sexta-feira, 23 de março de 2012

O FIM DE UM CICLO AMOROSO




Mais uma vez a vida lhe fora ingrata. Agora, ao arrumar as malas tinha ânsias de esmurrar o destino.

Ela dissimulava para si mesma que não era tão grave; afinal, já fizera todas as cobranças, escutara todas as respostas evasivas, enchera os pulmões de gritos amargados no travo da desconfiança.

Levaram as ofensas à exaustão, como se não fosse verdade a paixão que, outrora, os atraíra, os lábios unidos no paroxismo de um ser dentro do outro, a explosão feroz do sexo na leveza ritualística de corpos entranhados em subidas e descidas.

Cessado o fogo da paixão, não souberam aquecer com a lareira cotidiana da delicadeza. Invadiram-lhes o repetir dos dias, a cama trocada pela mesa, os afazeres tragando a ociosidade, mil detalhes funcionais a preencher o espaço em que o romance, qual bordado, se tece pela sutileza de toques, sentimentos e projetos cúmplices.

Não, nada de grave, mas a cegueira das emoções impedia que um enxergasse o outro em sua contida carência. Às vezes, a conversa estendia-se para além das tarefas domésticas e um partilhava suas inquietações e alegrias. Mas, logo o ânimo refluía e a atenção desviava-se, monótona, para o trabalho, a TV, o computador, como um náufrago que se agarra à tábua frágil, mesmo sabendo não poder livrar-se da ilha em que se acha confinado.

Ele tivera ganas de vedar, com seus dedos grossos, aqueles lábios que tanto beijara e, agora, lhe atiravam impropérios. Ela sentiu-se impelida a arrancar de armários e estantes tudo que se associava a ele, enfiar em malas e arrastá-las até o corredor do prédio, num sinal definitivo de caso encerrado.

Tudo salpicado de ironias, duplos sentidos, silêncios tão densos que poderiam ser cortados com tesoura de jardineiro.

Enfim, acertadas as contas, ele decidira partir.

Sortearam os pertences comuns, apesar de saber que, ali, ninguém ganhava.

O diálogo resumia-se a frases curtas sobre a administração futura de bens que não podiam ser imediatamente liquidados. Ela estava triste como ele, mas ambos sabiam que não havia volta. O caminho esgotara-se. A luta terminara e os dois concorrentes guardavam em si a certeza de derrota.

Ninguém se livra dos fantasmas que povoam o avesso da pele, de onde exala o ácido perfume de seus corpos impalpáveis.

(*) EUGENIO SANTANA é Jornalista, Escritor, Ensaísta literário, Publicitário, Assessor de Comunicação, Relações públicas, ex-superintendente de Imprensa no Rio de Janeiro. Integrante da ALNM-MG, UBE/SC, Greenpeace/SP, ADESG-DF. Autor de livros publicados. Dezoito prêmios literários nos gêneros conto, crônica e poesia.