quarta-feira, 29 de junho de 2016

HÁBITOS E VÍCIOS NOCIVOS SÃO INVENÇÕES DO MALIGNO

Podemos dizer também com toda certeza que os hábitos podem ser modificados ou abolidos pelo mesmo processo que os traz à existência; e assim sendo, podemos facilmente, embora de modo lento, alcançar um verdadeiro domínio dos hábitos. A maioria dos hábitos tem sua origem em práticas conscientes, voluntárias e determinadas. Há também alguns hábitos que são adquiridos, quer dizer, adquiridos através de hereditariedade ou de ação ou pensamento inconsciente de nossa parte. Ao analisarmos qualquer hábito ou considerá-lo como passível de mudança ou eliminação, o primeiro passo é vê-lo como uma entidade, uma coisa separada de nossa vida cotidiana. Se for o hábito de tomar bebidas intoxicantes, podemos ver claramente que esse hábito, em si mesmo e por si mesmo, não encontra qualquer lugar real no esquema geral das coisas, e tem apenas um lugar muito pequeno em nossa vida pessoal. Quanto mais intenso, mais escravizador for o hábito, mais ele fica semelhante a um desnecessário e maligno espírito em nossa análise dele. Se pegarmos o hábito de fumar e o transformarmos numa personalidade, ele nos dirá: “Você não pode me remover; não pode me vencer; dificilmente poderá reduzir meu poder, porque estou muito bem instalado neste pequeno reino!” E muitos são desencorajados por essas palavras, em sua tentativa de vencer o hábito. E há o hábito da procrastinação. Esse também pode ser personificado como uma deusa, com um corpo comprido e pesado como uma grande serpente marinha, volumosa demais para se mover rapidamente, tendo por natureza a indolência e a ociosidade, geralmente causadora de várias enfermidades, uma espoliadora de toda pureza de ação e pensamento, voltando as costas ao movimento de todos os corpos progressistas à sua volta, preferindo ficar para trás ou deitar-se e dormir enquanto o mundo vai em frente. Quando olhamos para a procrastinação e descobrimos que as horas, os dias e os meses vão passando e ela nada produz, nada realiza, está sempre atravessando o caminho de todo e qualquer movimento à frente, e em desarmonia com a natureza em todos os sentidos, perguntamo-nos como pode uma tal criatura ter realmente algum lugar no esquema das ações do mundo. O único movimento que notamos nela é a colocação de seu enorme, pesado e indolente corpo no caminho de um outro corpo louco para ir adiante. Temos vontade de lançá-la para bem longe das nossas vistas como a um incômodo, um obstáculo. E aí, quando a vemos como uma parte de nossa própria existência, ficamos horrorizados com o poder que ela tem para nos fazer ficar para trás e arruinar nossos projetos de vida. Mas, do mesmo modo, a procrastinação tem no direito à nossa tolerância a lei que gera sua existência em nossa vida. Por grande, pesada e enorme que possa ser essa deusa, ela pode ser completamente eliminada e afastada pelo exercício do mesmo poder mental que a criou. Consideremos outra vez o deus do hábito de fumar. Conforme o domínio que tenha sobre nós, nossa indulgência, podemos ter um deus de tamanho e poder pequeno ou grande. Vamos pensar em um do tamanho grande: todo feito de folhas de tabaco, cheio de nicotina, de químicos conservantes, aromatizantes. Pequenos insetos vivem escondidos em cada ranhura do corpo desse deus. Cinzas, nuvens de fumaça e calor saem de todas as partes de seu corpo. Quando vemos esse hábito personificado, com seu poder, sua tentação e sua possibilidade de causar danos, dificilmente podemos dizer que ele tenha um lugar real no esquema das coisas na natureza. No mínimo, não podemos dizer que esse hábito tenha um lugar realmente construtivo. E se o virmos como algo que pusemos voluntariamente no esquema de nossa vida pessoal, encontraremos bem pouca desculpa para sua existência. Podemos ver esse hábito como um deus que o tempo todo nos dá um pequeno prazer ou nos acalma os nervos; mas quando ao mesmo tempo notamos a inconveniência e o dano que advêm dele, temos de concordar que ele não é tão bom em seu aspecto divino quanto é mau em seu aspecto diabólico. E tenham em mente que, tal como os pagãos, nós criamos esse deus, grande ou pequeno, dotamo-lo de todo o poder e sedução que ele possui, tornamo-nos cegos às suas partes desagradáveis e malignas, e depois o aceitamos dentro do nosso próprio corpo como um dos governantes da nossa vida. O deus da blasfêmia, das palavras vulgares, como todos esses outros deuses, existe em nossa consciência, em nossa vida pessoal, devido à nossa própria tolerância. (EUGENIO SANTANA é escritor, jornalista, ensaísta. Diretor de Redação da revista Cenário; foi Superintendente de Imprensa no Governo do Rio de Janeiro)