segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O QUE SE LÊ OU VÊ NÃO ALIMENTA A ALMA (*)

Em lugar de sair da cama antes das 7, preparar o café, toma-lo no quarto enquanto assistia ao noticioso, fiz o que, brincando, chamei de “vida de celebridade”: ficava até mais tarde na cama, às vezes a noiva até trazia a simpática bandejinha. Procurei controlar minha natural ansiedade, nada de me preocupar com tudo e com todos. Mais reflexivo, do jeito que na verdade eu gosto. E aos poucos melhorei. Um dia acordei, e tinham-se ido os sintomas e a tristeza. Levei algum tempo para entender o que se passava; nos meus dias de ócio deixei de ler os jornais e assistir aos noticiosos logo de manhã. Que santo remédio para meus males. Pois o que se lê ou vê não deveria ser o primeiro alimento da alma. Então retomei meu ritmo antigo bem de mansinho. Abro jornais e vejo noticiosos perto do meio-dia (assim também perco um pouco a fome e os quilos necessários). Pois o que vemos, lemos, ouvimos é mais de 90% deprimente, se não assustador. Lembrei-me de um senador da República, Jefferson Péres, dizendo que deixaria a sua cadeira no Senado “com profundo desalento” pelo que ocorria neste país. Um dos raros pilares da grandeza e da ética, ele morreu em 2008, do coração, se não me engano em sua casa em seu estado natal. Não deve ser grave erro atribuir essa morte, em parte, ao peso daquele desalento que devia ser enorme, vasto e profundo, para levá-lo àquele passo. Eu não posso abdicar de meu país, e de minha condição de quem aqui nasceu e escolhe todos os dias aqui viver, porque este é o meu lugar, estas são minhas raízes essenciais. Contudo, que está difícil, está. O rio de lama se transforma num mar, aquele tão citado por tantos políticos em tantas décadas. A quem recorrer, para que lado olhar? Teias e tramas de corrupção se revelam em dimensões inimagináveis. Educação e saúde continuam na penúria, porque não as vejo de verdade favorecidas nem resolvidos os seus piores males. Preparam-se assim gerações de ignorantes, incompetentes e talvez de descrentes. Pois os líderes deviam ser nosso exemplo segundo, o primeiro sendo os pais. Não deve nos chocar ouvir um adolescente dizer “por que eu devia estudar”, “por que trabalhar tanto”, “por que ser honesto”, se a gente acaba parecendo idiota no meio dos espertos? O argumento é adolescente como o rapaz, mas não sem fundamento. É preciso muito esforço, muito raciocínio, muita base de casa, muito berço (não o esplêndido, mas o amoroso, reto, moralmente bom), para nadar contra a correnteza escura, e tentar fundar alguma ilha de claridade, de honradez, de trabalho, de interesse real pelos despossuídos. Para buscar uma humanidade como sempre imaginei que ela deveria ser – quem sabe um dia será – onde a gente sinta que vale a pena lutar, sonhar, ter esperança; onde se adotem linhas firmes de conduta e ideologias do bem. Pois cada vez mais as ideologias deixam de importar; valem os interesses, os votos, o poder, a manutenção das condições favoráveis ao enriquecimento ilícito, às manobras por mais e mais poder, e tudo o que gera violência, ignorância, miséria, agressividade, stress e o que disse aquele senador: desalento.
(*) EUGENIO SANTANA, é sensitivo, Místico Rosacruz Grau Superior, maçom do GOIN – Grande Oriente Interno; é católico e ecumênico, devoto de São Judas Tadeu, Santo Antônio de Pádua e São Miguel Arcanjo. Escritor, Jornalista, Ensaísta, Relações públicas, publicitário. Fundador da “Revista Cenário Goiano” e do jornal “Verbo-pássaro”. Autor de livros publicados. Ex-Superintendente de Imprensa no Rio de Janeiro (2009/2011).