sábado, 21 de janeiro de 2012

TODO RELACIONAMENTO AFETIVO É DIVIDIDO EM DUAS METADES


O amor é baseado no respeito. O medo não respeita coisa alguma, nem a si mesmo. Se eu sinto pena de uma pessoa, é porque não a respeito. Acho que ela não consegue fazer suas próprias escolhas. No momento em que tenho de escolher por ela, não a estou respeitando. Se eu não respeitá-la, vou tentar controlá-la. Quando dizemos aos nossos filhos como é que eles têm de dirigir a própria vida, na maioria das vezes não os estamos respeitando. Sentimos pena e tentamos fazer por eles o que eles deveriam fazer por si mesmos. Quando eu não me respeito, sinto pena de mim. Acho que não sou bom o bastante para me sair bem neste mundo. Como você sabe que não está se respeitando? Quando diz: “Coitado de mim! Não sou forte, não sou inteligente, não sou bonito. Não, não vou me sair bem”. A autocomiseração vem do desrespeito.

O amor é implacável, não sente pena de ninguém, mas tem compaixão. O medo é cheio de piedade, sente pena de todo mundo. Você tem pena de mim quando não me respeita, quando acha que não sou bastante forte para ser bem sucedido. O amor, por outro lado, respeita. “Amo você, sei que vai conseguir. Sei que é bastante forte, inteligente e bom para fazer suas próprias escolhas. Não preciso escolher por você. Você vai se sair bem. Se cair, posso estender-lhe a mão, ajudá-lo a levantar-se e dizer-lhe para ir em frente.” Isso é compaixão, que não é o mesmo que sentir pena. A compaixão vem do respeito e do amor. Sentir pena vem da falta de respeito e do medo.

Tudo o que pensamos, tudo o que fazemos, tem conseqüência. Se fazemos uma escolha, obtemos um resultado ou uma reação. Se não fazemos nenhuma escolha, também obtemos um resultado ou uma reação. Vamos sentir o efeito de nossos atos, de um jeito ou de outro. Por isso, cada ser humano é completamente responsável por seus atos, mesmo que não queira ser.

Quem caminha pela trilha do amor não tem obrigações nem expectativas. Não sente pena de si mesmo, nem do parceiro. Tudo vai bem para essa pessoa, e é por isso que ela sempre traz um sorriso no rosto. Sente-se bem a respeito de si mesma e, por ser feliz, é gentil. O amor é sempre gentil, e essa gentileza nos torna generosos, abre todas as portas. O amor é generoso. O medo é egoísta e fecha todas as portas.

O amor é incondicional. O medo é cheio de condições. Na trilha do medo, eu amo você, se você deixa que eu o controle, se é bom para mim, se está de acordo com a imagem que faço de você. Crio uma imagem do que você deve ser e, porque você não é, nem nunca será igual a essa imagem eu o julgo e condeno.

Na trilha do amor, todavia, não existe nenhum “se”, não há condições. Amo você sem nenhum motivo, sem justificativas. Amo você do jeito que é, deixando-o livre para ser o que é. Se não gosto do jeito que você é, então é melhor eu procurar a companhia de outra pessoa, que seja do jeito que eu gosto. Não temos o direito de querer mudar quem quer que seja, e ninguém tem o direito de nos querer mudar.

Todo relacionamento é dividido em duas metades. Uma metade é sua, a outra, pode ser de seu filho, sua filha, seu pai, sua mãe, seu amigo, seu parceiro. Você é responsável apenas pela sua metade. Não é responsável pela outra. Não importa o quanto você se sinta ligado à outra pessoa, não importa com que intensidade julgue amá-la, de modo algum poderá ser responsável pelo que existe na mente dela. A verdade é essa, mas o que é que nós fazemos? Tentamos ser responsáveis pela outra metade, e é por isso que os relacionamentos são baseados no medo, no drama, na guerra pelo comando.

Se entramos numa guerra, tentando assumir o comando, é porque não temos respeito.

Não amamos. É tudo puro egoísmo, não amor. Só queremos aquelas pequenas doses que fazem com que nos sintamos bem. Quando não temos respeito, surge a guerra pelo comando, porque cada pessoa sente-se responsável pela outra. Eu preciso controlar você, porque não o respeito. Preciso ser responsável por você, porque qualquer coisa que lhe aconteça vai me ferir, e eu quero evitar a dor. Tento anular sua metade do relacionamento e assumir o controle de tudo. Mas, se assumo o comando do relacionamento inteiro, você perde sua parte. Não, isso não funciona.

Em conjunto, as duas metades compartilham de tudo, criam juntas o mais fantástico sonho. Mas cada uma delas tem um sonho próprio, vontade própria, e a outra, por mais que tente, nunca poderá controlar o que ela sonha, o que quer. Nós temos escolha.

Podemos criar um conflito, uma guerra pelo comando, ou podemos nos tornar companheiros de brincadeiras, colegas de time, que nunca jogarão um contra o outro.

Quando você joga tênis em dupla, tem um parceiro, e vocês dois formam uma equipe. Um não joga contra o outro, nunca. Mesmo que joguem de maneira diferente, têm um mesmo objetivo: divertir-se juntos, com companheirismo. Você não se divertirá, se tiver um parceiro que queira controlar seu modo de jogar, mandando-o fazer isto ou aquilo, dizendo que joga de maneira errada. Logo não desejará mais jogar com aquele parceiro, porque, em vez de fazer parte de uma equipe, ele só quer comandar o jogo.

Sem o conceito de equipe, os dois vão sempre estar em conflito. Tudo começa a melhorar, numa parceria, num relacionamento amoroso, quando as duas partes se vêem como membros e uma equipe. Num relacionamento, como num jogo, a questão não é ganhar ou perder. Jogamos porque desejamos nos divertir.

Podemos falar sobre o amor e escrever mil livros a respeito, mas o amor será algo completamente diferente para cada um de nós, porque temos de experimentá-lo. O amor não tem nada a ver com conceitos, mas com ação. O amor em ação só pode produzir felicidade. O medo em ação só pode produzir sofrimento. O único modo de dominarmos o amor é praticar o amor. Não é necessário justificar o amor que sentimos, ou explicá-lo.

(*) Eugenio Santana, jornalista, escritor. Autor de “Asas da Utopia”, “Guiado pelos Pássaros”, “Florestrela”, “Crepúsculo e Aurora”, entre outros. eugeniosantana9@uol.com.br