quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A MÁSCARA DA INSENSIBILIDADE




Será que é possível não sofrer junto com o outro e ainda assim ajudar e não ser insensível? É claro que sim.

A insensibilidade é uma capa de proteção que as pessoas usam para não ter que lidar com os sentimentos incômodos de pena, culpa e tristeza ao ver o outro sofrer. Assim, as pessoas começam a ficar frias para não sofrer junto com os outros. Quem sente compaixão, não precisa da capa da insensibilidade, pois já está em paz. Ficar em paz é bem diferente de ser insensível. O insensível é frio, às vezes é grosseiro e arrogante e talvez não faça nada para ajudar o próximo.

A pessoa que está no estado da compaixão reconhece o sofrimento do outro, tem um olhar amoroso, mas não sofre junto. E se estiver a seu alcance, fará o que for possível para ajudar e, caso não seja possível, ficará em paz compreendendo profundamente que o sofrimento é uma parte do aprendizado de cada um.

Imagine um médico que, na emergência de um hospital, recebe uma criança como paciente, acidentada em estado grave, que vem sendo trazida pelos seus pais em desespero. O ideal é que ele mantenha a serenidade para que possa ajudar a criança da melhor forma possível. Nesse estado de serenidade, ele pode ser ao mesmo tempo atencioso com a família e enérgico para tomar as providências que tem que ser tomadas. Quanto mais em paz ele se mantiver, melhor. Imagine se ele começar a sofrer junto com os pais dessa criança! Provavelmente, não terá condições de prestar um bom atendimento. Sua saúde será afetada. E ele acabará também levando tristeza para casa, causando sofrimento para a sua família.

Ao ficar em paz, esse médico pode ao mesmo tempo manter um olhar amoroso sobre essa família. A junção desses dois sentimentos é o que define a compaixão com maior propriedade no sentido mais profundo da palavra: ficar em paz ao ver o sofrimento de alguém e ao mesmo tempo em que se mantém um olhar amoroso.

Muitos médicos, por não conseguirem lidar com seu próprio sofrimento ao ver o sofrimento do outro, acabam por adotar uma armadura de insensibilidade e alguns tratam mal seus pacientes e familiares dos mesmos. Podem parecer frios, arrogantes, distantes, mas, na verdade, é um mecanismo de defesa para não entrar em contato com a tristeza, pena, impotência. Essa capa esconde uma grande fragilidade.

(Copydesk/Fragment By Eugenio Santana, jornalista, escritor)