domingo, 4 de novembro de 2012

A FACA E A FERIDA; O BÁLSAMO E A DOR (*)

Li certa vez na “Filosofia da Composição”, de Edgar Allan Poe que “a Beleza é a única província legítima do poema” e que “o tom de sua mais alta manifestação é o tom da tristeza”. A beleza de qualquer espécie, em seu desenvolvimento supremo, invariavelmente provoca na alma sensitiva as lágrimas. A melancolia é, assim, o mais autêntico de todos os tons poéticos. É verdade! Meditei enquanto evocava uma afirmação da poetisa Adélia Prado: “Poesia é a revelação do real, é a coisa mais triste e mais bonita que existe!” É triste, por exemplo, acreditarmos que Deus tomou forma humana em Jesus e que morreu numa cruz para nos salvar, para pagar ao Príncipe que reina neste mundo, o príncipe do poder e do mal, o nosso resgate. É triste, mas é belo, enche-nos de esperança e de consolo, eleva a nossa alma ao céu da gratidão e do amor. Assim é a verdadeira poesia, aquela que nos traz emoções psíquicas breves e intensas, lágrimas de puro prazer. Lembrei-me de quando era adolescente. Tinha como todos os adolescentes uma grande inquietação e oscilava e todo instante entre o riso e o choro. Sentia-me sozinho, franzino, e feio. Tinha dificuldade de me relacionar com as pessoas. Chegava em meu quarto, trancava a porta e punha-me a ler livros e mais livros de filosofia e poesia. São daquele tempo as vozes românticas de Cruz e Sousa, Drummond, Vinícius, Augusto Frederico Schmidt, Manuel Bandeira e Martins Fontes. Eu lia e chorava e entre soluções pensava – eles me entendem, sofrem como eu, a casa da poesia é a minha casa, é onde quero sempre morar. Caímos aqui num ponto crucial: quantos poetas jovens acabaram no suicídio ou se afogaram no desânimo e na depressão; quantos outros tomaram o caminho da rebeldia e se voltaram contra família, moral e religião: Jean-Nicholas Arthur Rimbaud, Maiakovski, Kaváfis, Sílvia Plath, Lord Byron, Baudelaire, Augusto dos Anjos, Hilda Hilst, Florbela Espanca, Fernando Pessoa. A lista é desnecessária e seria muito extensa. Ser poeta é perigoso, é caminhar pelo fio de uma navalha. Qual a saída? A saída é a sublimação da alma através da poesia. A poesia deve ser para o poeta a tábua de salvação e o mar encrespado; a faca e a ferida; o bálsamo e a dor. Há uma grande tristeza intacta no fundo da alma de cada poeta! (*) Eugenio Santana, FRC - é místico rosacruz desde 1983; Escritor: contista, cronista e verse maker; jornalista, copydesk, publicitário, revisor de textos, editor e crítico literário. Autor de livros publicados

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