domingo, 22 de julho de 2012

ALMA SOLITÁRIA E SOLIDÁRIA (*)




Sempre passando ao largo de si mesmo, sem se dar conta de sua presença, foi robotizando as ações diárias. Tudo nele maquinal. Até o sorriso enferrujado.

Acordava e dormia como se o seu dia fosse se desenrolando ao clicar a tecla play de um DVD. Cabeça no travesseiro, lá pela meia-noite e tanta, apertava o stop. E havia aquela incômoda sensação de sempre voltar o filme ao longo das horas.

Então invocou o deus hindu Shiva, o demolidor.

Começou a desarmar a cena pedindo demissão do emprego. Depois levou três dias praticamente em decúbito dorsal pensando em para onde ir. Conhecia cavernas em Sobradinho, na cidade de São Thomé das Letras. Seria um eremita. Para tanto, resolveu que não se desfaria do tapete fora de uso. Ainda que descrente, a visão do velho iogue sobre sua pele de tigre voltou com força. Incapaz de sentar-se sobre qualquer tipo de pele, animal ou humana, serviria aquele tapete roto enrolado atrás da porta.

O passo seguinte foi vender o que possuía. Ou melhor, o que lhe fora emprestado pela vida. De seu, mesmo, só o corpo que trouxera ao nascer. Totalmente nu. Mas nem esse era de fato seu, porque um dia o deixaria para os outros lhe darem destino... Vendeu a cama, as estantes de livros, computador, tevê, som, sofá-cama e o resto dos pertences que não levaria. Até o tapete, pois desistiria da solidão completa. Iria agora em busca dos outros corações. Transformando a alma solitária em solidária. Deu roupas a um amigo, CDs a outra, os livros dividiu entre ambos e, com o quarto assim vazio, sentiu-se livre.

(*)Copidesque/Fragmento/Releitura por Eugenio Santana, FRC