sexta-feira, 14 de outubro de 2011

OUSAR, QUERER, AGIR E PERMANECER EM SILÊNCIO




Um instrutor escreveu que o lema de todo neófito da sabedoria eterna é “ousar, querer, agir e permanecer em silêncio”. Os budistas ensinam: “Melhor que mil palavras sem sentido é uma só palavra sensata, capaz de trazer paz àquele que a ouve”. Para eles, ao contrário do que pensam certos apresentadores de TV, “quando não se tem nada de útil a dizer, deve-se guardar um nobre silêncio”.

Quem busca equilíbrio e sabedoria tem fortes motivos para evitar não só o excesso de ruídos físicos, mas também os barulhos emocionais e mentais. A prática do silêncio aumenta o magnetismo pessoal e o poder interior, assim como o barulho e a conversa fútil dissipam energia vital e força magnética. Cada palavra vã ou ociosa que lançamos ao ar nos prejudica. Cada palavra correta que dizemos e cada silêncio adequado que fazemos nos beneficiam.

O silêncio também pode ocultar a verdade. Pode ser uma forma de mentir, de obedecer ao sentimento de medo, de omitir socorro ou fugir da solidariedade.

Nem sempre a arte de falar sem dizer nada é um roubo de energia magnética. Também pode ser uma maneira dinâmica de manter o silêncio interno enquanto se quebra o gelo de um relacionamento e se mantém uma postura amável diante de outra pessoa. Apesar disso, em geral, é melhor ficar quieto do que falar em vão. Não é certo usar palavras como cortina de fumaça.

Por outro lado, há situações que podem quebrar o equilíbrio interior e retirar força magnética positiva, atraindo magnetismos inferiores. Um exemplo claro disso é o que ocorre com as propagandas de TV. O pobre espectador passivo é levado a desejar coisas injustas, inúteis, equivocadas e prejudiciais.

Milhões de pessoas se refugiam do barulho psicologicamente ensurdecedor das suas emoções desordenadas ligando o rádio, a TV ou o aparelho de som a todo volume. Fogem do confronto consigo mesmas distraindo-se com as misérias e dramas, reais ou imaginários, do mundo externo.

A abstenção gradual de filmes ou músicas que agitam as emoções, assim como do rádio e de conversas tolas, é um dos primeiros passos.

O silêncio emocional é a renúncia a todo desejo dispersivo. Ele abre as portas da paz interior. Concentrar-se no que a vida colocou diante de nós é o caminho da sabedoria. Fazer o melhor que podemos a cada instante é o segredo do sucesso.

O som da nossa alma imortal, a música eterna que nunca cessa e que só não escutamos enquanto nossos ouvidos são tapados por nossa agitação pessoal. Quem ouve a voz do silêncio recebe um magnetismo vital de grande poder. Não há fonte de energia maior que o contato com o mundo divino.

Arthur Schoppenhauer escreveu que a inteligência do ser humano parece estar na razão inversa da sua capacidade de suportar barulho. O que o filósofo queria dizer com isso é que a sociedade atual reprime a inteligência espiritual das pessoas. A máquina de circulação de dinheiro não precisa de cidadãos criativos. Ela busca transformar os seres humanos em consumidores ávidos, barulhentos, compulsivos, escravos dos seus desejos criados artificialmente pela própria máquina.

O amor e a amizade profundos andam juntos com a inteligência espiritual. Quando há verdadeira afinidade, as almas se compreendem sem necessidade de muitas palavras. Então o silêncio não causa constrangimento nem precisa ser quebrado com palavras fúteis, porque é cheio de luz e significado. Em geral, perdemos muita energia tentando expressar o que não pode ser dito com palavras.

O amor sublime e a sabedoria suprema existem no silêncio. As palavras podem ir até o nível do supremo, mas o supremo não pode ser trazido para o nível das palavras.
É sempre em um momento de silêncio que brilham o amor, a compreensão e o relâmpago da intuição.

Ao longo da minha vida, os dolorosos fracassos nas tentativas de comunicar oralmente o que havia de mais elevado em mim me ensinaram que o melhor discurso é feito de ações – e me revelaram o poder do silêncio.

(EUGENIO SANTANA, FRC – é escritor, jornalista, poeta, ensaísta literário, publicitário e autor de livros publicados.)