terça-feira, 9 de julho de 2013

O QUE É REALMENTE VALIOSO NÃO TEM PREÇO (*)

Olá, pode me chamar de “dono”. Sim, pode parecer estranho, mas já fui conhecido como o “dono do mundo”. Graças a uma enorme dedicação, natural espírito empreendedor e uma invejável habilidade nos negócios, fiz sucesso e fortuna como poucos. Tornei-me símbolo de realização e de poder. Conheci o doce sabor do sucesso, fui presidente do Clube dos Bem-Sucedidos. Convivi diariamente com a fama, fui condecorado diversas vezes como o “Homem do Ano”. Porém, sempre me faltou algo. Nunca consegui ser realmente feliz. Queria ter todos os carros, todo o dinheiro, todas as mulheres e nunca tinha, porque quando chegava lá, sempre queria mais, mais, e mais. Só consegui as coisas que se compram com o dinheiro, e o dinheiro só compra aquilo que é barato. O que é, realmente, valioso, não tem preço. Colecionei todo tipo de automóveis, barcos, aviões, mas de pouco serviam, pois eu não sabia para onde ir. Tinha todo tipo de alimento, podia frequentar os melhores restaurantes não só da cidade, mas do mundo inteiro, contudo me faltava o apetite. Na busca do meu eu superior, vaguei por diversas filosofias, tentando descobrir tudo com os mais renomados “mestres” e “gurus”, aprendendo sobre pirâmides, vidas passadas, gnoses, Era de Aquário, Rosacruz, Templários, Maçons, Santo-Daime, Viagem Astral, Terapia de Vidas Passadas, poder cósmico e coisas do gênero. Ensinaram-me que eu era uma partícula do Universo, o microcosmo no macrocosmo; que eu era a própria luz, que estava em toda a parte, que era onisciente, que eu era Deus. Assim, esqueci meus próprios limites, tornei-me vítima da vaidade, da soberba e comecei a ser impulsionado por uma ambição desmedida. Dominei os outros, porque sempre estava insatisfeito comigo mesmo. Como não conseguia mais sorrir, comecei a procurar diversões extravagantes. Entrei num caminho do qual poucos conhecem a volta: bebidas e drogas. O que era esporádico e controlado, passou a ser obrigatório e frequente. Tornei-me dependente, tanto física como psicologicamente. Comecei a usá-las com maior intensidade, já não mais para obter prazer, e sim para evitar o desprazer da falta delas. Veio a dependência total... Sem estar próximo e atuante, os negócios desmoronaram, os conhecidos foram se afastando, os colaboradores dispersados, e toda a fortuna se esvaiu como areia fina por entre os dedos. Por diversas vezes, tentei tratamento nas principais clínicas do mundo inteiro e com os mais renomados especialistas, mas, por não ter persistência, tive diversas recaídas, cada vez mais agudas, mais desesperadoras. Sem vontade própria, sem amigos, sem dinheiro, terminei abandonado numa instituição de caridade recomendada para doentes mentais com poucas chances de regeneração. De “dono do mundo”, passei a ser escravo do fracasso. Por ironia, os demais pacientes, conhecendo minha história, às vezes me chamavam de o “senhor do nada”; outras vezes, me chamavam de o “sem dono”. Conheci o abandono, o desprezo, a solidão, o medo... Lembrei-me de ter ouvido, em algum lugar, uma citação de Jesus Cristo que nunca imaginei ser tão real e aplicável ao meu caso: “Que importa ao ser humano ganhar o mundo inteiro, mas perder-se a si mesmo?” Todavia, aprendi tudo que não me destrói me torna cada vez mais forte... Lembrei que em todo infortúnio, mesmo nos mais irremediáveis, encontra-se a semente do triunfo. Aprendi que posso tirar algum proveito do que me aconteceu e que problemas são como potes de ouro. Em toda e qualquer adversidade, existe sempre a semente do bem. Parei de maldizer minha vida e comecei a imaginar como toda esta amarga experiência poderia me auxiliar na recuperação da minha dignidade. Na pior hipótese, o fracasso trouxe-me um grande benefício, renovou minha humildade. E com toda a humildade possível, assumi minha condição e procurei ajuda, pois o vergonhoso não é cair e sim persistir em continuar deitado. Conheci pessoas que, prestando serviço voluntário, fizeram-me crer que cada ser humano possui em si mesmo a resiliência, ou seja, a capacidade rápida de regeneração. Explicaram-me que o fracasso não precisa ser definitivo, e que, aliás, não existe fracasso, existem resultados. Fizeram-me crer que todo ser humano tem um potencial extraordinário, e que, quando queremos, somos capazes de vencer toda espécie de catástrofe, todos os fracassos, todos os desastres. Comecei a repetir frequente e exaustivamente que “eu tenho o vício, mas o vício não tem a mim”. Encorajaram-me a buscar novamente a excelência, porém, agora, com uma visão nova, ampliada, real e renovada. É preciso crer que os grandes atos de fé acontecem exatamente quando humanamente não há soluções. Afirmaram que existe alguém, lá em cima, que tem um amor muito grande por todo gênero humano, e, em especial, pelos drogados, pelos alcoólatras, pelos abandonados, pelos esquecidos e sem esperanças. Instruíram-me a não procurar a riqueza em si mesma, a não manusear e acumular o dinheiro como a um deus, mas a ser, realmente, dono da situação e das coisas. Reprisaram várias vezes que o que é, realmente, valioso, não tem preço. Fizeram-me crer que eu não nasci por acaso e não foi por descuido que Deus me criou. Incentivaram-me a procurar meu destino supremo, a encontrar o sentido da minha existência. Fizeram-me ver que o verdadeiro sucesso não está em “ter”, nem em “fazer”, mas, simplesmente, em “se”. O que somos é o que realmente importa.
(*) Copydesk/Fragment by Eugenio Santana, escritor, jornalista, publicitário, relações públicas, ensaísta, editor. Autor de cinco livros publicados, membro efetivo da ALNM – Academia de Letras do Noroeste de Minas; ex-superintendente de jornalismo no Rio de Janeiro (2009/2011). Atualmente, é Consultor e mora em Uberaba-MG. E-mail: eugeniosantana9@uol.com.br (34) 9297-6090