sábado, 12 de agosto de 2017

INFINITAS ASAS DE SAUDADES, PAPAI (*)

Incontáveis sonhos feneceram. Resta-nos a famigerada esperança. Esperar. Dias melhores virão? Por que tanta crença somente no futuro e nenhum aprendizado ou vivência de felicidade no agora? Dizem que a única certeza são as chegadas e partidas. Quase vinte anos se passaram – exatamente em 21 de outubro de 1997. O primeiro dia mais triste de minha vida e, posteriormente, 02/5/2011, o segundo dia mais triste, a despedida e o adeus à minha mãe; as piores perdas e a impactante sensação de impotência. Embora uma revelação ficasse nítida, para sempre, em meu cérebro e no meu coração: Deus existe. Tive, sim, a honra e o privilégio de ter ficado mais próximo de você, antes da sua partida definitiva para o Plano Infinito. Doeu papai, interná-lo inúmeras vezes, e quando recebia alta médica, ajudava a carregá-lo para o banheiro, porque já não conseguia andar sozinho... Por ironia do destino um homem de quase 1m90cm de altura e muito forte física e moralmente. Dois dias antes da sua morte, em 19/10, eu estava recebendo a nomeação de membro efetivo da Academia de Letras lá em nossa terra-natal, após o término da solenidade recebi o telefonema fatídico de que você já estava na UTI, em estado gravíssimo. Foi à pior viagem de minha vida: voltei no meu carro desorientado, desnorteado e acelerando muito. Chorei, copiosamente, durante a viagem, ao longo dos 412 km que separam Paracatu de Anápolis. O ícone e referencial de homem honrado, trabalhador e íntegro? Será sempre você, papai. E, hoje, neste mundo de invertidos valores, está em falta homens como o senhor. Se não segui seus exemplos e conselhos, pai, a escolha foi minha, mas, a melhor educação soube me proporcionar e sua ausência física dói; a dor é lancinante, porque sempre fui muito sozinho e introspectivo desde menino e o senhor, como ninguém, sabia disso... E eis-me aqui outra vez pai, sozinho em Anápolis, após o retorno do Rio de Janeiro, no início deste 2011, mas sei que sua presença luminosa e anímica me acompanha e me nutre de confiança e proteção, porque foi justamente no dia do seu funeral que o meu ceticismo acabou e o agnosticismo também. Senti Deus falando comigo sobre a sua partida e sei, amado pai, que de um modo geral os bons vão primeiro, inclusive Cristo Jesus, John Lennon. Há uma lista interminável de homens bons; incluindo mestres de amor e sabedoria... Tantos foram os conselhos úteis e verdadeiros e as sugestões oportunas papai. Ainda me lembro quando disseste: “Filho, seu lugar é em Brasília”. Ainda bem que tive a chance de lhe pedir perdão, pelo meu ato falho de mudar para o interior de São Paulo, embora houvesse um motivo forte: minha filhinha Nuria Liz... O melhor de tudo em minha vida, papai, foi acompanhá-lo entre os meus 4 e 9 anos na imensa Fazenda do avô materno José Ulhôa Sant’Anna. Ensinou-me a lidar com o gado, a pescar e caçar, a andar a cavalo e ajudá-lo a cuidar das lavouras de arroz e feijão; e colaborando, igualmente, nas hortaliças que anualmente minha mãe preparava, com uma habitualidade britânica. Segui-lo no carro-de-boi, e aquele ritual quando me chamava para ir até ao paiol selecionar as palhas bem lisinhas para enrolar os seus cigarros de fumo sertanejo, natural – plantado e colhido na própria fazenda de vovô; andar na garupa do seu cavalo rumo à fazenda Quilombo – reduto de seus ancestrais, pertencente ao município de Unaí. A jornada de subir a serra e depois cruzar o Rio Aldeia são aventuras ao seu lado, papai, inesquecíveis e estão viajando – sempre – na asa da memória. 13 de agosto de 2017. O 19º dia dos pais sem contar com a sua presença física, grande e fabuloso Fabião da Silva Couto, o tão querido “Niquinho”... Hoje, acordei cedo e orei e pedi sua benção, no silêncio dessa casa enorme. Conter as lágrimas? Missão impossível! Agora, papai, vivencio a amarga aceitação de sua ausência e, mais recentemente, da minha mãe, sua alma-gêmea. Espero que ela já tenha feito a passagem e esteja feliz ao seu lado, nesta – digamos – Dimensão Cósmica, Plano Espiritual e Infinito. Agradeço mil vezes, papai, a Deus por ter vindo a este mundo por meio de você – e como somos parecidos meu papai querido! Mas, a saga da árvore genealógica continua: em 8/7/2010 nasceu seu neto mineiro-carioca Arthur Emmanuel Lacerda Santana. Hoje o senhor estaria exatamente com 87 anos e poderia carregá-lo no colo e ver quanta semelhança... Posteriormente, em 20/11/2014, eis que vem ao Planeta-blue Enzo Gabriel Moraes Santana, seu neto mineirinho de Uberaba. Ínfimo é meu gesto que tenta explicar a Saudade que sinto em conseqüência de sua ausência e da nobre e admirável mãe Adília. Deus sabe a dimensão do que sinto e do vazio impreenchível que deixaram. Perdoe-me, papai, por tudo que não pude fazer por você, em sua trajetória de vida, 67 anos, que passou aqui na Terra, sem conhecer o mar... Nossos laços são eternos e o meu amor por você, Infinito! Que o nosso reencontro seja um reencanto. Afinal, estou órfão de mimesmo... (*) Eugenio Santana - é escritor, jornalista, ensaísta, redator publicitário, revisor de textos, relações públicas , professor de português e literatura. O mineiro-menino de Paracatu, filho de Fabião S. Couto (em memória) e Adília Santana (em memória) – ambos fazendeiros em Minas Gerais e Goiás – os melhores seres humanos que conheci até hoje e pra todo o sempre. Maktub!