sábado, 22 de outubro de 2011

OS OLHOS DO AMOR




SE TIVERMOS OS OLHOS DO AMOR, veremos apenas amor, aonde quer que formos. As árvores são feitas de amor. Os animais são feitos de amor. A água é feita de amor. Quando captamos o que nos cerca com os olhos do amor, podemos conectar nossa vontade com a vontade de outro sonhador, e os dois sonhos tornam-se um.

Quando vemos com amor, somos um só com os pássaros, com a natureza, com as pessoas, com tudo. Então, podemos ver com os olhos de uma águia, ou nos transformarmos em qualquer tipo de vida. Com nosso amor nos conectamos com a águia e nos tornamos asas, ou chuva, ou nuvens. Para isso, temos de limpar a mente de todo o medo e ver tudo com os olhos do amor. Precisamos desenvolver nossa vontade até que ela seja bastante forte para capturar uma outra vontade, fazendo das duas uma só. Assim, teremos asas para voar. Ou, se nos transformarmos em vento, poderemos ir a qualquer lugar, empurrar as nuvens que escondem o sol, deixando sua luz brilhar. Esse é o poder do amor.

(copydesk/fragment by Eugenio Santana, FRC)

domingo, 16 de outubro de 2011

BLUE




Poucas palavras têm uma carga lírica tão forte quanto a palavra “azul”. Basta colocar o adjetivo azul ao lado de um substantivo para que ele se ilumine, cresça em significados: pássaro azul, luz azul, rosazul, cavalo azul, tarde azul. Essa cor imprime o toque divino, infinito, que faz a alma voar pelo céu e pelo mar:
Colocar um toque de poesia,
de magia
é pintar de azul.
É bom deitar a cabeça numa nuvem
e sonhar azul,
como uma asazul
ou uma rosazul
que se abre de boca para o céu.
Os jornais podem contar que um homem matou a amante,
o poeta vem e diz
que seu vestido era de organdi azul.
O poeta é dono de um tinteiro
e grava de azul as peles,
os lábios dos sexos,
deixando estranhas marcas de abismo.
O poeta é dono de uma estrada
por onde anda nu,
atento,
com seu cavalo azul.
Por enquanto o poeta deixou aqui um pingo azul.

(copydesk/fragment by Eugenio Santana)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

À BEIRA DO RIO DOS TEMPOS, NARCISO DETÉM-SE




Narciso era belo à perfeição e, por isso, era casto. Por estar enamorado de si mesmo, desdenhava as Ninfas. Brisa alguma agitava a fonte, onde Narciso, o dia todo, debruçava-se, tranqüilo, a contemplar sua imagem...

Conheceis a história. Por isso nós a diremos de novo. Todas as coisas já foram ditas, mas como ninguém as escuta, é preciso recomeçar sempre.

Não há mais ribanceira nem fonte: metamorfose ou flor que se mire. Não há nada senão o solitário Narciso, um Narciso apenas sonhador, fechado numa pose de escultura. Ele se inquieta com a inútil monotonia da hora, e, indeciso, seu coração se interroga. O que ele quer, enfim, é saber a forma da sua alma. Se julga por seus demorados estremecimentos, ele sente que ela deve ser adorável em demasia. Seu rosto, porém! Sua imagem! Ah! Não saber alguém se se ama... não conhecer a beleza em si mesmo! Eu me confundo nesta paisagem sem linhas que não contraria seus planos. Ah! Não poder se ver! Um espelho! Um espelho! Um espelho! Um espelho!
E Narciso, que não duvida que sua forma não seja uma porção qualquer, ergue-se e sai à procura dos cobiçados contornos para, enfim, dissimular sua grande alma.

À beira do rio dos tempos, Narciso detém-se. Riacho fatal e ilusório no qual passam e escoam-se os anos. Margens singelas de tosca moldura onde a água se contém como um espelho sem aço, no qual nada se veria por trás, ou por trás do qual o tédio abriria suas asas. Canal morno, letárgico, espelho quase horizontal. Nada poderia distinguir do ambiente descolorido essa água tépida, se não sentíssemos que ela flui.

De longe, Narciso tomou o rio por um caminho. E como se entediava, completamente só nessa embriaguez, aproximou-se para ver passarem as coisas. Com as mãos na moldura, inclina-se agora na postura tradicional. E eis que, na água, porque ele mira, matiza-se, de repente, delicada semelhança.

Flores dos rios, troncos das árvores, fragmentos de céu azul refletidos, tudo numa fuga de rápidas imagens que apenas o aguardam para existir, colorindo-se à vista de seu olhar. A seguir, abrem-se as colinas e as florestas se repartem ao longo dos vales – visões que ondulam ao capricho das cores das águas, e que as ondas diversificam. Narciso olha muito admirado. Mas não compreende bem por que uma e outra se agitam, seja porque sua alma dirige a onda, seja porque a onda a direcione.

Para onde Narciso olha, eis o presente. Do futuro mais recuado, as coisas ainda latentes apressam-se para o ser. Narciso as vê, porque elas passam; esvaem-se no passado.em breve, Narciso conclui ser sempre a mesma coisa. Ele interroga; depois, reflete. Passam sempre as mesmas formas; só o arrebatamento da onda as diferencia.

Por que são tantas; ou antes, por que são as mesmas? Em sendo imperfeitas, recomeçam sempre... e todas elas, pensa ele, esforçam-se e, com força, atiram-se de encontro a uma primeira forma perdida, paradisíaca e cristalina.

Narciso sonha no paraíso.

(copydesk/fragment by Eugenio Santana)

sábado, 1 de outubro de 2011

O RETORNO DO HOLANDÊS VOADOR




O RETORNO DO HOLANDÊS VOADOR


por Eugenio Santana, FRC


Ouve a concha do tempo,
Ouve a voz silente do vento
nas Asas da Memória.
Não há como conter essas águas.
Sementes de mostarda levitam
O casco da Nave ou do Navio?
Fantasmas somos todos, nós.
Nua Utopia desfila cores e presságios
sobre a perplexidade desses seus olhos astutos.
Avante, comandante!
Não existem piratas à vista.
A vitória, o triunfo e a glória
insinuam-se e se mostram
antes mesmo de a guerra começar.
Ele voltou.
Há vestígios de luz
nos mistérios da vastidão do Mar.
O Holandês Voador voltou.
Atracou no cais do porto de sualma
e fotografou suaura.
Um pergaminho revela
aonde encontrar a chave
que abre o Solar
do conhecimento de Rama.
Não há náufrago no convés.
Ao timoneiro, alada mão se eleva
e firme, comanda.
Navios navegam mares.
Obscenos são aqueles
que ficaram no cais.
Obscuros, não assimilaram
a grandeza dos Oceanos.


(*)Fonte: extraído do meu livro “FLORESTRELA”
Hórus/9 Editora, Goiânia-GO, 2002.
Dedicado ao publicitário, músico e poeta
Alcimar Fernandes Pereira (em memória)