sábado, 14 de março de 2015

NEUROFORIAZUL (*)

A presunção de eternizar o presente é uma das modalidades da cultura neoliberal que transpiramos. Agora, todos os nossos sonhos azuis estão reduzidos a produtos à venda no mercado: um novo televisor, um carro de sofisticado, uma casa na praia. Fadas, duendes e bruxas estão cada vez mais distantes do nosso imaginário, inclusive das crianças, ora mais interessadas no tênis da moda ou na blusa nova. O corpo, sempre jovem, se entrega à incessante malhação, complementada por um variado coquetel de vitaminas miraculosas. Nossos ideais foram trocados por equipamentos de alta tecnologia. Queremos nos cercar de telefone celular, iPad, iPod, Smartphone, laptop, computadores de última geração. Viramos cabides ambulantes de produtos importados, quais índios de caricatura que se cobrem de apetrechos dados pelos brancos. No caso, os brancos são os nossos colonizadores, aqueles que divulgam que privatizar é melhor que socializar e competir é mais saudável que cooperar, não obstante a vertiginosa elevação da miséria mundial. O jovem sabe que seus arquétipos já não se encarnam em figuras que pautaram a formação de seus avós: Jesus, Maria, Gandhi, São Francisco de Assis, Madre Teresa de Calcutá e tantos nobres exemplos de dedicação e integridade. Nem se parecem aos heróis da geração de seus pais: Che Guevara, Ho Chi Minh, Marighela e inúmeros homens e mulheres que deram a vida em busca de um mundo sem injustiças. Já ninguém quer imitar o corpo obeso curvilíneo de Marilyn Monroe, o olhar irreverente de James Dean, o inconformismo radical de Marlon Brando, a beleza esguia e principesca Grace Kelly ou o jeito blasé de Alain Delon. Os ídolos de hoje não precisam ser criativos como os Beatles. Basta que figurem na revista Forbes com o sorriso maquiado de quem traz no bolso bilhões de dólares. Hoje, a quantidade impressiona mais que a qualidade. Tudo é aferido: o número de livros que vende um autor, de carros que possui uma família, de vezes que se viajou a Nova York ou Paris, de audiências que se teve com uma autoridade, de recepções a que se foi convidado. Ansiamos por multiplicar e buscamos somar; tememos dividir e temos horror à subtração. Contava minha avó, quando eu era menino, a história do homem que colecionava borboletas azuis. Caçava-as na floresta, espetava-as com um alfinete e cravava-as num mostruário envidraçado, expostas à visitação. Um dia soube que um menino, do outro da montanha, possuía uma coleção mais completa do que a dele. E todas eram mantidas vivas e livres. Incrédulo e com inveja, o homem foi ao encontro de seu concorrente. Encontrou-o e pediu para ver a coleção. O menino apontou para o céu: “Lá estão, todas juntas, voando”. O homem forçou os olhos para melhor visualizar. Por mais que se esforçasse, só via o fundo anil da vastidão celestial. “Só vejo o azul do céu. Onde estão as borboletas?” O menino respondeu: “O senhor não vê que o céu é azul porque todas voam abraçadas. Se não enxerga, a culpa não é minha, é de seus olhos que já não conseguem vislumbrar o belo”. Há borboletas azuis por todo lado, em nossa família e no local de trabalho, nas ruas e no noticiário da mídia. Talvez não tenhamos olhos para vê-las, mas elas estão lá, convidando-nos ao voo libertário. (*) EUGENIO SANTANA, Jornalista e Escritor. Pertence à Academia Cachoeirense de Letras (ACL), à UBE - União Brasileira de Escritores, ADESG, AMORC e ao Greenpeace. Autor de livros publicados. Gestor e fundador da Hórus/9 Editora, da Revista Panorama Goiano, do jornal Verbo-pássaro, do Blog Guardião da Palavra e da ONG Neuroforiazul. Atualmente, é Analista de Marketing na Editora Saúde Total. E-mail: autoreugeniosantana9@gmail.com - WatsApp: (61) 8212-3275