quarta-feira, 25 de março de 2015

O AMOR QUE SÓ ACORDA SOB A LUZ DA LUA (*)

Os pores do sol nos comovem porque somos seres diurnos. Pôr do sol é fim do dia. Metáfora do fim da vida. Daí sua tristeza. Mas, e se fôssemos seres noturnos, aves para as quais o pôr do sol não é o fim mas o início – início da noite? Então, o Sol poente anunciaria a madrugada da noite, o nascer do viver. Põe-se o Sol; nasce a Lua. Com a Lua nascente, para os seres noturnos, começa o tempo da vida, o tempo do amor. O cri-cri dos grilos, o coaxar dos sapos, o pio das corujas, o piscar dos vaga-lumes, o voo frenético das mariposas – tudo são pulsações de uma vida que desperta quando a noite cai e a Lua nasce. Então, para os seres noturnos, um pôr da lua deve ter a mesma beleza triste que tem um pôr do sol para os seres diurnos. Entre nós, humanos, não haverá seres noturnos? Ou, indo um pouco mais fundo: não haverá em todos nós um ser noturno que aparece quando o ser diurno vai dormir? O Sol desperta em nós o ser que pensa, age e trabalha. A Lua desperta em nós o ser que sonha, contempla e ama. A luz da Lua desperta em nós o ser tranquilo. Quer ficar tranquilo? Contemple a Lua que faz mansamente o seu trabalho de luz. Os amantes, contemplando a Lua refletida sobre o mar, estão vivendo a mansidão lisa que é necessária para o amor. Há recantos da alma que só acordam sob a luz branca e fria da Lua. Ouça os “Noturnos” de Chopin – sua nostálgica beleza: como o seu nome está dizendo, foi no silêncio da noite que Chopin os ouviu. E o Clair de lune, de Debussy? Debussy tinha de estar contemplando a Lua, quando a melodia lhe veio. É verdade que, lá pelo meio, há vestígios de agitação, os rápidos arpejos da mão esquerda, talvez nuvens negras que encobriram momentaneamente a Lua. Mas elas logo se foram, levadas pelo vento, e a agitação se dissolve na tranquilidade dos acordes simples, vagarosos e inquisitivos. A psicanálise é um ser noturno. Ela só acorda quando o Sol se põe e a noite desce. Ela só vê bem na escuridão. A luz do Sol a ofusca. Por isso, durante o dia, ela fica em silêncio, deixando que outros falem. Descendo a noite, entretanto, os homens se põem a sonhar e a amar. É aí, em meio ao sonhar e ao amar, que a psicanálise acorda e se põe a cantar seu canto manso – coruja Minerva... Na noite escura do inconsciente, brilham luzes suaves: estrelas, vaga-lumes, meteoros, luas, muitas luas... Quando essas luzes brilham, acordam os artistas, os poetas, os místicos, os intérpretes de sonhos... (*) por EUGENIO SANTANA, escritor, autor de livros publicados, jornalista de mídia impressa, ensaísta, relações públicas e self-made man. Membro efetivo da ALNM - Academia de Letras do Noroeste de Minas, sócio da UBE – União Brasileira de Escritores. Aos 11 anos comecei a ler Aristóteles, Spinoza, Platão, Schopenhauer, Freud, Jung, Gibran, Nietzsche, Hermann Hesse, Krishnamurti, Shakespeare e Rousseau. Escrevo e publico objetivando a autorrealização dos meus leitores. Busco a Transcendência por meio da Literatura. Escrever é a minha Missão. Contato: via e-mail autoreugeniosantana9@gmail.com e WhatSApp: (61) 8212-3275 (TIM)