sexta-feira, 13 de julho de 2012

NUNCA ESTAMOS SATISFEITOS (*)




A dor maior que sentimos em nossas perdas é exatamente a dor do apego. Achamos que tudo é nosso e vivemos na ilusão de que tudo depende da gente. Quando nos apegamos a coisas e pessoas, a cargos e a funções, passamos a ter objetivos pequenos demais.

Quando temos muita coisa para olhar e para cuidar, não olhamos para o essencial, aquilo que está além do óbvio.

Cada vez mais o mundo se especializa em criar necessidades e normoses. Antigamente comprava-se o que realmente era imprescindível. Hoje acabamos necessitando de muita coisa. Parece que sem aquilo que foi lançado recentemente a gente é um eterno infeliz e descompensado. Primeiro vem a tentação irresistível de comprar, depois de trocar. Nunca estamos satisfeitos. Aliás, esse é o grande segredo da propaganda comercial: mostrar que você é infeliz e que poderá ser feliz quando adquirir esse ou aquele produto. E os publicitários fazem isso de modo muito atraente. Investem-se milhões em propaganda. O próprio governo federal parece gastar mais em propaganda do que em educação. É uma mina de dinheiro, exatamente porque trabalha com a sensação da insatisfação e com a promessa de curá-la.

Você pode colocar próteses de silicone, fazer cirurgias plásticas, fazer lipoaspiração, pode fazer tudo por fora, mas não existe ainda, e nunca existirá, nenhum silicone ou cirurgia de redução do estômago para emagrecer, nenhum cirurgião capaz de preencher um coração de pedra, murcho, frio, impessoal, vazio e ferido. Não adianta mudar a carcaça, porque isso apodrece.

(*) Copydesk/Fragment By Eugenio Santana, escritor e jornalista. Dedico aos meus amigos cariocas Pedro Bial, Arnaldo Jabor e Carlos Heitor Cony)