quarta-feira, 8 de junho de 2011

ÓRFÃO DE MIMESMO




Minha mãe está morta e os pássaros
ainda cantam, cantam, como que me chamando
para os seus ninhos de ternura e sinfonias,
como que me convocando para
os seus esconderijos de infância e levitações.
Mas estou afônico e surdo. Está silente e inaudível
o pouco que restava em mim de íntimo
da infância mineira e seus desvãos e seus cerrados.
Sigo sozinho, e minhas pernas estão geladas,
frias, e o chão me foge aos pés de Hermes, me foge
e mal arrasto tanto peso sob os ombros
de súbito caído, vazio e inerte, no
coração vazio... Minha mãe está morta - fora do combate.
Antes, era simples partir sabendo sempre
para onde regressar. Era simples sair
pelo mundo batendo a cabeça contra
as paredes do tempo, e em algum lugar um dia
poder sobre um regaço descansar
o sono dos muitos sonhos gastos.
Mas minha mãe está morta, as duas mãos
que me levavam em meio às muitas sombras
até à sombra de Deus, assim que me doíam
as feridas da vida... E agora, vou como
um andarilho sem rumo em meio a trevas e golpes
na estrada do imprevisto; vou como
guinchado por pernas como
amputadas do meu corpo como
guilhotinado de mim, e, órfão de mimesmo,
onde vá eu chego à vastidão
ínfimo espaço onde
minha mãe está morta.

(copidesque/releitura Eugenio Santana. Em memória de minha adorável mãe Adília Sant'anna.)

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