quinta-feira, 28 de julho de 2011

SAUDADES DE AMORES TATUADOS NA ASAS DO CORAÇÃO




Saudade é guardar no peito uma presença invisível. É ruminar reminiscências, é o passar e o repassar das memórias antigas.

Saudade é a nostalgia de um bem. A evocação de uma felicidade real ou imaginária. A memória do coração. Sentimos saudades de bons momentos da infância, da escola, de amigos embaralhados pelo jogo da vida e perdidos de vista. Saudades de amores tatuados nas asas do coração, nos recônditos da memória, no segredos do corpo. Saudades confessáveis e inconfessáveis, até mesmo de sonhos tão intensos que parecem reais.

Experiências do passado não admitem ambigüidades. Queremos sepultá-las para sempre ou preservamos delas uma visão idílica. Miramos a infância e volvemos, saudosos, ao cheiro doce da garapa, ao sabor das jabuticabas comidas no pé, à liberdade dos passeios a cavalo, aos bailes onde todos eram príncipes e princesas.

São nossas "madeleines". Despertam acalantos e aconchegos, sabores e saberes, e o confortável prazer de ser feliz e ainda ter a certeza de que toda a vida estende-se ao futuro de nossos dias.

Nutrimos secretas saudades de um sapato que caía bem aos pés, de um agasalho que nos imprimia personalidade, da prática de um esporte que comprovava nossa jovialidade.

Somos resultado de vivências que nos moldaram. Marcas indeléveis tão definitivas quanto as nossas rugas. E, perdidas certas experiências, queda o vazio. Nele brota a saudade. A volátil tentativa de preencher o que já não é nem há e, no entanto, faz-se presente pela memória.

Saudades de uma música que nos inebria de emoções, de uma pessoa que desapareceu na roda da vida e do ser que somos e nunca assumimos. Saudades de momentos tecidos de silêncio, de pessoas cuja presença nos incutia confiança e ternura.

(EUGENIO SANTANA - Escritor, jornalista, poeta, ensaísta, publicitário)