quarta-feira, 15 de julho de 2015

O AMOR NÃO SOBREVIVE APÓS A PESSOA AMADA ABRIR O SÓTÃO DOS HORRORES (*)

O castelo de cem quartos é metáfora do corpo humano. Noventa e nove quartos abertos à visitação do público. Ali, com os visitantes estranhos, tudo são sorrisos e conversa amigável. Mas o último quarto é o sótão que odiamos; ali mora nossa parte monstruosa. Gostaríamos de nunca visitá-lo. Gostaríamos de perder a sua chave. Na verdade o dono da casa não possui a chave. Nós não podemos, mesmo querendo, abrir o nosso sótão de horrores. Não queremos ver o que está lá dentro: nós mesmos – o retrato de Dorian Gray – nossa face desfigurada, horrenda, monstruosa e sinistra. Você já teve um ataque de ódio e fúria? Já se viu assim no espelho? Não podemos abrir o nosso quarto dos horrores, é a pessoa amada, a mais íntima, que possui a chave. E nem é preciso que ela lhe seja dada. E nem é preciso que seja roubada. A chave aparece, milagrosamente, na sua mão. Os desafetos podem atacar a casa. A batalha com eles me torna mais bonito e irresistível. Quanto mais luto, mais feliz eu fico com a minha imagem. O que me torna a pessoa mais íntima tem o poder de soltar. A chave não pode ser limpa: a imagem, depois de vista, não pode ser esquecida ou ignorada. Algumas estórias acabam com a morte. Não a morte física, seja da esposa, seja do marido. O trágico da estória é a morte do amor: o amor não sobrevive depois que a pessoa amada abre o sótão dos horrores. (*) EUGENIO SANTANA é jornalista, escritor, ensaísta, publicitário e editor. Autor de seis livros publicados. Articulista e colaborador do jornal Diário da Manhã. Ex-Superintendente de Imprensa no Governo do Rio de Janeiro.