quinta-feira, 21 de julho de 2011

SERÁ AMOR O QUE SE ESQUIVA À FALA?




Que amor é esse que, desperto, dorme
e quando acorda faz-se ambíguo sonho,
transfigurando o belo no medonho
e em noite espessa a vida multiforme?
Então amor é só o que suponho,
o que não digo por ser tão informe
que fôrma alguma lhe é jamais conforme
como este molde em que teimoso o ponho?
Será amor o que se esquiva à fala
ou à linguagem que o pretende claro?
E o que seria esse tremor mais raro
que ao aflorar parece que se cala?
Amor oblíquo que olha de soslaio,
mas que ilumina e queima como raio...

Que sabem os deuses desse amor terreno,
ungido de luxúria e de apetência,
que ofende como um fauno a transcendência
e que, enquanto humano, se quer pleno?
Que sabem eles do ácido veneno
que o ser absorve em lúdica demência
e em luz dissolve a trôpega existência
desse bicho da terra tão pequeno?
De nada sabem os deuses nem o inventam:
antes maldizem essa abissal loucura
dos que no amor se ferem e se atormentam,
e nele espiam a solidão mais dura...
Os que trocaram o céu pelos infernos
e, mais que os deuses, se fizeram eternos!

Eu te amo tanto que esse amor assume
ambíguas formas de ancestrais criaturas:
ora é uma harpia que me vem a lume,
ora uma infanta entre órficas figuras;
aqui uma espádua de ondulante gume,
ali uma cunha de ósseas tessituras;
adiante um púbis que se alteia implume,
abaixo um tufo de ervas e nervuras.
Eu te amo assim como quem segue o rumo
de algo que rola para sempre ao fundo
em busca do que outrora lhe era o sumo
e agora, à superfície, é todo mundo.
E te amo além porque te sei perdida,
e mais te amara fosse eterna a vida.

(fragmento/copidesque/releitura por Eugenio Santana)