quinta-feira, 15 de novembro de 2012

NÃO SEI COMO VIAJAR SEM BAGAGEM (*)

VIAJANTES CANSADOS. Você os tem visto – com tudo o que eles próprios metem na bagagem – cambaleando pelos terminais e vestíbulos de hotéis, com malas abarrotadas, baús, mochilas e sacolas. Dor nas costas. Pés ardendo. Pálpebras caídas. Todos já vimos pessoas assim. Às vezes, nós somos pessoas assim – se não com nossas bagagens físicas, ao menos com nossas cargas espirituais. Todos arrastamos fardos para os quais não fomos feitos. Medo. Preocupação. Descontentamento. Não admira ficarmos tão cansados. Estamos exaustos de carregar excesso de bagagem. Não seria ótimo perder algumas destas malas? Existe um roteiro como guia, para que larguemos alguns destes carregamentos para os quais não fomos feitos. Você é conhecido por carregar poucas bagagens? Provavelmente, você o fez esta manhã. Nalgum lugar, entre o primeiro passo ao sair da cama e o último ao sair pela porta, você agarrou alguma bagagem. Você caminhou até a esteira giratória, e a pegou. A esteira não é aquela do aeroporto; é a da mente. E as malas que agarramos não são feitas de couro; são feitas de encargos. A valise da culpa. O baú de descontentamento. A mochila de ansiedade e a sacola de aflição. Acrescente uma pasta de perfeccionismo, uma mala postal noturna de solidão, e um fardo de medo. Não admira que estejamos tão cansados ao final do dia. E amanhã, quando, pela força do hábito, você pegar de volta a sua bagagem, largue-a de novo. Deponha-a outra vez e novamente, até aquele doce dia em que você descobrirá que não a está pegando de volta. E naquele dia, quando você sentir a carga suspensa, quando houver dado um passo no sentido de viajar sem bagagem, quando tiver energia para ponderar sobre os mistérios da vida, faça-me um favor. Caminhe pelo saguão e vire à esquerda. Espere sua vez atrás das cordas vermelhas. Dê uma boa e longa olhada na Mona Lisa, e diga-me: o que há d especial nela, afinal? (*) Eugenio Santana é self-mad man, versemaker, copydesk; ensaísta, jornalista e escritor.

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