sábado, 1 de junho de 2013

AS VIOLETAS SÃO FLORES DE SILÊNCIO (*)

Basta-me o florir, mesmo de violetas, que terei braços para compor o desenho da primavera, mesmo porque pressinto que as violetas são flores de silêncio e é no silêncio que as ações germinam mais suaves, no retilíneo mistério dos deuses. Se falar manso e ouvir sussurros, flor calada e atenta, flor de memória, for o destino, escutarei as falas de um cipreste, que vem porque vem, e não tem medo das oscilações da asa do tempo. É assim que minha mão te afaga, hoje como ontem, apenas mais antiga. E se o antigo tem gosto de calmaria, é neuroforia que compõe meus dedos, no anseio inútil de prender o efêmero. Não te forço a nada, nem que me queiras, que tua sede é outra, bem sei. Mas no morno azinhavre de minha mochila trago gerânios que a noite não crestou. Eles serão teus, quando menos esperares, e flutuarão como dádivas, velando teu corpo escultural. De súbito, calaram-se as torres da catedral, e se comparecemos ao ritual, vamos por rumo, cegos na utopia de um afeto, que é quase um retorno à infância e, se afagamos, é assim como quem se desvenda pela primeira vez a alma-irmã. Tem a primavera o condão de reflorir os caules? Terá a magia de deitar luz na retina cansada? É o que sonhamos, no afã supremo de colher condões da estação. As dores do girassol, o sofrimento da borboleta que espera. A crisálida submete-se, e depois é a doce borboleta em cores. Somos como a crisálida que ainda percorre seu desvão, apenas isso. Mas há um mineiro-menino que amará a crisálida? E se de crisálida não passar-se a nada, se o pó converter a crisálida antes da primavera e um menino não acariciar jamais as cores que seus olhos anseiam? Resta a esperança de um filete e a ele, como arlequim, nos prendemos depressa, filiados ao junco de sol e, menos que seja, ao destino do musgo. Vida que dormita, este sono me levará ao compasso de tua alma? Os elos de nossas cordas, cordas votivas de um amor sem pouso. De teu seio os calores são hoje a escora de minha paixão. Não choro, não choro, apenas sirvo à minha gueixa que vem florida, ornada de vida. E se nino devagar, não durmas. São os gerânios que estão crepitando, na manhã do vento. É a tenda primeira que tento soerguer aos teus ávidos olhos. Tens medo de que a ventania não deixe a borda da tenda inflar-se? Miragem, que todas as tendas estão armadas, no submisso exílio do afago. Quero-te mais, mais agora, que as violetas geraram a tenda do amparo. E contarei aos teus que existe um adorno de pérola sob os destroços aparentes. O teu adorno de sempre. Se um dia a derradeira tenda erguer-se, mitigarei tua ansiedade com favos de mel. Não do mel das horas vencidas, mas aquele que foi liame e que nutriu todos os sonhos da luta. E se venci, vencemos, e se chorei, choramos, que amor é coisa de tenda desafiando miasmas e solidão. Somos abelhas que deram seu mel aos muitos seres da vida e dormiremos ao som dos silêncios, amor e amor, na tarde azulada e banhada de Sol alado. (*) EUGENIO SANTANA, da Academia de Letras do Noroeste de Minas, é escritor, jornalista, publicitário, relações públicas, copydesk, verse maker; self-made man. Sócio da UBE-GO/SC – União Brasileira de Escritores e autor de cinco livros publicados, entre os quais “InfinitoEfêmero”. Imêio: eugeniosantana9@uol.com.br Cel. (34) 9297-6090