sexta-feira, 6 de outubro de 2017

VÔO CEGO PARA RIO MAR . "CENTRO DO MUNDO?"(*)

Estou em Macapá ou Macapá, ousado, se alojou em meu coração alado? Ou será que, fascinado ou sorumbático o meu eu-lírico escreveu uma carta do abismo sob a luz de vagalumes e de misteriosas estrelas? O "centro do mundo": quem mediu para garantir a veracidade? Creio que estou no meio do nada... Provavelmente, a mesma sensação que sentiu Arthur Rimbaud ao abandonar Paris, a "cidade Luz" e foi para a África, e virou "tuaregue", no deserto da Abissínia. Retornou rico para a França, amputou uma das pernas e morreu triste e anônimo nos braços de sua irmã Isabelle. Aventura. Ternura. Angústia face ao novo, ao desconhecido. Desta vez, determinação: o vôo marcado não foi abortado. A última busca do self, do nirvana ou da axis mundi? Hoje me faz lembrar a viagem que empreendi rumo à última estação “Rio do Tempo”. Há cicatrizes invisíveis no rosto desfigurado, na alma e no coração de um incansável psicopompo. Levantar vôo. Cair. Levantar. Resiliente reerguer-se com asas de Fênix? Lembro-me do magnífico cineasta alemão, Wim Wenders e o seu esplêndido filme, “Asas do Desejo”. Aterrissar. Vôo cego ou vôo noturno? Brasília, Anápolis, Goiânia, Rio de Janeiro, Uberaba, Florianópolis ficaram para trás com suas dúvidas, dívidas e dádivas... Recordo silente, do amigo Dinho, do “Capital Inicial”, com sua música “Não olhe pra trás”; e do amigo Vander Lee com “meu jardim”. Duas canções que refletem as circunstâncias trágicas que, involuntariamente, vivenciamos. Escolhas. Caminhos inversos. A mulher amada ou a mulher errada? Indagações intermináveis. E, sozinho, num vôo em busca de tudo ou nada, ainda estou sondando a capital do Amapá na tentativa de conquista-la. Ao contrário, não estou só, Deus com sua incomparável compaixão me agasalha em seu indescritível Coração de infinitas Asas e, o Filho, Príncipe da Paz, me carrega nos braços quando, quedo-me, num cansaço de navegador conduzindo um barco de incertezas ao sabor do vento Norte... Conheci e trabalhei em vários estados brasileiros e, pela primeira vez, percebi que nós, jornalistas, somos uma Classe unida. Recebi a solidariedade, o apoio e a acolhida de dois companheiros de profissão que, doravante, se tornaram inesquecíveis em meu coração. Por questão de ética, não posso citar os nomes, mas, já estamos atuando juntos em alguns projetos, incluindo publicar e destacar em livro as dez figuras mais atuantes e marcantes na Comunicação do Amapá, a partir dos anos 2000. Aceitei o desafio já que, modéstia às favas, tomei gosto pelas Biografias. A vida, caros amigos, é para os obstinados, utopistas e visionários que não temem em se arriscar. Viver já é um risco permanente. Se brincar, a vida nos engole por conta de sua avidez e, tão efêmera, que me lembra vôo de colibri e a leveza levitando nos passos bailarinos. Desapegado, sigo em frente. Ao vivenciarmos os fracassos, aprendemos a saborear as vitórias que são raras, mas, imprescindíveis para o crescimento pessoal. Na orla navios inacessíveis, mas, bem visualizados pela relativa distância dos nossos olhos famintos. Depois do Amazonas, o Oceano Atlântico: quem sabe, um dia, chegarei a Paris? Um homem, com roupa social, mochila no ombro, aguarda por algo que vale a pena viver? Façam suas apostas e orações... (*) EUGENIO SANTANA é escritor, jornalista, ensaísta, blogueiro, revisor de textos, relações públicas, redator publicitário. Autor de nove livros publicados. Membro efetivo da Academia de Letras do Noroeste de Minas (ALNM), cadeira dois.