terça-feira, 29 de agosto de 2017

ALGEMAS: A REPORTAGEM INVESTIGATIVA QUE FIZ (*)

Pátio. Há Dor: igual de parto, embora nunca senti. Escárnio. Crueldade. Sarcasmo. Mentiras. Pacto de profundo silêncio. Olhares inexpressivos fixos no NADA. Lembrei-me de SARTRE: “O inferno são os outros”. Não dê poder aos homens, enfatizo. Mulheres esperançosas. Indumentária branca. E não são umbandistas. Cabelos presos; maridos presos. Em algum lugar deste Brasil sem credibilidade. Presídio: e não é um presidente ou “presidenta”, que preside. Em país sério, os dois últimos presidentes que permaneceram no poder durante mais de vinte anos, estariam em um presídio ou teria devolvido cada trilhão que roubaram ou desviaram da população brasileira. Brilham algemas que ferem e humilham. Encardido o sorriso da vida caótica lá fora. Lá fora... Sonhos esmaecidos, destruídos. Jogo cruel. Rostos desfigurados. Tantos codinomes para nomes tão reais, aguardando “julgamento” que nunca chega. Sem dentes, por conta dos socos sem qualquer aviso prévio ou mesmo razão plausível que justifique. Afinal, não têm diploma de curso “superior”. Banalizaram o Brasil... Menino? Jovem? Tio? Velho? Por pura ironia, são tratados assim dentro da “gaiola”. Tantas “reformas” que beneficiam os políticos são aprovadas na calada da madrugada. E as mudanças inadiáveis no Código Penal Brasileiro? O pânico visível nas caras dissimuladas pelo medo. Códigos de honra quebrados, duvidosos, questionáveis. A entrada da droga, facilitada. Mistérios indecifráveis. Apenados que morrem nos presídios: sem família, sem escolaridade, sem direitos humanos, esquecidos nas masmorras de um Diógenes esquecido. Mortes anunciadas... Vidas anônimas. Seres humanos no mais completo abandono. E sabemos que homens como o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa e o Juiz Federal, da República de Curitiba, Prof. Dr. Sérgio Fernando MORO não são capazes de tornar esse país digno. Já estou providenciando o meu passaporte. Namastê. Maktub. (*) EUGENIO SANTANA é membro efetivo da Academia de Letras do Noroeste de Minas (ALNM), cadeira dois; escritor, jornalista investigativo e cultural, ensaísta, biógrafo, relações públicas, ex-superintendente de Imprensa do Governo do Rio de Janeiro, colaborador da ADESG-DF: Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra; autor de nove livros publicados)

ROSAS RÚBIDAS PARA BÁRBARA - A MULHER (*)

“... Onde está ela? Onde está aquela que viverá comigo todas as aventuras do corpo e do coração? E também da alma. Aquela que comigo construirá a alta torre da vida partilhada? Há entre vós quem não atravesse mares, desertos, montanhas e vales para encontrar-se com a mulher que sua alma escolheu”? Cogito na possibilidade de todas as mulheres do mundo amalgamadas numa só expressão feminina. Pelo menos há três décadas iniciou-se de vez a impressão gráfica em cores nas revistas brasileiras. Descobri ao acaso este sugestivo título, acima epigrafado, numa publicação muito lida dos velhos tempos. Desde então, volta e meia, essa frase platonicamente romântica adeja minha cabeça, instigando uma lacônica crônica. Vasta experiência concernente a tão decantada alma feminina – expressão de Lilith-Eva, sabe lá... Não sei porquê nesse momento aflora-me a “Crônica do Amor Louco”; efêmeros passeios sobre as memórias de Casanova me alegram a alma e numa perplexidade de Adônis de Paracatu, um Alain Delon revigorado, e com o olho de Hórus, me lembro de um comentário pleno de conteúdo de uma amiga que se referiu a mim dizendo: “você me lembra o personagem Dom Juan – interessante filme estrelado por Johnny Deep e Marlon Brando”. E o meu Diretor de RH, em uma Empresa em que atuei como seu Assistente, em Brasília, extrapolou: “Você, Eugenio, me faz lembrar aquela música do Martinho da Vila: “já tive mulheres...”. Inefáveis lembranças... Cada experiência traz em si o sabor singular do verdadeiro conhecimento. E conhecer é saborear. Insofismável iniciação: compartilhei romances via corpo, alma e coração com um número razoável de mulheres especiais que cruzaram os meus caminhos. Delas recebi lições inesquecíveis de vida, luz e amor e o aperfeiçoamento da libido, o despertar da kundalini fez a serpente emplumada levitar e, de quebra, algumas performances básicas do Kama-Sutra foram incorporadas. E quanto mais as conheço e vivencio, mais as considero um planeta inexplorado de seres mutantes. Muito embora, um famigerado poeta disse antes: “as mulheres foram feitas para serem amadas e não para serem compreendidas”. Sinceramente, faz sentido. Aqueles ou aquelas que insistirem em ir mais fundo no tema, sugiro a leitura do ensaio para as mulheres, escrito por mim, em 9/9/1999. História completa com riqueza de detalhes e comprovados dados científicos consta do insólito romance autobiográfico “Os Pessegueiros Florescem no Outono”, de nossa autoria, a ser publicado brevemente. Aguardem-me, adoráveis leitores... Reflito: qual dessas protagonistas de minha vida, mais se aproximou de constituir-se em minha alma-irmã? Humano, demasiadamente humano, tenho minhas dúvidas cruciais, inseguranças e incertezas, quero ter à disposição um leitmotiv e uma nova utopia, porque carrego comigo, na bagagem do coração, idêntica filosofia de um amigo dos velhos tempos, que sempre me repetia esse surrado lugar-comum: “sou movido a estímulo”. Certeza, uma única: O Amor é o Caminho. E o seu poder, absoluto. O amor é a Perfeição. Não precisamos de milenares gurus para absorver essa conclusão definitiva. O Mestre da Luz e Sol do Verbo: Jesus – O Cristo Cósmico nos legou esse fundamental e maravilhoso ensinamento. Em “A Ponte para o Sempre”, meu querido autor e confrade Richard Bach, encontrou seu par ideal. A busca obstinada teve um final feliz: o encontro com sua alma-irmã Leslie Parrish. Apesar das críticas irrelevantes, estou seguindo suas pegadas, meu caro Richard. Só posso dizer que só me arrependo daquilo que não fiz. A vida é muito breve para atos mesquinhos, hipocrisia, mediocridade e falso moralismo. Nas asas da memória arquivei o recado especial do Holandês Voador: “aqueles que mais procuram o AMOR já estão plenos dele”. Não procuro uma mulher “bárbara”, mas Bárbara – a mulher. Sei que toda luta é vã mal começa a manhã. E a guerra só está perdida quando rompemos o último fio de prata do invólucro material ou corpo físico. Enquanto a vida ávida e a fome de viver estiverem impulsionando o coração partido, estarei na estrada – como diria Bob Dylan - à sua procura flor-estrela, Asa guardiã; Vênus-Afrodite. Leal e única companheira da última jornada. Gostaria, sinceramente, de apostar, hoje, todas as minhas fichas em um novo amor platônico. Rosas-rúbidas para "Bárbara"... Impressões da infância e do início da adolescência de um mineiro-menino. Sinais vitais de êxtase nos complexos caminhos de Eros. Não sei ao certo, em que ano o episódio aconteceu. Só posso afirmar que ao folhear aleatoriamente aquela romântica revista de fotonovelas, deparei com uma estória que marcou a minha vida: uma jornada do ser à procura do par ideal. Hoje quero despertar e acreditar que é possível encontrar “Bárbara” – a mulher. E viver plenamente (asa de um sonho?) os altos e baixos de um grande, único, verdadeiro e definitivo amor. Quem é essa "Vênus-Afrodite", singular mulher, disposta a receber o meu buquê de rosas-vermelhas e ser feliz até que outra vida nos espere?... Finalizo com as belas palavras de Rilke: “Ainda não sabias? Lança o vazio aprisionado nos braços para os espaços que respiramos! Talvez os pássaros sintam, num vôo de maior intimidade, o ar mais amplo. As primaveras se valem de ti. Muitas estrelas te dão a coragem para percebê-las. Ao passares por uma janela aberta, um violino se entregou a ti. Será que respondeste? Não estavas sempre distraído à espera, como se tudo anunciasse uma amada?” (*) EUGENIO SANTANA é jornalista, ensaísta e escritor. Redator-chefe da Revista Cenário Goiano, Revisor de textos do jornal Diário da Manhã, Editor-geral do Blog Guardião da Palavra e Superintendente de Imprensa no Rio de Janeiro

domingo, 20 de agosto de 2017

MÚSICA ERUDITA OU CLÁSSICA: ÊXTASE PARA A ALMA E O CORAÇÃO (*)

A música produz silêncio. Toda palavra é profana. Faz-se silêncio porque a beleza é uma epifania do cósmico. Ouvir música é oração, reflexão, meditação. A música clássica proporciona alegria. Há músicas que nos inspiram prazerosamente. Mas a alegria é muito mais que prazer. O prazer é coisa humana, deliciosa. Mas é criatura do primeiro olho, onde moram as coisas do tempo, efêmeras, que aparecem e logo desaparecem. A alegria, ao contrário, é criatura do segundo olho, das coisas eternas que permanecem. Superior ao êxtase, a alegria tem o poder divino de transmutar a tristeza. Haverá maior explosão de alegria do que a parte final da Nona Sinfonia? E, no entanto, a vida de Beethoven chegava ao fim, marcada pela tristeza suprema de não poder ouvir o que mais amava, a música. Estava totalmente surdo. Mas é precisamente dessa tristeza que nasce a beleza. A vida é triste. E nisso está a honestidade da música clássica: ela não mente. Se soubéssemos disso, se sentíssemos a tristeza da vida, seríamos mais serenos, mais sábios, mais bonitos. Há músicas que contêm memórias de momentos vividos. Trazem-nos sentimentos... Lembrar-se do passado é triste-alegre... Alegre porque houve beleza de que nos lembramos. Triste porque a beleza é apenas lembrança... Não mais existe. Mas há músicas que nos fazem retornar a um passado que nunca aconteceu. É uma saudade indefinível, sentimento puro, sem conteúdo. Não nos lembramos de nada. Apenas sentimos. Sentimos a presença de uma ausência. Há músicas que nos levam para o tempo antes de nós mesmos e para lugares onde nunca estivemos. Talvez o que Ângelus Silésius disse para os olhos possa ser dito também para os ouvidos. Parafraseando-o: Temos dois ouvidos. Com um, ouvimos as coisas que no tempo existem e desaparecem. Com o outro, ouvimos as coisas divinas, eternas, que para sempre permanecem. A música tem virtudes médicas. Cura. Nesse tempo em que todo mundo sofre de estresse, aconselha-se música do estilo new age para acalmar. Há música para os mais variados tipos de doença: Mozart, Beethoven, Schumann, Chopin, Bach, Vivaldi, Brahms, Ravel, Debussy. Os médicos deveriam receitar aos seus pacientes, com os remédios bioquímicos, a música... Bom seria se a música clássica se ouvisse nos consultórios médicos, nas escolas, nas indústrias, nos escritórios, nas rádios. Há cidades que têm essa felicidade: rádios FM que tocam música clássica o dia inteiro. O Rio de Janeiro e Brasília exercitam essa cultura musical. A música clássica desperta, nas pessoas, aquilo que elas têm de melhor e de mais bonito. Música clássica contribui para a cidadania. (*) EUGENIO SANTANA é escritor, jornalista, assessor de comunicação, publicitário, ensaísta, relações públicas, revisor de textos e copidesque. Membro efetivo da Academia de Letras do Noroeste de Minas, ocupante da cadeira número dois.

sábado, 19 de agosto de 2017

UM NOVO AMOR, CÉU AZUL SEM NUVENS... (*)

- Por que brigam – pergunto. - Porque se amam. É a resposta óbvia, simples e lacônica. Não entendi. Se eles se amam, não deveriam brigar, e se brigam, talvez não se amem. Admito que nem sempre a lógica ajuda a resolver as contradições humanas, principalmente quando o amor intervém. Tento decifrar o paradoxo. Exercitam um modelo singular de relação, tempos de paz se alternam com guerras, ciúmes, respostas inadequadas, falta de carinho, de respeito ou de cuidado. Dá a impressão de que nos bons momentos, por uma brecha invisível, são derramadas poucas gotas de gasolina que, de maneira imperceptível, se acumulam até que, por puro acaso, uma centelha inicia a combustão e tudo explode. Começa o confronto. Separam, sem dúvida a melhor solução para enfrentar a violência, ambos convencidos do caráter definitivo da ruptura. Novo cenário, outras mulheres e homens, alívio... Até que, num entardecer de domingo, lembram das horas felizes, sentem que os novos relacionamentos são superficiais e incompletos. A lembrança se transforma em obsessão e ciúme, principalmente quando imaginam o outro feliz e com nova companhia. As saudades aumentam. Finalmente um telefonema, um encontro para conversar, uma tarde de amor, e tudo recomeça. Agora mais real e intenso, um amor novo, céu azul sem nuvens. Só algumas poucas gotas de gasolina sobre o chão que, insignificantes, não representam perigo. Porém, se acumulam com o tempo, ganham massa crítica, até que dias mais tarde... nova faísca. Inventaram um estilo cíclico de amor, sem gasolina falta energia, com gasolina a explosão é inevitável. Por quê? Pergunto, novamente. Porque amor e ódio são intensos e simultâneos, estão tão próximos que só podem circular um de cada vez, alternados em rigorosa fila. Onde houve amor, doação, carinho, haverá hostilidade que, no bate-boca, transveste-se de ódio. O amor os une, o ódio os separa, ambos os sentimentos desfilam pelo estreito corredor de vida e morte da esperança. Tempos de amor e tempos de ódio, cada um na sua vez resolvem a contradição. Nem tudo está perdido, o sistema tem suas vantagens: a cada reencontro, a relação se renova, sempre é novidade, sem tédio, nunca envelhece. A desvantagem é que a cada briga o relacionamento perde prestígio, e em ambos surge o desejo de amar de uma forma mais calma e convencional. Precisam saber que ficaram viciados em atacar o relacionamento para depois salvá-lo, por isso são sobreviventes de uma guerra que tenta superar dúvidas e desconfianças básicas. A grande verdade é que não confiam um no outro e, por isso, colocam à prova constantemente. Poderiam, em nome do amor, reparar danos e esquecer ofensas? Sim. Com a única condição de resolver a equação amor-ódio: estender as fases do amor até que, na hora certa, as gotas de ódio evaporem e desapareçam. “Se a tua vida se estender Mais do que a minha Lembra-te, meu ódio-amor, Das cores que vivíamos Quando o tempo do amor nos envolvia. Do ouro. Do vermelho das carícias. Das tintas de um ciúme antigo Derramado Sobre o meu corpo suspeito de conquistas. Do castanho de luz do teu olhar Sobre o dorso das aves. Daquelas árvores: Estrias de um verde-cinza que tocávamos. E folhas da cor de tempestades Contornando o espaço De dor e afastamento. Tempo turquesa e prata Meu ódio-amor, senhora da minha vida. Lembra-te de nós. Em azul. Na luz da caridade.” (Eugenio Santana é escritor, jornalista, publicitário, poeta, ensaísta literário, copydesk e Editor. Autor de nove livros publicados, alguns de autoajuda; recém-contratado da MADRAS Editora, de São Paulo, Capital)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

A ROTA DO VÔO PARA O PLANO INFINITO (*)

Há qualquer coisa de infinito em cada um de nós. Não nos bastamos. Não nos saciamos. Queremos ir além das pegadas de nossos passos, tocar mais distante que a extensão de nossas mãos, ver o invisível, ouvir as insinuações do inefável, sentir as pulsações da terra e o sabor do fogo e do gelo em nossas entranhas. A vida, dentro da história, é curta demais para conter a infinita ânsia de amar. Somos sempre para além de nós mesmos. Nossos olhos registram as faces queridas, a casa paterna, o bolo da infância, a praça da matriz, os colegas de rua e dos primeiros anos escolares, o sorriso inconfundível, a música marcante, certas palavras esculpidas em nosso afeto. Às vezes, por um momento, nos julgamos saciados pelo poder, pelo dinheiro ou pela fama. À luz do sol a maré baixa e o vazio se manifesta. Só o alimento pode saciar nossa fome. Só a água pode matar nossa sede. Só os outros podem nutrir nossa penúria. Sozinhos, somos a derrota orgulhosa, a vitória mentirosa. Há esse ímpeto de ir além, ultrapassar fronteiras, conquistar o inacessível. A transcendência. Assim como o vôo se faz de movimento, vento, espaço, o amor e a liberdade se tecem de mediações concretas: as condições sociais de nossa existência. Ao contrário das aves, caminhamos sobre a terra e as nossas pegadas são gravadas a cada passo. Voamos sem conhecer o rumo e sem saber o destino. A rota do céu passa pelo caminho da Terra. Os pássaros são abatidos em pleno vôo e continuamos a falar em velocidade. Nossas palavras são como essas bandeiras coloridas estendidas sobre caixões no dia do funeral. Na transparência dos outros encontramos a transcendência de Deus. O que sobrará? Um livro, talvez, escrito nas noites insones, palavras e mais palavras, pensamentos e pensamentos, reflexões e mais reflexões, nele permanecendo um pouco – ou muito? – de nossos anseios, de nossos sonhos e utopias, de nossas dúvidas, de nossas esperanças e fé? Talvez fragmentos de nossas vidas ávidas transformando seres reais em personagens ou universos oníricos em realidades palpáveis? E quando o tempo se for, as páginas, já amareladas e carcomidas, trarão as marcas indeléveis do pensamento de quem o escreveu, tornando-o recordação duradoura. O que ficará? Os filhos, cada um trazendo a lembrança de um grande amor vivido, traços e gestos que não permitem esquecer a pessoa amada, e os filhos de nossos filhos na continuidade da árvore genealógica, de gerações que farão lembrar sempre uma trajetória plena de mutações, mas imutável em seu correr célere e constante? O que sobrará? Nossas boas ações que colocarão nos lábios dos que nos querem bem palavras de reconhecimento e ternura, eternizando nossa imagem? Ou o mal que fizemos um dia, transformando corações magoados em sótão de tristezas, porque deixou cicatrizes de dor no outro? O que ficará? Talvez os sonhos não concretizados, esperando que outros os realizem, mas recordando as motivadoras palavras de Rubem Alves: “A vida é uma sonata que, para realizar sua beleza, tem que ser tocada até o fim. A vida é um álbum de minissonatas. Cada momento vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e de amor justifica a vida inteira”. Temos convicção de que, cumprida a sonata de cada um de nós, ínfima que seja, com seus instantes de beleza e de amor incondicional, outras sonatas continuarão nossos acordes, promovendo o ciclo da existência que não se acaba jamais. Indecifrável mistério da morte. D/amor/te.
(*) por EUGENIO SANTANA, membro efetivo da Academia de Letras do Noroeste de Minas, escritor, jornalista, assessor de comunicação, relações públicas e ensaísta. Sócio da UBE-GO/SC – União Brasileira de Escritores e autor de nove livros publicados. Contratado por cinco anos pela MADRAS Editora, de São Paulo, Capital.

sábado, 12 de agosto de 2017

INFINITAS ASAS DE SAUDADES, PAPAI (*)

Incontáveis sonhos feneceram. Resta-nos a famigerada esperança. Esperar. Dias melhores virão? Por que tanta crença somente no futuro e nenhum aprendizado ou vivência de felicidade no agora? Dizem que a única certeza são as chegadas e partidas. Quase vinte anos se passaram – exatamente em 21 de outubro de 1997. O primeiro dia mais triste de minha vida e, posteriormente, 02/5/2011, o segundo dia mais triste, a despedida e o adeus à minha mãe; as piores perdas e a impactante sensação de impotência. Embora uma revelação ficasse nítida, para sempre, em meu cérebro e no meu coração: Deus existe. Tive, sim, a honra e o privilégio de ter ficado mais próximo de você, antes da sua partida definitiva para o Plano Infinito. Doeu papai, interná-lo inúmeras vezes, e quando recebia alta médica, ajudava a carregá-lo para o banheiro, porque já não conseguia andar sozinho... Por ironia do destino um homem de quase 1m90cm de altura e muito forte física e moralmente. Dois dias antes da sua morte, em 19/10, eu estava recebendo a nomeação de membro efetivo da Academia de Letras lá em nossa terra-natal, após o término da solenidade recebi o telefonema fatídico de que você já estava na UTI, em estado gravíssimo. Foi à pior viagem de minha vida: voltei no meu carro desorientado, desnorteado e acelerando muito. Chorei, copiosamente, durante a viagem, ao longo dos 412 km que separam Paracatu de Anápolis. O ícone e referencial de homem honrado, trabalhador e íntegro? Será sempre você, papai. E, hoje, neste mundo de invertidos valores, está em falta homens como o senhor. Se não segui seus exemplos e conselhos, pai, a escolha foi minha, mas, a melhor educação soube me proporcionar e sua ausência física dói; a dor é lancinante, porque sempre fui muito sozinho e introspectivo desde menino e o senhor, como ninguém, sabia disso... E eis-me aqui outra vez pai, sozinho em Anápolis, após o retorno do Rio de Janeiro, no início deste 2011, mas sei que sua presença luminosa e anímica me acompanha e me nutre de confiança e proteção, porque foi justamente no dia do seu funeral que o meu ceticismo acabou e o agnosticismo também. Senti Deus falando comigo sobre a sua partida e sei, amado pai, que de um modo geral os bons vão primeiro, inclusive Cristo Jesus, John Lennon. Há uma lista interminável de homens bons; incluindo mestres de amor e sabedoria... Tantos foram os conselhos úteis e verdadeiros e as sugestões oportunas papai. Ainda me lembro quando disseste: “Filho, seu lugar é em Brasília”. Ainda bem que tive a chance de lhe pedir perdão, pelo meu ato falho de mudar para o interior de São Paulo, embora houvesse um motivo forte: minha filhinha Nuria Liz... O melhor de tudo em minha vida, papai, foi acompanhá-lo entre os meus 4 e 9 anos na imensa Fazenda do avô materno José Ulhôa Sant’Anna. Ensinou-me a lidar com o gado, a pescar e caçar, a andar a cavalo e ajudá-lo a cuidar das lavouras de arroz e feijão; e colaborando, igualmente, nas hortaliças que anualmente minha mãe preparava, com uma habitualidade britânica. Segui-lo no carro-de-boi, e aquele ritual quando me chamava para ir até ao paiol selecionar as palhas bem lisinhas para enrolar os seus cigarros de fumo sertanejo, natural – plantado e colhido na própria fazenda de vovô; andar na garupa do seu cavalo rumo à fazenda Quilombo – reduto de seus ancestrais, pertencente ao município de Unaí. A jornada de subir a serra e depois cruzar o Rio Aldeia são aventuras ao seu lado, papai, inesquecíveis e estão viajando – sempre – na asa da memória. 13 de agosto de 2017. O 19º dia dos pais sem contar com a sua presença física, grande e fabuloso Fabião da Silva Couto, o tão querido “Niquinho”... Hoje, acordei cedo e orei e pedi sua benção, no silêncio dessa casa enorme. Conter as lágrimas? Missão impossível! Agora, papai, vivencio a amarga aceitação de sua ausência e, mais recentemente, da minha mãe, sua alma-gêmea. Espero que ela já tenha feito a passagem e esteja feliz ao seu lado, nesta – digamos – Dimensão Cósmica, Plano Espiritual e Infinito. Agradeço mil vezes, papai, a Deus por ter vindo a este mundo por meio de você – e como somos parecidos meu papai querido! Mas, a saga da árvore genealógica continua: em 8/7/2010 nasceu seu neto mineiro-carioca Arthur Emmanuel Lacerda Santana. Hoje o senhor estaria exatamente com 87 anos e poderia carregá-lo no colo e ver quanta semelhança... Posteriormente, em 20/11/2014, eis que vem ao Planeta-blue Enzo Gabriel Moraes Santana, seu neto mineirinho de Uberaba. Ínfimo é meu gesto que tenta explicar a Saudade que sinto em conseqüência de sua ausência e da nobre e admirável mãe Adília. Deus sabe a dimensão do que sinto e do vazio impreenchível que deixaram. Perdoe-me, papai, por tudo que não pude fazer por você, em sua trajetória de vida, 67 anos, que passou aqui na Terra, sem conhecer o mar... Nossos laços são eternos e o meu amor por você, Infinito! Que o nosso reencontro seja um reencanto. Afinal, estou órfão de mimesmo... (*) Eugenio Santana - é escritor, jornalista, ensaísta, redator publicitário, revisor de textos, relações públicas , professor de português e literatura. O mineiro-menino de Paracatu, filho de Fabião S. Couto (em memória) e Adília Santana (em memória) – ambos fazendeiros em Minas Gerais e Goiás – os melhores seres humanos que conheci até hoje e pra todo o sempre. Maktub!

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O AVANÇO TECNOLÓGICO DESTRÓI VALORES FAMILIARES (*)

As transformações sociais, o avanço tecnológico, a inversão de valores, acontecem numa velocidade assustadora. Está em andamento uma aceleração histórica que nos faz refletir e rever conceitos. Quando se fala em família, hoje, nem sempre se refere àquele tipo de família que vivenciamos. Não estou lembrando a família patriarcal, dominada pela implacável autoridade paterna. Falo da família comum, onde fomos criados. O ambiente era diferente. Havia um relacionamento de respeito, segurança, permanência. A casa, falo do espaço físico, geográfico, nos dava um sentido de solidez. “A minha casa”, “o meu lar”, o “meu teto seguro”. Lá onde eu encontrava paz, afeto, harmonia, diálogo, compreensão, amor incondicional. Havia falhas. Havia muitas coisas limitadas, mas as consequências eram menos dolorosas. Eu tinha meu pai. Eu tinha minha mãe. Meus irmãos eram filhos do mesmo pai, da mesma mãe. Ninguém nascia in vitro. Nem se falava em embriões. Os filhos não eram escolhidos nos artifícios que proliferam via Internet. Quando se falava em família, pensava-se naquele triângulo básico: pai, mãe, filhos. O termo família, hoje, tomou um sentido muito amplo, distorcido, pejorativo. Existe muita família assim constituída: pai, pai, filho (adotivo). Ou então: mãe, mãe, filho (adotivo). De família só se tem as arestas, o conceito, o contexto e o conteúdo são outros. Há uma escola sociológica que, explicando a origem da família, afirma que, no princípio, os homens e mulheres andavam em bandos. Todos eram de uma e um era de todas. Às vezes chego a cogitar que, mais umas três décadas, as coisas não serão muito diferentes. Tudo o que estou dizendo não significa que estou lutando para uma volta à família ancestral. Sei que os conceitos mudam. Sei que os valores se alternam de acordo com a especificidade de cada geração. É imprescindível impor alguns limites. Ser moderno e estar atualizado não significa ignorar os valores do passado. Existe algo que se chama bom-senso que não pode e não deve ser esquecido. (*) EUGENIO SANTANA é jornalista, escritor, ensaísta, publicitário e editor. Autor de nove livros publicados. Articulista e colaborador do jornal Diário da Manhã. Ex-Superintendente de Imprensa no Governo do Rio de Janeiro. E-mail: autoreugeniosantana9@gmail.com e WhatsApp: (62) 98107-2799