quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

RIO DO TEMPO




Tristeza é parte da vida. Ela é a reação natural da alma diante da perda de algo que se ama. O mundo luminoso e claro – mas há algo, uma perda, que faz tudo ficar triste.
O crepúsculo é uma metáfora do que é a vida: a beleza efêmera das cores que vão mergulhando no escuro da noite.

A alma é um cenário. Por vezes, ela é como uma manhã iluminada e cheia de frescor, inundada de alegria. Por vezes ela é como um pôr de sol, triste e nostálgico. A vida é assim. Mas, se é manhã brilhante o tempo todo, alguma coisa está errada.

Tristeza é preciso. A tristeza torna as pessoas mais ternas. Se for crepúsculo o tempo todo, alguma coisa não está bem. Alegria é preciso. Alegria é a chama que dá vontade de viver.

Eu acho que essa tristeza crepuscular é mais que uma perturbação psicológica. Acho que ela tem a ver com a sensibilidade perante a dimensão trágica da vida. A vida é trágica porque tudo o que a gente ama vai mergulhando no rio do tempo.
“Tudo flui; nada permanece.” A vida é feita de perdas. Fiquei comovido ao folhear o álbum de fotografias de minha família. Aquele tempo passou. Aquela alegria mergulhou no rio do tempo. Não volta mais. Há, assim, um trágico que está ligado a “eventos trágicos”. Está ligado à realidade da própria vida. Tudo o que amamos, tudo o que é belo, passa.

Mas precisamente desse sentimento que surge uma coisa maravilhosa, motivo de riqueza espiritual: a arte. Os artistas são feiticeiros que tentam paralisar o crepúsculo.

Eternizar o efêmero. Todas as vezes que ouço aquela música ou leio aquele poema, o passado ressurge. A beleza da arte nasce da tristeza. Se não houvesse tristeza, não haveria arte. Diz Jobim: “Assim como o poeta só é grande se sofrer...” Certo. Sem tristeza não haveria Cecília, Adélia, Pessoa, Hilda Hilst, Chico Buarque, Drummond, Beethoven, Chopin, Debussy. A obra de arte ou é para exprimir ou para curar o sofrimento.

Mas há um limite. É necessário que a tristeza seja temperada com alegria. Tristeza, só, é muito perigoso. As pessoas começam a desejar morrer. Essa é a razão por que os deprimidos querem dormir o tempo todo. O dormir é uma morte reversível.

Quando a gente está com dor de cabeça, toma tylenol sem vergonha alguma. Quando a gente está com dor de alma, tristeza, algum remédio é preciso – para não querer morrer, para voltar a ter alegria.

(Eugenio Santana é jornalista, escritor, poeta, crítico literário, editor, publicitário e de 2009 a 2011 foi Superintendente de Imprensa no Rio de Janeiro)