quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O POETA É UM LADRÃO DE FOGO (*)

A POESIA não é unicamente um produto escrito, uma sucessão de imagens e sons, mas na verdade, uma maneira de viver. Nerval, Baudelaire e Rimbaud anteciparam o sentido trágico desta maneira poética de viver que o surrealismo tentou levar às últimas conseqüências. A revolta de Rimbaud é a de toda adolescência, e é reconhecida como um valor permanente, que não se trata mais de refrear, mas, pelo contrário, de liberar. Em sua renúncia à poesia e na sua partida para a Abissínia, quis-se ver a significação de uma mensagem, por meio da qual deixa-se claro que se a ação equivale ao sonho, a poesia não consiste numa atividade de “mago” mas a uma atividade de expressão que tem seu lugar ao lado de todas as demais preocupações. A objetivação da poesia encontra-se domínio da vida. O absurdo torna-se um valor poético como a dor e o amor. Aprofundando-se o absurdo do mundo, uma inaudita clareza surge infinitamente mais luminosa. Lautrémont, Mallarmé e Saint-Pol-Roux nos ensinaram que é necessário penar longamente até que esta clareza chegue à consciência. Esta não se ensina. Cada um deve descobri-la nas profundezas de se ser com todos os riscos que sua aventura comporte, em esferas em que o perigo torna-se imenso. Tal foi para Gerard de Nerval, nos confins da loucura, a lição de sua procura de um absoluto. Tal é o preço da razão, ao sair do túnel para encontrar a recompensa na sabedoria e na luz. Esta é, um resumo um tanto esquemático, a linhagem dos poetas que vislumbraram a poesia como uma lição de vida, um estado de espírito. O humor e a surpresa, com Apollinaire, irrompe soberanamente nos domínios da poesia, enquanto a poesia-objeto, assim como a poesia do objeto cotidiano dos cubistas – reação contra um simbolismo metódico, anêmico e diluído – incitam-nos a considerar o mundo exterior à luz de uma verdade que Baudelaire já havia localizado, despojando-a dos oripéis convencionais dos mitos românticos. Em todos esses poetas descobre-se um desprezo violento pelas idéias aceitas, um pressentimento da idéia de que o mundo é hostil ao homem porque é “mal feito”. Fazem todos prever a chegada de um mundo novo, onde toda desordem desaparecerá, onde a beleza poderá ser visível e a vida vivível para todos os homens. (*) copydesk/fragment by Eugenio Santana, escritor, jornalista, ensaísta. Ex-Diretor Regional, em Goiás, da Editora Didática Paulista. Foi Superintendente de Jornalismo no Rio de Janeiro.

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