputem influência." Existem disputas de poder em toda e qualquer circunstância, seja em casa, no trabalho ou onde for, quando duas ou mais pessoas usam suas armas para conseguir o papel central. Assim como os animais, seres humanos são territoriais e constantemente buscam aumentar seus domínios, inclusive o emocional. Mas, como lembra Nietzsche, nem sempre encontramos um inimigo para opor àquele em perspectiva que está nos enfrentando e, às vezes, precisamos de fato recorrer a outras estratégias. 11. A essência de toda arte é a gratidão De acordo com o alemão, a gratidão é uma condição indispensável para apreciar a beleza do mundo. Algumas pessoas aparentemente têm tudo, e sentem como se não tivessem porcaria nenhuma, ao passo que outras realmente têm pouco, mas maravilham-se com o pouco. Nietzsche ressalta que, se praticarmos a arte da gratidão, alimentaremos nosso ser emocional de boas sensações, principalmente nas horas de dificuldade. Mesmo em ocasiões de tensão e estresse, basta deixarmos agraciar pelas belezas do mundo para encontrar forças que nos permitam superar as árduas provações que advirem. 12. As pessoas nos castigam por nossas virtudes. Só perdoam sinceramente nossos erros Para Nietzsche, o contrário do amor não é ódio, mas indiferença. A fúria de quem odeia é nutrida por uma admiração oculta, e assim também acontece com a inveja. Schopenhauer, um dos mestres de Nietzsche, bem afirmou: "A inveja dos homens mostra quão infelizes eles se sentem, e a atenção constante que dão ao que fazem os demais mostra como sua vida é tediosa." Se contamos uma boa novidade a uma pessoa e logo ela evoca nossos defeitos, decerto não deseja que sigamos adiante. Os amigos verdadeiros abundam-se em felicidade ao ouvir nossas histórias de sucesso. Todavia, convém ocultar nossos êxitos em determinadas oportunidades, pois assim evitamos uma carga emocional negativa e indesejada de quem poderia facilmente nos atingir. 13. Se a consciência nos torna humanos, a imperfeição é um traço distintivo de nossa espécie De acordo com Nietzsche: "O homem que imagina ser completamente bom é um idiota." Passamos tanto tempo consertando erros quanto construindo coisas de valor. Assumir essa realidade nos torna mais perseverantes e, o que é mais importante, nos faz tomar consciência do quanto ainda precisamos melhorar. Errar faz parte do processo de aprendizagem. Como denota Nietzsche, as pessoas perfeccionistas acabam por sofrer as consequências de seus atos imperfeitos e, se algo dá errado, costumam transferir a culpa para os outros, mesmo que falha alguma seja cometida. O filósofo nos lembra que é inútil desejarmos ser bons o tempo todo, o que importa é estarmos dispostos a fazer um pouco melhor hoje do que fizemos ontem. 14. Só quem constrói o futuro tem o direito de julgar o passado "Quem constrói o futuro está muito ocupado para julgar o passado". Por vezes nos pegamos desprevenidos em memórias e lembranças passadas a fim de guiarmo-nos para o futuro. No entanto, tais julgamentos do passado escondem o orgulho premente de quem se considera dono da verdade, e também revela grande insegurança. Como diz Nietzsche: "É mais produtivo construir o que vai acontecer do que analisar o que se passou." Quem age está menos preocupado do que quem não ocupa a mente. 15. É importante nos orgulharmos de nossos inimigos Na visão de Nietzsche, não devemos ter mais inimigos que as pessoas dignas de ódio, tampouco devemos ter inimigos dignos de desprezo. O filósofo afirma ser necessário reservar-nos para os adversários, pois frequentemente temos que lidar com muitas ofensas, e passar por cima de muitos para não sermos massacrados. "Escolhe inimigos que te mereçam." 16. Nós nos sentimos bem em meio à natureza porque ela não nos julga O ser humano é um animal que julga, e muitas vezes somos desnaturalizados pelos outros, o que nos faz sentir estranhos em um mundo de supostos humanos. Nietzsche ressalta que, ao sentirmos o cheiro de terra fresca, o ar limpo e o silêncio, apenas quebrado pelas criaturas ao redor, reencontramos nossa essência há tanto tempo abandonada. "Na cidade, precisamos representar um papel porque estamos muito preocupados com o que pensam de nós. Mas, ao voltar à natureza, podemos nos dar ao luxo de ser nós mesmos. Não precisamos nos vestir bem, falar ou atuar de maneira especial. Basta nos deixar levar pelo mundo natural em direção ao nosso interior, onde um manancial de tranquilidade nos espera." 17. Não há apenas uma morte ao longo da existência Nietzsche sugere que precisamos pagar pela imortalidade e morrer várias vezes enquanto vivos. Segundo ele, não há apenas uma morte ao longo da existência. No transcorrer da vida, vamos vencendo etapas e superando desafios, simbolicamente, para renascer em estágios posteriores. Essas transições de uma vida para outra Nietzsche denominava "ritos de passagem". 18. Quem vê mal sempre vê pouco. Quem escuta mal sempre escuta demais Muitas vezes, só ouvimos o que queremos ouvir, já que o murmúrio das nossas ideias preconcebidas se sobrepõe à realidade, sempre mais simples que a opinião que formamos dela. Nietzsche propõe que devemos buscar o pensamento com clareza; do contrário, estaremos apenas seguindo ecos e ruídos de nossos preconceitos. 19. Quem tem uma razão de viver é capaz de suportar qualquer coisa Assim como a maioria dos filósofos, Nietzsche sempre destacou a importância de se buscar uma razão de viver. Quando nossa vida se torna plena de sentido, nossos esforços já não são cansativos, e sim passos seguros em direção às metas que estabelecemos. 20. O que não nos mata nos fortalece Como dizia Nietzsche: "Se a correnteza não nos mata, acabamos ganhando uma experiência essencial que nos ajudará a salvar a nós mesmos e as demais pessoas em futuras provações." (*) EUGENIO SANTANA é escritor, jornalista, ensaísta, agente literário, gestor editorial e biógrafo. Onze livros publicados. Membro benemérito "ad honorem" do Centro Cultural, Literário e Artístico de PORTUGAL. Contato: autoreugeniosantana9@gmail.com e (41) 9.9667-8484 WhatsApp