segunda-feira, 14 de novembro de 2011

ENTRE O CREPÚSCULO E A AURORA




A divisão entre um dia e outro é decerto uma das mais profundas peculiaridades da vida neste planeta.

Tudo considerado, o arranjo é providencial. Nós estamos condenados a vôos prolongados de existência, mas somos constantemente renovados por breves férias de nós mesmos.

Somos pessoas intermitentes, sempre sucumbindo a pequenos términos e surgindo para novos recomeços.

Nossa consciência facilmente fatigada nos é parcelada em capítulos, e, gostemos ou não desse fato, é geralmente verdade que o mundo parecerá muito diferente amanhã. E que coisa maravilhosa é também o encaixe entre a noite e o sono, doce imagem sua, tão precisamente ajustado à nossa necessidade. Os anjos devem assombrar-se diante desses seres que escapam tão regularmente do estado de consciência para uma escuridão infestada de fantasmas.

Como nossas frágeis identidades sobrevivem a esses hiatos, nenhum filósofo foi ainda capaz de explicar.

A natureza humana possui maravilhosos poderes e nos reserva algo de bom em prontidão para que quando menos esperávamos por isso.

Houve vezes em que adormeci aos prantos, mas em meus sonhos surgiram as mais cativantes formas para me consolar e animar, e levantei-me na manhã seguinte renovado e alegre.

Voltaire diz que os céus nos deram duas coisas para compensar as inúmeras misérias da vida: a "esperança e o sono". Ele poderia ter acrescentado o "riso" à lista.

(Copydesk/fragment by Eugenio Santana, FRC)