sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A SOLIDÃO DA AMIGA DISTANTE (*)






Tua solidão está retratada
No espelho do teu grande quarto.
Quando miras tua face,
Vês um rosto marcado
por cicatrizes indeléveis
Que o tempo – imperdoável
A ninguém poupa.

Tua solidão está nos lábios
Porque tua voz embargada
Está cansada de tanto desencanto.
A presença deste batom de cor monótona
Mostra - ao contrário do que pensas –
As fissuras indisfarçáveis
Que se aglomeram
À medida que aumenta
A caminhada de tua vida.

Tua solidão está no esboço apagado
Do teu primeiro e único amor
Amor que inutilmente acalentas
Até hoje – na bagagem do teu coração.

A memória – menina-prodígio
Na missão voraz de catalogar
Nossa neuroforia – faz de ti alvo fácil
Na tua trajetória de cidadã do mundo – por circunstância ou opção?

E, eu, amiga-irmã
Não ouso falar-te mais
Da face negra e sombria
Da solidão que devora e exaspera.
Prefiro, entretanto, que coloques no som
Aquele velho álbum do Lennon...

Recostar-me-ei no teu aconchegante regaço
E – unidos – como dois meninos,
Antigos cúmplices,
Falar-te-ei mais um pouquinho de mim
Falarás algo mais de ti.

Quando o sol mostrar-te o caminho
Para mais um dia de luta
Que começa no calidoscópio da rotina
E no calendário inexorável do tempo,
Lembra-te de mim, amiga
Na fumaça esvoaçante do teu cigarro diário
Ou nos néons intermináveis das Avenidas de New York
Que parece não ter fim...

(*) por Eugenio Santana. Fonte: extraído do meu livro "ASAS DA UTOPIA", Santana Edições, 1993, Brasília-DF.)