quinta-feira, 11 de agosto de 2011

PALAVRAS, SEMPRE ELAS A NOS DESAFIAR...





O que é uma Academia de Letras senão o espaço de consagração e celebração da PALAVRA? Se o próprio Universo fora concebido primeiramente via verbis, a palavra precisava mesmo ter seus espaços sagrados, seus guardiões, seus rituais de iniciação. Desde sempre, nos imensos templos, nas modernas academias, nos saraus, nas esquinas e becos sacralizados pelos poetas vagantes, dos mais clássicos, aos mais boêmios, todos a cantaram na voz dos grandes escritores, de Salomão ao mais humilde, muitos se renderam aos encantos desta dama que todos os segredos desvela, que todas as malícias esconde, que todas as emoções declara, que todos os desejos expande. Por elas tudo se diz, com elas tudo se esconde: palavras, palavras! Palavras que ferem e machucam, palavras que acalmam a alma, palavras que alegram ao coração, palavras que dizem o indizível, constroem o mundo.

De tanto que a fazem escorrer como gotas, esvanecerem-se como fumaça, desenhar os movimentos musicais do jazz, com todos os seus improvisos, e, quando se precisa, fazem-na novamente enrijecer-se com a firmeza de uma pirâmide egípcia. Só estes sábios loucos a quem chamamos poetas têm esta coragem de confiscar segredos, ritmos e efeitos que a linguagem esconde.

As mídias impressas e eletrônicas dão espaço constante para a repetição dos velhos truques gramaticais, enquanto a discussão sobre a língua que o povo fala, na rua, na internet, nas novelas, não é objeto de reflexão institucionalizada.

E o povo que não fala correto, e o jovem que está sendo tomado pelo internetês, não têm espaço no mundo da linguagem? O perigo disso é que a exclusão lingüística gera a exclusão socioeconômica.

A preservação da cultura erudita é objetivo de valor inquestionável, faz parte do patrimônio histórico cultural de nossa nação, e as Academias têm-no como missão precípua, mas todo bom acadêmico sabe que mesmo esta cultura não se faz com o purismo isento da influência popular. Então, salve a linguagem em todas as suas manifestações! Isso é uma maneira de expressar meu jeito de estar no mundo, entendendo que os pequenos falam, cantam, compõem, reivindicam, negam, afirmam, negam-se e afirmam-se. Compreendo que não é papel das Academias assumirem as atribuições da escola; e também não podem ser ambientes de manutenção do preconceito lingüístico.

Às Academias competem outras tarefas, além das já mencionadas. E a história mostra que têm desempenhado um papel importante na organização de eventos, na promoção de concursos literários, e outros que servem para divulgar a cultura regional e nacional, despertar o interesse de jovens pela literatura e incentivar a criação de novas agremiações culturais. Porque a importância da arte da palavra é indiscutível. A arte melhora o mundo, reafirma crenças, influencia as épocas e renova os pensares.

Talvez mais felizes fôssemos se conseguíssemos mesclar um pouco da agudez intelectual de Machado de Assis, com o finíssimo classicismo de Camões, a sensibilidade de Cecília Meireles, a capacidade de virar o mundo ao avesso de Clarice Lispector, o jeito de tirar poesia de onde ninguém mais tirou de Augusto dos Anjos, de dizer da terra, dos pássaros, das formigas e lesmas, de Manoel de Barros. Todos eles em sua vã luta com as palavras, como diria Drummond. Palavras, sempre elas a nos desafiar; aceitemos, então, este grande desafio!

(fragment/copydesk/releitura by Eugenio Santana - Membro efetivo da Academia de Letras do Noroeste de Minas (ALNM), cadeira número 2.)