quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A PAIXÃO NAUFRAGA NO OCEANO DO CORAÇÃO E O AMOR IMPLODE SENSATEZ E RAZÃO




Se o entendimento do que é mística provoca tanta controvérsia, já a experiência mística é mais freqüente do que supomos. É o desdobramento do ego, o sair de si, o deixar-se possuir pelo outro, o descentrar-se para encontrar o centro no próximo. É a paixão amorosa, o sentir-se irresistivelmente atraído para fora de si mesmo. Alguém faz convergir em sua direção todas as energias do apaixonado, de tal modo que este se deixa impregnar pelo objeto de sua paixão, ainda que não possa vê-lo, ouvi-lo ou tocá-lo. O apaixonado sente-se arrebatado, admite que o âmago de seu ser esteja indelevelmente marcado por aquele outro que não é ele e, no entanto, o faz reviver “fora do corpo”. Isso é o amor. É experiência mística.

O amor apaixonado não decorre da razão. Subverte-a. é enlouquecedor, transcende o raciocínio, a lógica, o discurso conceitualmente articulado dos “bons propósitos”. A razão naufraga nas vagas intempestivas do coração. A afeição implode a sensatez do pensamento. Dentro do corpo o amado sente-se “fora do corpo”. O objeto da paixão (transcendência) irrompe em meu ser (imanência) e resgata-me pelo lado avesso do ser (profundência).

Outra expressão da mística é a arte. Só há verdadeira arte quando se consegue estar “fora do corpo”. No balé os movimentos do corpo são a forma alada de expressar algo intangível, cujo desenho é pincelado pela música e transcende a seqüência dos gestos da bailarina. Não se dança com a cabeça nem com os membros. Dança-se com a alma, numa entrega de si ao ritmo e à melodia que só vibra com densidade artística quando se está “fora do corpo”.

O mesmo ocorre em todas as outras expressões de arte. Mas falemos da que me é mais próxima: a literatura. Não se escreve ficção com a cabeça. Escreve-se com o ser, extraindo do mistério pessoal a narrativa que nos espelha o espírito. Essa narrativa é “fora do corpo”, imponderável e, no entanto, é a Palavra que biblicamente organiza o caos e cria o ser. E essa Palavra vem de “fora do corpo” e vai para “fora do corpo”.

Talvez isso explique um dos fenômenos mais inquietantes da pós-modernidade: a morte da estética. Pois se a modernidade arrancou do palco a fé a substituiu pela razão, a pós-modernidade despreza a razão para idolatrar o corpo. O que importa agora é a “estética” do corpo. É a beleza.

Essa corporalização da estética faz definhar o espírito e opera a inversão de Narciso. Narciso contemplava-se porque era belo. Na inversão não há beleza, há um padrão de formas que suplica reconhecimento aos olhos alheios – o espelho narcísico invertido. Vejam em mim a beleza que julgo ter... a beleza é algo que emana – da pessoa, da pintura, da escultura, da poesia... Não está propriamente no corpo, nas cores da tela, na materialidade da escultura, nas letras do alfabeto unidas em vocábulos no poema. Está “fora do corpo”, porque irrompe do mais profundo do ser e atravessa a corporalidade do artista e de quem é tocado pela obra de arte. Assim, sacia o espírito. É imortal. “Se foi no corpo ou fora do corpo, não sei, Deus é quem sabe.”

(*) por Eugenio Santana – Escritor e Jornalista. Autor de livros publicados. Ex-Superintendente de Imprensa no Rio de Janeiro.