segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

OS BAJULADORES ACREDITAM QUE SUAS PALAVRAS IDIOTAS SÃO CAPAZES DE PREENCHER O VAZIO DO SOFRIMENTO (*)

A morte ainda não o tocou. Portanto, seus motivos de queixa não têm importância. Mais cedo ou mais tarde seus problemas vão se resolver, de um jeito ou de outro. Há dois tipos de problemas. Primeiro, os problemas reais: uma cólica renal, uma labirintite, uma goteira, uma conta para pagar, uma artrose no joelho, um pneu furado, os pratos do jantar para lavar, um amor que não deu certo, uma pessoa querida que morreu. Esses problemas se resolvem de duas maneiras. Os pratos a gente lava, o pneu a gente troca, a artrose a gente procura um fisioterapeuta. Problemas que devem ser resolvidos sem reclamação e sem muito falatório, pois reclamações e falatórios, além de nada contribuírem para a solução dessas contrariedades, só servem para produzir irritação. Os faladores são especialistas nisso. Outros não têm solução. O amor que não deu certo, a pessoa querida que morreu: só resta chorar. E o importante é expulsar os consoladores e bajuladores, que são erva daninhas daqueles que estão sofrendo. Os consoladores e bajuladores acreditam sempre que suas palavras imbecis são capazes de preencher o vazio do sofrimento. Problemas, sofrimentos, frustrações são partes da vida. Não é possível evitá-los. Mas é possível sofrê-los com sabedoria. Por isso cuide de seu corpo e de sua alma. Freqüentemente as pessoas me perguntam: “Tudo bem?”. Eu respondo: “Nem para Deus, todo-poderoso, as coisas vão bem. As coisas não vão bem, mas eu vou bem”. É como no avião: lá fora está uma terrível tempestade, nuvens negras, não se vê nada, os raios iluminam a escuridão, o avião pula como um cavalo bravo. E eu, já que não posso mesmo fazer coisa alguma, vou tomando o meu uisquinho. O medo é imenso. Mas entre medo sem uísque e medo com uísque, prefiro a segunda alternativa. Na vida é assim: tudo vai mal, mas é preciso que o corpo e a alma sejam um ponto de serenidade. Mas essa harmonia não acontece por acaso. Ela é a resultante de disciplina e senso de organização. Sugiro que o primeiro gesto do seu dia seja um ato de autodefesa. Há uma série de aborrecimentos à sua espera: listas de coisas para fazer, compras, atitudes práticas, crianças a serem conduzidas à escola. Evidente, você não poderá fugir dessas responsabilidades. Mas não permita que sejam elas as primeiras a adentrar em seu corpo. Lide com elas com a lucidez zen. Caso contrário, elas tomarão conta do seu corpo e da sua alma e se transformarão numa legião de “encardidos” a perturbá-lo ao longo do dia. Enquanto você ouve música, leia. Estou me extasiando com a leitura do livro de Eclesiastes, e estou mesmo ousando a uma tradução poética minha: “Neblinas, neblinas, tudo são neblinas”, diz o poeta. O homem por mais que trabalhe, poderá por acaso produzir algo sólido, que não seja neblina? Uma geração passa, outra geração lhe sucede – como a neblina; somente a terra permanece... Esse sentimento de que tudo são névoa e espuma e areia produz um efeito tranqüilizador. Tudo é neblina, tudo são névoa e espuma. Pense na praia, ao final do dia, arrasada pela ocupação humana que a violentam de todas as formas possíveis. Vem a noite. A solidão. Sobe a maré. Pela manhã a praia é uma pele lisa, jovem, restaurada, sem nenhuma cicatriz. Toda a loucura humana foi esquecida. Pois assim mesmo é a vida: tudo será esquecido – de sorte que não vale a pena ficarmos ansiosos e aflitos. Se a morte ainda não o tocou, trate de aprender a viver com sabedoria. A sabedoria não é garantia de felicidade. A vida não oferece garantias de felicidade para ninguém. Quem é sábio sofre pelas razões justas e, por isso mesmo, sofre com serenidade. A sabedoria nos traz paz interior. Que é aquilo que mais o coração deseja. Paz interior é como um campo batido pelas asas do vento, como um rio de águas cristalinas, como uma borboleta pousada sobre uma flor ou o beija-flor sugando o néctar. (*) Jornalista e Escritor EUGENIO SANTANA – Registro MTb 1319/JP. Autor de cinco livros publicados – O encantador de leitores vorazes, estrelas, celebridades, pérolas, esmeraldas, rubis e diamantes...

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A VIDA É BELA E EFÊMERA COMO A LUZ DOS VAGA-LUMES (*)

Vivemos a vida como se ela fosse interminável. Mas entre a infância e a velhice há um pequeno intervalo de tempo. Olhe para a sua história: não parece que você dormiu e acordou com essa idade? Para as pessoas fúteis, a rapidez da vida estimula a viver destrutivamente, sem pensar nas conseqüências dos seus comportamentos. Para os sábios, a brevidade da vida convida-os a valorizá-la como um diamante de inestimável valor. Ser sábio não significa ser perfeito, não falhar, não chorar e não ter momentos de fragilidade. Ser sábio é aprender a usar cada dor como uma oportunidade para aprender lições, cada erro como uma ocasião para corrigir caminhos, cada fracasso como uma chance para recomeçar. Nas vitórias, os sábios são amantes da alegria; nas derrotas, são amigos da interiorização. Você é sábio? Viaja dentro de si mesmo? A grande maioria de nós provavelmente conhece no máximo a ante-sala da própria personalidade. Imagine que queiramos seguir uma trajetória, mas nosso carro segue outra; que desejamos virar para a esquerda, e o carro vira para a direita. Esse fenômeno, que parece assombroso, ocorre constantemente com o veículo da mente humana. Nosso Eu Interior não tem pleno controle dos instrumentos que constroem milhares de pensamentos diários. Por isso, ora ele é o protagonista, ora é mero coadjuvante; ora ele constrói idéias belíssimas, ora é vítima de pensamentos angustiantes que não elaborou. Essa ciranda intelectual entre ser diretor e espectador, motorista e passageiro, gerente e cliente, acompanha toda a nossa história. É por isso que afirmo que tragicomédia, risos e lágrimas, chegadas e partidas, perdas e ganhos, reações lúcidas e atitudes estúpidas fazem parte do nosso currículo. (*) EUGENIO SANTANA é autor de livros publicados. Jornalista investigativo com o registro profissional sob o número MTb 1319/JP. Ex-Superintendente de Imprensa no Governo do Rio de Janeiro.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

DEUS É VENTO (*)

Quem somos? O intervalo entre o nosso desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de nós. Procuro despir-me do que aprendi. Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, desencaixotar minhas emoções verdadeiras, desembrulhar-me e ser eu, não Eugenio Santana, mas um animal humano que a natureza produziu. Mas isso, triste de nós que trazemos a alma vestida!, isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender... Quero raspar as tatuagens de Deus com que cobriram os nossos corpos. Teólogos, sacerdotes, fiéis – todos eles se dedicam a essa arte perversa. Pensam que suas palavras são gaiolas para pegar Deus. Com isso ofendem Deus: pintam-no como pássaro engaiolável. Mas Deus é Vento – é isso que quer dizer a palavra “Espírito”- não pode ser engaiolado como passarinho. Em outras palavras: não adianta, quando a gaiola se fecha, é porque o sagrado já voou para outro lugar. Deus está sempre além das palavras, no lugar aonde as palavras não chegam, onde só existe o silêncio. As gaiolas de pegar Deus têm muitos nomes: rezas, terços, novenas, orações, preces, mantras, rituais, promessas, templos, Bíblia, Corão. Mas só os cegos não percebem que elas estão sempre vazias. O Rio cujo nome sabemos não é o eterno. O nome que pode ser dito não é o nome eterno. O Rio que não tem nome: dele nascem todos os rios que têm nome. O Rio que não tem nome é o princípio dos céus e da terra. Os rios que têm nome; neles nadam dez mil peixes diferentes. O caminho para Deus começa com o esquecimento de todos os nomes que nos foram ensinados. Deus não se vê diretamente. Só através de espelhos. Bons espelhos não têm memória. São vazios. A gente sai da frente deles, e prontamente de nós se esquecem. Se tivessem memória, eles guardariam o nosso rosto, mesmo na nossa ausência. Para refletir Deus em tudo o que aqui e agora existe, meu coração há de ser um espelho luminoso, claro e vazio. (*) por EUGENIO SANTANA, escritor, autor de livros publicados, jornalista de mídia impressa, ensaísta, relações públicas e self-made man. Membro efetivo da ALNM - Academia de Letras do Noroeste de Minas, sócio da UBE – União Brasileira de Escritores. Aos 11 anos comecei a ler Aristóteles, Spinoza, Platão, Schopenhauer, Freud, Jung, Gibran, Nietzsche, Hermann Hesse, Krishnamurti, Shakespeare e Rousseau. Escrevo e publico objetivando a autorrealização dos meus leitores. Busco a Transcendência por meio da Literatura. Escrever é a minha Missão. Contato: via e-mail autoreugeniosantana9@gmail.com e WhatSApp: (61) 8212-3275 (TIM)

O QUE ESCREVO É UMA PONTE DE PALAVRAS ALADAS QUE TENTO CONSTRUIR PARA ATRAVESSAR O RIO DO TEMPO (*)

Existe um questionamento que, quando feito a um escritor, dói mais que picada de serpente. A mim, particularmente, jamais fizeram. Mas fizeram a amigos meus. “Ele é do jeito mesmo que escreve?” é uma indagação brotada do amor: acharam belas as coisas que escrevi e agora estão curiosos para saber se me pareço com o que escrevo. Como afirmei, nunca me fizeram a pergunta, diretamente. Mas eu respondo. “Não, eu não sou igual ao que escrevo.” O que escrevo é melhor que eu. Invento ser outro: O eu - lírico. O texto é mais bonito que o escritor. Fernando Pessoa se espantava com isso. Ele tinha nítida consciência de que ele era muito pequeno comparado com a sua obra. Depois de escrever, leio... Por que escrevi isto? Onde fui buscar isto? De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu... Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta com que alguém escreve pra valer o que nós aqui traçamos? O que escrevo não é o que tenho; é o que me falta. Escrevo porque tenho sede e não tenho água. Sou oásis. Não. Não escrevo o que sou. Escrevo o que não sou. Sou pedra. Escrevo pássaro. Sou tristeza. Escrevo alegria. É que nós somos corpos dilacerados – o corpo é o lugar onde moram as coisas amadas que nos foram tomadas, presença de ausências, daí a saudade, que é quando o corpo não está onde está... O escritor escreve para invocar essa coisa ausente. Todo texto é um ato de alquimia do verbo cujo objetivo é tornar presente e real aquilo que está ausente e não tem realidade. O que escrevo é uma ponte de palavras aladas que tento construir para atravessar o rio do tempo. (*) por EUGENIO SANTANA, escritor, autor de livros publicados, jornalista de mídia impressa, ensaísta, relações públicas e self-made man. Membro efetivo da ALNM - Academia de Letras do Noroeste de Minas, sócio da UBE – União Brasileira de Escritores. Aos 11 anos comecei a ler Aristóteles, Spinoza, Platão, Schopenhauer, Freud, Jung, Gibran, Nietzsche, Hermann Hesse, Krishnamurti, Shakespeare e Rousseau. Escrevo e publico objetivando a autorrealização dos meus leitores. Busco a Transcendência por meio da Literatura. Escrever é a minha Missão. Contato: via e-mail autoreugeniosantana9@gmail.com e WhatSApp: (61) 8212-3275 (TIM)

domingo, 15 de fevereiro de 2015

PAISAGENS DA ALMA (*)

As fontes de águas limpas são sempre solitárias. São encontradas nas florestas, longe dos caminhos das feiras e das romarias. As florestas são lugares solitários. As multidões fogem delas. Preferem as praias e os shoppings. São poucos os que amam a solidão das florestas. Solidão é o ar que se respira quando se entra nas paisagens da alma. A alma é uma paisagem. As paisagens que vemos, assim é a nossa alma. Porque nós vemos aquilo que somos. Abrimos um álbum e mostramos aos amigos as fotos da viagem. Paisagens. Aqui um lago. Ali um pôr do sol. A foto é a mesma. Mas quem garante que as paisagens das almas sejam as mesmas? Aquilo que sinto, vendo o lago e o pôr do sol, não é a mesma coisa que você sente, vendo o mesmo lago e o mesmo pôr do sol. As paisagens da alma não podem ser comunicadas. A alma é um segredo que não pode ser verbalizado. Por isso, quanto mais fundo entramos nas paisagens da alma, mais silenciosos ficamos. A alma é o lugar onde os sentimentos são profundos demais para palavras. A solidão é para poucos. Não é democrática. Não é um direito universal. Para ser um direito de todos teria de ser desejada por todos. Mas são poucos os que a desejam. A maioria prefere a agitação das procissões, dos comícios, dos shows de rock, das praias, da torcida do Flamengo: lugares onde todos falam e ninguém ouve. O populacho sempre odeia os solitários. Desprezam os que andam na direção oposta. Os que percorrem caminhos inversos. Paulo Coelho e Lair Ribeiro são best-sellers. Mas os poetas não conseguem nem mesmo publicar os seus poemas. E, no entanto, segundo Goethe, juntamente com as crianças e os artistas, são eles, os poetas, aqueles que se encontram em harmonia com o indizível mistério da vida. O populacho sempre condena a alma solitária ao exílio, por não suportar a diferença. Onde subirei com o meu desejo? De todas as montanhas eu busco terras paternas e maternas. Mas não encontrei um lar em lugar algum. Sou um fugitivo em todas as cidades, e uma partida em todas as portas. Os homens de hoje, para quem meu coração recentemente me levou, são-me estranhos e grotescos. Sou expulso de todas as terras paternas e maternas. Assim, eu agora amo somente a terra dos meus filhos, ainda não descoberta, no mar mais distante: e nesta direção enfuno as minhas velas... As montanhas, as florestas, os mares: cenários da alma. Há neles uma grande solidão. E a solidão é dolorida. Mas há também uma grande beleza, pois é só na solidão que existe a possibilidade de comunhão. Assim, não tenha medo: Foge para dentro da tua solidão. Sê como a árvore que ama com seus longos galhos: silenciosamente, escutando, ela se dependura sobre o mar. (*) por EUGENIO SANTANA, escritor, autor de livros publicados, jornalista de mídia impressa, ensaísta, relações públicas e self-made man. Membro efetivo da ALNM - Academia de Letras do Noroeste de Minas, sócio da UBE – União Brasileira de Escritores. Aos 11 anos comecei a ler Aristóteles, Spinoza, Platão, Schopenhauer, Freud, Jung, Gibran, Nietzsche, Hermann Hesse, Krishnamurti, Shakespeare e Rousseau. Escrevo e publico objetivando a autorrealização dos meus leitores. Busco a Transcendência por meio da Literatura. Escrever é a minha Missão. Contato: via e-mail autoreugeniosantana9@gmail.com e WhatSApp: (61) 8212-3275 (TIM)

sábado, 14 de fevereiro de 2015

ADORAR O MARKETING EQUIVOCADO E AMAR O CONSUMISMO EXACERBADO (*)

TUDO SE VENDE OU SE TROCA: objetos, cargos públicos, influências, idéias. Nada se dá. Em economias arcaicas, ainda presentes em regiões da América Latina, a partilha de bens materiais e simbólicos e fálicos e falidos, assegurava a sobrevivência humana. Agora, ao valor de uso se sobrepõe o de troca. Embora nas ruas das grandes cidades pessoas morram de fome, nada justifica, aos grandes olhos do mercado, as ocupações de terra ociosas realizadas por representantes de 5,4 milhões de famílias sem-terra existentes no Brasil. Nem que sejam abertas as portas dos “suprimentos” que guardam os estoques de alimentos do (des)governo. O mercado reagiria mal. É preferível vê-los apodrecer. Cairiam os preços exigidos pelos produtores. Segundo o mercado, tombam os seres humanos, mas seguram-se os preços. O mercado é um ser sensível, facilmente irascível. Por isso, informações do Banco Central, como a iminente quebra de um banco, não devem vazar. O mercado oscilaria e entraria em crise. Suas bolsas de valores perderiam dinheiro. É melhor perder a ética, o decoro público, a dignidade, desde que se salve a saúde do mercado, esse demiurgo para o qual todos se sentem chamados... mas poucos são os escolhidos. (*) Jornalista/Escritor EUGENIO SANTANA – Registro MTb 1319/JP. Autor de cinco livros publicados – O encantador de leitores vorazes, estrelas, celebridades, pérolas, esmeraldas e diamantes...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A SOLIDÃO QUE NOS PERSEGUE NO VASTO E AGITADO FORMIGUEIRO DAS GRANDES METRÓPOLES (*)

Um famoso filósofo inglês disse que “os vizinhos ideais são aqueles com quem você não é obrigado a esbarrar todos os dias”. Impossível imaginar ponto de vista mais conveniente para quem vive na grande cidade do século XXI – seria terrível desejar um contato mais íntimo e constante com nossos vizinhos quando o próprio tipo de vida que levamos nos dá poucas oportunidades de conviver com eles. A vida urbana poderia ser considerada uma fábrica de “vizinhos ideais”. Afasta os vizinhos próximos e os distantes, os desejáveis e os indesejáveis, os conhecidos e os que gostaríamos de conhecer. E no lugar de “vizinhos” pode-se dizer amigos, colegas, parentes, todos igualmente tragados pela selva de edifícios e avenidas. Como aquele filósofo, muitas pessoas fazem da necessidade um ideal, e “escolhem” um isolamento do qual dificilmente poderiam fugir: “Do alto de minha torre de vigia de divina solidão, contemplo lá embaixo a multidão medíocre”. Quantos indivíduos já não recitaram para si mesmos frases desse tipo, para no minuto seguinte se atirarem sofregamente sobre o primeiro desconhecido disposto a trocar confidências? Por mais que filósofos ou bebedores solitários procurem pintá-la de dourado, a solidão física ou emocional é um dos maiores inimigos dos seres humanos. Os psicólogos têm realizado diversos testes sobre as reações de indivíduos quase inteiramente isolados de contato social e sensorial. Os pacientes são colocados em situações em que não podem tocar, ouvir, ver ou cheirar nada nem ninguém. O tempo durante o qual as pessoas suportam a experiência é variável. Algumas não passam de poucas horas, outras resistem durante alguns dias. Contudo, ninguém agüenta uma privação total de contato com o mundo exterior por muito tempo. Vários voluntários submetidos a esse tipo de teste têm alucinações, acentuadas modificações na capacidade de raciocínio e sentimentos extremos de angústia. T.S. Eliot escreveu: “Sabe de uma coisa? Não vale mais a pena falar com ninguém. Não... não é que eu deseje ficar sozinho. Mas é que todo mundo está sozinho – ou ao menos assim me parece. Fazem ruídos e pensam que estão conversando entre si. Põem uma expressão no rosto e pensam que estão conversando entre si. Põem uma expressa no rosto e pensam que se entendem. E estou certo de que nada disso acontece”. E concluo com o nosso bardo maior, Drummond: “Nesta cidade do Rio, de dois milhões de habitantes, estou sozinho no quarto, estou sozinho na América... De dois milhões de habitantes! E nem precisava tanto... precisava de um amigo, desses calados, distantes, que lêem verso de Horácio, mas secretamente influem na vida, no amor, na carne. Estou só, não tenho amigo, e a essa hora tardia como procurar amigo?”. (*) por EUGENIO SANTANA, escritor, autor de livros publicados, jornalista de mídia impressa, ensaísta e relações públicas. Membro efetivo da ALNM - Academia de Letras do Noroeste de Minas, sócio efetivo da UBE – União Brasileira de Escritores. Aos 11 anos comecei a ler Aristóteles, Spinoza, Platão, Schopenhauer, Freud, Jung, Gibran, Nietzsche, Hermann Hesse, Krishnamurti, Shakespeare e Rousseau. Escrevo e publico objetivando a autorrealização dos meus leitores. Busco a Transcendência por meio da Literatura. Escrever é a minha Missão. Contato: via e-mail autoreugeniosantana9@gmail.com e WhatSApp: (61) 8212-3275 (TIM)

PEQUENOS PRODÍGIOS TORNAM-SE GRANDES ARTISTAS, ESCRITORES E PENSADORES (*)

(Dedico ao meu filho Enzo Gabriel Moraes Santana.)
Vestindo calções de veludo e paletó castanho-arroxeado, tendo nos pés delicados sapatos de grandes fivelas prateadas e com os longos cabelos anelados presos atrás da cabeça, o pequeno virtuose apresenta-se em turnê pelas cortes européias. Suas mãos de criança dedilham o piano ou o clavicórdio, ora tiram profundos acordes do violino. O concerto que apresenta, ele mesmo compôs, e seu nome já desperta o interesse das grandes platéias: o pequeno Mozart, de seis anos, dá ao mundo uma primeira mostra do genial compositor que o século XVIII vai aplaudir. Não foi ele, porém, o único a se destacar pelo talento precoce no cenário musical. Beethoven, Mendelssonhn, Rossini, Schubert, Tchaikovsky, Haydn, Haendel, Chopin são outros nomes cujo talento é hereditário, ou em que medida o ambiente pode influir sobre as crianças que revelem conhecimentos e aptidões muito acima do normal para a sua idade. Algumas características, porém, revelam-se comuns em crianças que, posteriormente, apresentam uma superinteligência: sensibilidade mais aguçada e maior interesse por tudo o que acontece. Em geral não são bebês acomodados, nem toleram ficar sozinhos em ambientes monótonos como, por exemplo, deitados no carrinho sem qualquer outra visão além de uma parede vazia. Mais determinados em seus caprichos, mais espertos e rápidos em suas reações, respondem de imediato aos estímulos sonoros volvendo a cabeça ao perceber um ruído, começam mais cedo a sorrir para a mãe e tendem a imitá-la antes do que as outras crianças. Alguns especialistas afirmam que todo o seu comportamento é mais intenso, complexo e sutil do que o da criança comum. As crianças mentalmente superiores costumam aprender a ler muito cedo, e ficam tão interessadas pela leitura, que, cada vez mais, os livros constituem para elas uma atração irresistível. Essa ânsia de ler tudo o que lhes cai nas mãos é indício de precocidade mental, mas, com o passar do tempo, começam a selecionar os próprios interesses e tornam-se mais exigentes em relação às leituras. O tipo de ensino mais apropriado a uma criança mentalmente superior é aquele que atende às suas necessidades intelectuais e emocionais e ao mesmo tempo possibilita o desenvolvimento de seu talento. Contudo, é de fundamental importância encorajar a sociabilidade da criança precoce, mostrando-lhe que, sendo, além de muito inteligente, uma pessoa bastante agradável, ela obterá sucesso sem precisar exibir-se. (*) por EUGENIO SANTANA, escritor, autor de livros publicados, jornalista de mídia impressa, ensaísta e relações públicas. Membro efetivo da ALNM - Academia de Letras do Noroeste de Minas, sócio da UBE – União Brasileira de Escritores. Aos 11 anos comecei a ler Aristóteles, Spinoza, Platão, Schopenhauer, Freud, Jung, Gibran, Nietzsche, Hermann Hesse, Krishnamurti, Shakespeare e Rousseau. Escrevo e publico objetivando a autorrealização dos meus leitores. Busco a Transcendência por meio da Literatura. Escrever é a minha Missão. Contato: via e-mail autoreugeniosantana9@gmail.com e WhatSApp: (61) 8212-3275 (TIM)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

TATUAGEM: CORPO MARCADO POR UMA VISÃO DE MUNDO CAÓTICA (*)

Muitos pais se queixam do desinteresse dos filhos por causas altruístas, solidárias, sustentáveis. Guardam a impressão de que parcela considerável da juventude busca apenas riqueza, beleza e poder. Já não espelha em líderes voltados às causas sociais, ao ideal de um mundo melhor, como Gandhi, Luther King, Che Guevara e Mandela. O que falta à nova geração? Faltam instituições produtoras de sentido. Há que imprimir sentido à vida. Minha geração, a que fez 20 anos de idade na década de 1980, tinha como produtores de sentido Igrejas, movimentos sociais e organizações políticas. Quais são hoje, as instituições produtoras de sentido? Onde adquirir uma visão de mundo que destoe dessa mundividência neoliberal centrada no monoteísmo do mercado? Por que a arte é encarada como mera mercadoria, seja na produção ou no consumo, e não como criação capaz de semear em nossa subjetividade valores éticos, perspectiva crítica e apetite estético? As novas tecnologias de comunicação provocam a explosão de redes sociais que, de fato, são virtuais. E esgarçam as redes verdadeiramente sociais, como sindicatos, grêmios, associações, grupos políticos, ONGS, que aproximavam as pessoas fisicamente, incutiam cumplicidade e as congregavam em diferentes modalidades de militância. Agora, a troca de informações e opiniões supera o intercâmbio de formação e as propostas de mobilização. Os megarrelatos estão em crise, e há pouco interesse pelas fontes de pensamento crítico, como o marxismo e a teologia da libertação. Como se dizia antigamente, nunca as condições objetivas foram tão favoráveis para operar mudanças estruturais. O capitalismo está em crise, a desigualdade social no mundo é alarmante, os povos árabes se rebelam, a Europa se defronta com milhões de desempregados, enquanto na América Latina cresce o número de governos progressistas, emancipados das garras do Tio Sam e suficientemente independentes, a ponto de eleger Cuba para presidir a Celac – Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos. Quando não se quer mudar o mundo, privatiza-se o sonho modificando o cabelo, a roupa, a aparência. Quando não se ousa pichar muros, faz-se tatuagem para marcar no corpo sua escala de valores. Quando não injeta utopia na veia, corre-se o risco de injetar drogas. Não fomos criados para ser carneiros em um imenso rebanho retido no curral do mercado. Fomos criados para ser protagonistas, inventores, criadores e revolucionários. De onde beber esperanças lúcidas se as fontes de sentido parecem ressecadas? Parecem, mas não desaparecem. As fontes estão aí, a olhos vistos: a espiritualidade, os movimentos sociais, a luta pela preservação ambiental, a defesa dos direitos humanos, a busca de outros mundos possíveis. (*) Jornalista/Escritor EUGENIO SANTANA – Registro MTb 1319/JP. Autor de cinco livros publicados – O encantador de pérolas, esmeraldas e diamantes...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

EXISTE UMA FÓRMULA PARA SER FELIZ? (*)

Existem pessoas que me julgam dotado de respostas para os impasses da vida. Mal sabem quantos acúmulos em minha trajetória. Contudo, sei o que é felicidade. Difere da alegria. Felicidade é um estado de espírito, é estar bem consigo, com a natureza, com Deus. Com os outros, nem sempre. As relações humanas são amorosamente conflitivas. Invejas, mágoas, disputas, mal-entendidos, são pedras no sapato. Ou no meio do caminho, como diria Drummond. Alegria é algo que se experimenta eventualmente. Uma pessoa pode ser feliz sem parecer alegre. E conheço muitos que esbanjam alegria sem me convencerem de que são felizes. O sábio professor Milton Santos, que não tinha crença religiosa, enfatizava que a felicidade se encontra nos bens infinitos. No entanto, a cultura capitalista que respiramos centra a felicidade na posse de bens finitos. A psicanálise sabe que o nosso desejo é infinito, insaciável. E a teologia identifica Deus como o seu alvo. Ninguém mais feliz, em minha opinião, do que os místicos. São pessoas que conseguem direcionar o desejo para dentro de si, ao contrário da pulsão consumista que faz buscar a satisfação do desejo naquilo que está fora de nós. O risco, ao não abraçar a via do Absoluto, é enveredar-se pela do absurdo. O Mercado, que tudo oferece em sedutoras embalagens, não é capaz de ofertar o que todos nós mais buscamos – a felicidade. Então, tenta nos incutir a idéia de que a felicidade resulta da soma dos prazeres. Possuir aquele carro, aquela casa, fazer aquela viagem, vestir aquela roupa... nos tornará tão felizes quanto o visual dos atores e atrizes que aparecem em peças publicitárias. Tenho certeza de que nada torna uma pessoa mais feliz do que empenhar-se em prol da felicidade alheia: isto vale tanto na relação íntima quanto no compromisso social de lutar pelo “outro mundo possível”, sem desigualdades gritantes e onde todos possam viver com dignidade e paz. (*) Jornalista/Escritor EUGENIO SANTANA, FRC – Registro MTb 1319/JP – O encantador de pérolas, esmeraldas e diamantes...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

RECONSTRUIR A VIDA E SE PERMITIR UMA NOVA VISÃO DO MUNDO (*)

No mundo em que vivemos, quanta esbórnia, corrupção, nepotismo, ciência e tecnologia para fins bélicos, práticas religiosas fundamentalistas, arrogantes e extorsivas! Os ícones atuais, que pautam o comportamento coletivo quase nada têm do altruísmo dos mestres espirituais, dos revolucionários sociais, do humanismo de cientistas como Einstein. Hoje, predominam as celebridades do cinema e da TV, as cantoras exóticas, os desportistas biliardários, a sugerir que a felicidade resulta de fama, riqueza e beleza. Impossibilitada de sair de si, de quebrar seu egocentrismo – por falta de paradigmas – uma parcela da juventude se afunda nas drogas, na busca virtual de um “esplendor” que a realidade não lhe oferece. São crianças e jovens deseducados para a solidariedade, a compaixão, o respeito aos mais pobres. Uma geração desprovida de utopia e sonhos libertários. No entardecer da vida, podemos olhar para trás e verificar quantos sonhos não se transformaram em realidade! Porque não tivemos coragem de romper amarras, quebrar algemas, nos impor disciplina, abraçar o que nos faz feliz, e não o que melhora a nossa foto aos olhos alheios. Trocamos a felicidade pelo prestígio do cargo. E muitos se dão conta de que na vida tomaram a estrada errada quando ela finda. Já não há mais tempo para abraçar alternativas. Quantas vezes falamos mal da vida alheia e calamos elogios! Adiamos para amanhã, depois de amanhã... o momento de manifestar o nosso carinho àquela pessoa, reunir os amigos para celebrar a amizade, pedir perdão a quem ofendemos e reparar injustiças. Adoecemos macerados por ressentimentos, amarguras, desejo de vingança. E para ficar bem com os outros, deixamos de expressar o que realmente sentimos e pensamos. Aos poucos, o cupim do desencanto nos corrói por dentro. Amizades são raras. No entanto, nem sempre sabemos cultivá-las. Preferimos a companhia de quem nos dá prestígio ou facilita o nosso alpinismo social. Desdenhamos os verdadeiros amigos, muitos de condição inferior à nossa. Em fase terminal, quando mais se precisa de afeto, a quem chamar? Quem nos visita no hospital, além dos que se ligam a nós por laços de sangue e, muitas vezes, o fazem por obrigação, não por afeição? Na cultura neoliberal, moribundos são descartáveis e a morte é fracasso. E não se busca a companhia de fracassados... Ser feliz é uma questão de escolha. Mas vamos adiando nossas escolhas, como se fôssemos viver 300 ou 500 anos... Ou esperamos que alguém ou uma determinada ocupação ou promoção nos faça feliz. Como se a nossa felicidade estivesse sempre no futuro, e não aqui e agora, ao nosso alcance, desde que ousemos virar a página de nossa existência e abraçarmos algo muito simples: fazer o que gostamos e gostar do que fazemos. (*) Jornalista/Escritor EUGENIO SANTANA, FRC – Registro MTb 1319/JP – O encantador de pérolas, esmeraldas e diamantes...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

MUDANÇA DE PARADIGMA: DE LUCRATIVIDADE PARA SUSTENTABILIDADE (*)

MUDANÇA DE PARADIGMA: DE LUCRATIVIDADE PARA SUSTENTABILIDADE – O fim do mundo sempre me pareceu algo muito longínquo. Até um contrassenso. Deus haveria de destruir sua Criação? Hoje me convenço de que Deus nem precisa mais pensar em novo dilúvio. O próprio ser humano começou a provocá-lo, através da degradação da natureza. Os bens da Terra tornaram-se posse privada de empresas e oligopólios. A causa de 4 bilhões de seres humanos viverem abaixo da linha da pobreza, e 1,2 bilhão padecerem fome, é uma só: foram impedidos de acesso à terra, à água, a sementes, a novas técnicas de cultivo e aos sistemas de comercialização de produtos. EUA e China são os principais emissores de CO2 na atmosfera e, portanto, os grandes culpados pelo aquecimento global. Há uma lógica atrás da posição ecocida dos EUA e da China. São dois países capitalistas. O primeiro abraça o capitalismo de mercado; o segundo, o de Estado. Ambos coincidem no objetivo maior: a lucratividade, não a sustentabilidade. O capitalismo, como sistema, não tem solução para a crise ecológica. Sabe que medidas de efeito haverão de redundar inevitavelmente na redução dos lucros, do crescimento do PIB, da acumulação de riquezas. Se vivesse hoje, Marx haveria de admitir que a crise do capitalismo já não resulta das contradições das forças produtivas. Resulta do projeto tecnocientífico que beneficia quase que exclusivamente apenas 20% da população mundial. Esse projeto respalda-se numa visão de qualidade de vida que coincide com a opulência e o luxo. Sua lógica se resume a “consumo, logo existo”. O planeta em que vivemos já atingiu seu limite físico. Por enquanto não há como buscar recursos fora dele. O jeito é preservar o que ainda não foi totalmente destruído pela ganância humana, como as fontes de água potável, e tentar recuperar o que for possível através da despoluição de rios e mares e do reflorestamento de áreas desmatadas. Os rios foram poluídos; os mares, contaminados; o ar que respiramos, envenenado. Agora, corremos contra o relógio do tempo. O Apocalipse desponta no horizonte e só há uma maneira de evitá-lo: passar do paradigma de lucratividade para o da sustentabilidade apoiado na solidariedade. (Jornalista/Escritor EUGENIO SANTANA, FRC – Registro MTb 1319/JP – O encantador de pérolas, esmeraldas e diamantes...)