sábado, 1 de junho de 2013

GUERREIRO-SOL E MULHER-LUA (*)

Ele, guerreiro, cavalgava um cavalo negro. Seus olhos eram serenos, seu rosto triste, seus cabelos dourados como a luz do sol, e sua voz só se ouvia depois de longos silêncios. Ela, diáfana como a lua, cabelos loiros e voz suave e volátil como a luz das estrelas. Eles muito se amavam. Mas havia naquela terra um feiticeiro das trevas. Ele se apaixonou pela moça-lua. Mas ela amava o guerreiro e repeliu os gestos do bruxo. Este, irascível, lançou sobre os namorados um feitiço: estariam condenados, pelo resto dos seus dias, a nunca se tocar. A mulher seria como a lua. Só apareceria à noite, depois de o sol se pôr: Durante o dia ela seria um falcão branco. E seu amado seria como o sol: só apareceria durante o dia. Durante a noite ele seria um lobo negro. E assim aconteceu. Durante o dia o guerreiro cavalgava o seu cavalo, levando no ombro sua amada, o falcão branco. Durante a noite o falcão voltava a ser mulher e ficava ao lado do seu amado, o lobo negro. Mas havia um breve momento encantado, quando eles quase se tocavam. Ao crepúsculo, quando a luz do dia se misturava com o escuro da noite, o falcão voltava a ser mulher e o guerreiro se transformava em lobo. Ao nascer do sol, quando o escuro da noite se misturava com a luz do dia, o lobo voltava a ser guerreiro e a mulher se transformava em falcão. Nesse brevíssimo momento, os dois apareciam um para o outro como sempre haviam sido... Suas mãos se estendiam, uma querendo tocar a outra – mas o toque era impossível, porque, antes que suas mãos se tocassem, a metamorfose ocorria. O guerreiro amava o falcão. Sabia que dentro do falcão vivia sua amada, encantada. Ele acariciava suas penas – mas um falcão não é uma mulher. Ele o carregava movido pela esperança de que, um dia, o feitiço fosse quebrado. A mulher amava o lobo. Sabia que dentro do lobo vivia, encantado, o guerreiro de olhos profundos que ela amava. Ela acariciava seu pêlo negro – mas um lobo não é um homem. Ela o acariciava movida pela esperança de que, um dia, o feitiço fosse quebrado. Mas o amor é mais forte que os feitiços maus. E aconteceu que, um dia, depois de uma luta sangrenta, o feiticeiro foi morto e o feitiço foi quebrado. O guerreiro voltou a ser o guerreiro que sempre fora, e a mulher voltou a ser a mulher que sempre fora. E as suas mãos puderam se tocar e tudo foi alegria e eles se casaram e viveram felizes para sempre... (*) EUGENIO SANTANA, da Academia de Letras do Noroeste de Minas, é escritor, jornalista, publicitário, relações públicas, copydesk, verse maker; self-made man. Sócio da UBE-GO/SC – União Brasileira de Escritores e autor de cinco livros publicados, entre os quais “InfinitoEfêmero”. Imêio: eugeniosantana9@uol.com.br Cel. (34) 9297-6090