segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

OS BAJULADORES ACREDITAM QUE SUAS PALAVRAS IDIOTAS SÃO CAPAZES DE PREENCHER O VAZIO DO SOFRIMENTO (*)

A morte ainda não o tocou. Portanto, seus motivos de queixa não têm importância. Mais cedo ou mais tarde seus problemas vão se resolver, de um jeito ou de outro. Há dois tipos de problemas. Primeiro, os problemas reais: uma cólica renal, uma labirintite, uma goteira, uma conta para pagar, uma artrose no joelho, um pneu furado, os pratos do jantar para lavar, um amor que não deu certo, uma pessoa querida que morreu. Esses problemas se resolvem de duas maneiras. Os pratos a gente lava, o pneu a gente troca, a artrose a gente procura um fisioterapeuta. Problemas que devem ser resolvidos sem reclamação e sem muito falatório, pois reclamações e falatórios, além de nada contribuírem para a solução dessas contrariedades, só servem para produzir irritação. Os faladores são especialistas nisso. Outros não têm solução. O amor que não deu certo, a pessoa querida que morreu: só resta chorar. E o importante é expulsar os consoladores e bajuladores, que são erva daninhas daqueles que estão sofrendo. Os consoladores e bajuladores acreditam sempre que suas palavras imbecis são capazes de preencher o vazio do sofrimento. Problemas, sofrimentos, frustrações são partes da vida. Não é possível evitá-los. Mas é possível sofrê-los com sabedoria. Por isso cuide de seu corpo e de sua alma. Freqüentemente as pessoas me perguntam: “Tudo bem?”. Eu respondo: “Nem para Deus, todo-poderoso, as coisas vão bem. As coisas não vão bem, mas eu vou bem”. É como no avião: lá fora está uma terrível tempestade, nuvens negras, não se vê nada, os raios iluminam a escuridão, o avião pula como um cavalo bravo. E eu, já que não posso mesmo fazer coisa alguma, vou tomando o meu uisquinho. O medo é imenso. Mas entre medo sem uísque e medo com uísque, prefiro a segunda alternativa. Na vida é assim: tudo vai mal, mas é preciso que o corpo e a alma sejam um ponto de serenidade. Mas essa harmonia não acontece por acaso. Ela é a resultante de disciplina e senso de organização. Sugiro que o primeiro gesto do seu dia seja um ato de autodefesa. Há uma série de aborrecimentos à sua espera: listas de coisas para fazer, compras, atitudes práticas, crianças a serem conduzidas à escola. Evidente, você não poderá fugir dessas responsabilidades. Mas não permita que sejam elas as primeiras a adentrar em seu corpo. Lide com elas com a lucidez zen. Caso contrário, elas tomarão conta do seu corpo e da sua alma e se transformarão numa legião de “encardidos” a perturbá-lo ao longo do dia. Enquanto você ouve música, leia. Estou me extasiando com a leitura do livro de Eclesiastes, e estou mesmo ousando a uma tradução poética minha: “Neblinas, neblinas, tudo são neblinas”, diz o poeta. O homem por mais que trabalhe, poderá por acaso produzir algo sólido, que não seja neblina? Uma geração passa, outra geração lhe sucede – como a neblina; somente a terra permanece... Esse sentimento de que tudo são névoa e espuma e areia produz um efeito tranqüilizador. Tudo é neblina, tudo são névoa e espuma. Pense na praia, ao final do dia, arrasada pela ocupação humana que a violentam de todas as formas possíveis. Vem a noite. A solidão. Sobe a maré. Pela manhã a praia é uma pele lisa, jovem, restaurada, sem nenhuma cicatriz. Toda a loucura humana foi esquecida. Pois assim mesmo é a vida: tudo será esquecido – de sorte que não vale a pena ficarmos ansiosos e aflitos. Se a morte ainda não o tocou, trate de aprender a viver com sabedoria. A sabedoria não é garantia de felicidade. A vida não oferece garantias de felicidade para ninguém. Quem é sábio sofre pelas razões justas e, por isso mesmo, sofre com serenidade. A sabedoria nos traz paz interior. Que é aquilo que mais o coração deseja. Paz interior é como um campo batido pelas asas do vento, como um rio de águas cristalinas, como uma borboleta pousada sobre uma flor ou o beija-flor sugando o néctar. (*) Jornalista e Escritor EUGENIO SANTANA – Registro MTb 1319/JP. Autor de cinco livros publicados – O encantador de leitores vorazes, estrelas, celebridades, pérolas, esmeraldas, rubis e diamantes...