quinta-feira, 21 de julho de 2011

TODA VIAGEM É UM ATO SAGRADO, E TODO VIAJANTE É UM HERÓI INQUIETO




Viajar, pelo mundo ou por dentro de si mesmo, é fundamental para os processos do crescimento pessoal e do autoconhecimento. Por quê? Em primeiro lugar, porque tomar contato com lugares desconhecidos, pelo simples fato de tirar a pessoa do seu cotidiano habitual, obrigando-a a estar mais desperta e atenta, representa a oportunidade de pôr em prática a capacidade de adaptar-se a situações novas. Adaptabilidade é o melhor sinônimo de inteligência: sem a capacidade de adaptação aplicada a qualquer situação da vida, não se vai longe no aprendizado da relação harmoniosa consigo mesmo e com o mundo.

Qualquer psicólogo, filósofo ou poeta sabe que o simbolismo da viagem, num enfoque ao mesmo tempo psicológico e transcendental, representa a procura e a descoberta de um centro espiritual interno. Aquilo que Carl Gustav Jung chamava de “self” e Gautama Buda chamava de “eu superior”. A viagem exprime também um desejo profundo de transformação interior que se projeta no desejo da viagem exterior. Representa, mais que um simples deslocamento físico no espaço e no tempo, a necessidade de experiências novas e renovadas. Como conseqüência, entende-se que estudar, investigar, procurar intensamente o novo e o oculto, são também modalidades de viajar, ou seja, equivalentes espirituais e simbólicos da viagem.

Partir para o desconhecido pode ser assustador. Mas, para quem tem na alma a inquietude do vento, o desejo da descoberta supera o medo e instiga a caminhada. Empurra o peregrino em direção à meta sagrada e secreta, o seu Shangri-lá pessoal.
Toda viagem é um ato sagrado, e todo viajante é um herói inquieto. Quem viaja busca, mesmo sem o saber, o seu próprio self, a conexão com alguma forma de divindade. Por isso tantas epopéias religiosas e espirituais estão ligadas à idéia de viagem. Os cavaleiros medievais em busca da Terra Santa ou do Santo Graal; os argonautas gregos à procura do velocino de ouro; o herói Ulisses na sua odisséia de retorno à ilha de Ítaca; os peregrinos de todos os tempos e lugares que vão a Roma, a Santiago de Compostela, a Jerusalém ou ao santuário de Aparecida do Norte e ao Divino Pai Eterno, em Trindade; todos caminham em direção a seu centro espiritual, a seu self.

“Os verdadeiros viajantes são aqueles que partem por partir”, disse o poeta Baudelaire, definindo de modo exemplar a figura do peregrino. Se partirmos depositando toda nossa expectativa nas eventuais gratificações que nos esperam ao atingirmos o alvo final, estaremos desatentos e perderemos a miríade de pequenas e grandes vivências que nos aguardam perfiladas ao longo das estradas.

A importância da viagem no processo iniciático das diferentes religiões e escolas de sabedoria, tanto orientais quanto ocidentais, foi sempre amplamente reconhecida e preconizada. Algumas escolas esotéricas impõem a seus membros que viajem continuamente. De modo geral considera-se que a fixação do neófito em hábitos cotidianos repetitivos constitui um deletério fator de “adormecimento” que entorpece e até impede o processo do “despertar” espiritual. Viagens súbitas, inesperadas, e às vezes temerárias nas quais o neófito vê-se subitamente atirado, costumam fazer parte de uma série de provas preparatórias para as etapas mais avançadas da iniciação.

Toda viagem no mundo exterior corresponde, de algum modo, a uma experiência no mundo interior. E toda aventura no mundo interior modifica nossa percepção do mundo exterior. Convém ter sempre isso em mente quando se coloca o pé na estrada, para que o aproveitamento seja o melhor possível.

E os turistas que partem em férias, os viajantes de fim de semana cujo objetivo declarado resume-se à vontade de respirar ar puro ou tomar um simples banho de mar, estarão também cumprindo, sem o saber, algum rito secreto de transformação e de crescimento interior por meio do movimento da viagem? Certamente. O desejo de movimento está sempre associado à dinâmica da vida.

Toda viagem implica movimento, e todo movimento é, em última análise, uma viagem. Até um simples passeio ao redor do quarteirão pode ser enriquecedor. Com uma condição: de que seja feito com a consciência desperta, com os sentidos ligados e o coração limpo como o coração das crianças. Quando nos acostumamos a viajar desse modo, a vida, mesmo em seus episódios mais banais, transforma-se numa permanente e excitante viagem. E Mercúrio, alado nos pés, é o deus dos viajantes.

(*) Eugenio Santana é escritor, jornalista, ensaísta, publicitário, copydesk, versemaker; self-mad man. Livros publicados; 18 prêmios literários em âmbito nacional. Sócio efetivo da Associação Catarinense de Imprensa (ACI) e da Associação Fluminense de Jornalistas (AFJ). Ex-superintendente de Imprensa do Governo do Rio de Janeiro.