sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

DEIXAR FLUIR...




Inundava de perdões o mal-querer e de afagos essa sórdida tendência de apostar na desgraça alheia. Era dom e não dor. Punha em prática sábias lições de vida: pão que se guarda endurece o coração; a cabeça pensa onde os pés pisam; o contrário do medo não é a coragem, é a fé.

Violava todas as regras da civilidade torpe que nos engravatam de cabrestos e rasgava as etiquetas que nos fazem perder horas em cuidados supérfluos.

Arrancava do pulso as algemas do tempo que nos escraviza ao ritmo implacável de minutos e segundos. Era irresponsavelmente feliz, liberto dessa onipotência que recobre de fúria a excessiva fragilidade.

Deixava o corpo flutuar em alturas alucinógenas. Cobria de carícias suas cicatrizes, desvelando histórias e apreendendo, na ponta dos dedos, seu perfil interior. Não recorria ao bisturi das falsas impressões, nem ao espectro da magreza anoréxica.

Bebia do próprio poço e abria o coração para o anjo da faxina atirar pela janela as feridas do coração.

Dobrava os joelhos ao milagre da vida e contemplava o rosto divino na face daqueles que nunca souberam que cosmo e cosmético são gregas palavras que deitam raízes na mesma beleza.

Proclamava o silêncio como ato de profunda subversão. Desconectado do mundo, eliminava da alma todos os ruídos que inquietam e, vazio de si, plenificava-se n’Aquele que o envolvia por dentro e por fora, por cima e por baixo. Suspendia da mente a profusão de imagens e represava no mantra turbilhão de idéias.

Não mais fazia de seu corpo mero adereço estranho ao espírito. Era uma só unidade, onda e partícula, verso e reverso, anima e animus, yin e yang. Recolhia pelas esquinas todos os corpos indesejados para lavá-los antes que se soltassem de seus casulos e alçassem vôo da eterna idade.

Fazia do seu corpo hóstia viva; do seu sangue, vinho de alegria. Ébrio de efusões e dádivas, enlaçava num amplexo cósmico todos os viventes e, no salão brilhante da Via Láctea, valsava até que a música sideral esgotasse a sinfonia escatológica.

(copydesk/fragment by Eugenio Santana, jornalista, escritor, místico Rosacruz, publicitário, Editor, crítico literário, versemaker, self-mad man; da Adesg e do Greenpeace. Livros publicados; prêmios literários em âmbito nacional)