domingo, 25 de janeiro de 2015

ENSAIO METAFÍSICO SOBRE A SAUDADE (*)

SAUDADE. Que palavra estranha! Estranha e única, porque é privilégio da nossa bela e quase desconhecida língua portuguesa. É verdade. Nenhum idioma em todo o mundo possui termo equivalente à palavra saudade. Saudade... que sentimento estranho! Estranho e universal, porque é próprio de todas as gentes, comum a todas as nações, onipresente em todos os lugares. Que mistério! Se a saudade é, enquanto palavra, uma flor original e exclusiva do idioma português, como sentimento, no entanto, ela habita no coração de todos os homens e na sensibilidade de todas as mulheres: ergue um templo no íntimo de todas as almas aladas. É lembrança doce e triste de alguém ou algo indevidamente distante do coração; é melancolia da alma que se sente inerme e solitária. A saudade Consiste em abraçar e saborear lentamente a presença de uma ausência, a ausência de uma presença. A saudade é POESIA. E nada é mais poético do que a saudade. Poeticamente, a saudade é um triste consolo, uma bem-vinda e doce ilusão. Quem a conhece? Quem já lhe sondou os abismos? Quem já lhe tocou as mais profundas profundezas? Quem já viu o fundo mais fundo de sua natureza? Filosoficamente, a saudade é uma penumbra porque o homem é ainda uma sombra. Uma sombra, uma nostálgica e platônica sombra! O homem é, por um lado, filho da luz vertical, e, por outro, irmão dos tenebrosos abismos horizontais. Por isso, ele é luz. Ainda com aparência de trevas. Essencialmente divino e existencialmente humano, absoluto e relativo, imortal e fadado à morte, tem o homem, conseqüentemente, de sofrer todas as formas de saudade compatíveis com a sua natureza dualista. Saudade. Há vários tipos de saudade capazes de invadir a incauta e desprotegida catedral do coração humano. Todos, contudo, deságuam em dois grandes rios: o do tempo e da eternidade. O rio do tempo... é o rio da saudade finita que corre no plano horizontal da existência e envolve o homem no tempo e no espaço e é saudade bidimensional de coisas e pessoas! Nenhuma saudade é mais saudade do que a saudade das pessoas... dos parentes, dos amigos... e, fundamentalmente, da ideal e insubstituível criatura amada, dessa alma-irmã que encontramos ou almejamos encontrar num encontro-de-amor, para caminhar conosco e ao nosso lado nesses canais finitos de tempo e espaço. As coisas funcionam como veículo, suporte ou sustentáculo da saudade. Assim, o tamborilar da chuva na vidraça... os acordes duma música no ar, dentro da noite. Um álbum de fotografias que o tempo amarelou são gatilhos que disparam o certeiro projétil da saudade. A saudade chega, trazida, quase sempre nas asas das coisas. Sejam coisas concretas, abstratas ou, às vezes, imaginárias. Coisas como a noite misteriosa e as longínquas estrelas, a vastidão sideral do espaço, a música das águas, o canto dos pássaros, a contemplação de uma floresta. E outras mais, em adequadas condições e circunstancias, podem arremessar o homem como um bólido ao encontro de alguma sutil, diáfana, evanescente, indescritível e pulsante saudade! Os parentes são, antes de tudo, os companheiros que escolhemos para caminhar conosco em nossa presente jornada existencial. Com eles estamos no mesmo barco. Sofremos e nos alegramos juntos. Ninguém nos é mais próximo ou mais íntimo, ressalvada a criatura amada, do que a nossa mãe, o nosso pai, a nossa filha ou o nosso filho. Se algum desses nos falta, a saudade que daí resulta, é trágica e alucinante! Trago no recôndito mais íntimo da asa da memória, a melancólica saudade dos amigos e parentes que se foram, à minha frente, rasgando dimensões e abrindo as cortinas do Plano Infinito. Trago no meu coração cansado, a saudade doída da mulher-companheira que caminhava comigo, iluminando o meu dia e perfumando a minha longa noite...
(*) EUGENIO SANTANA, Jornalista e Escritor. Pertence à Academia de Letras de Uruguaiana, UBE - União Brasileira de Escritores, ADESG, AMORC e ao Greenpeace. Autor de livros publicados. Gestor e fundador da Hórus/9 Editora, da Revista Panorama Goiano, do jornal Verbo-pássaro, do Blog Guardião da Palavra e da ONG Neuroforiazul. Atualmente, é Analista de Marketing Digital na Editora Viver Saudável. E-mail: autoreugeniosantana9@gmail.com - WatsApp: (61) 8212-3275