segunda-feira, 6 de junho de 2011

FRAGMENTO DO DESENCANTO E DA AMARGURA




O dia da linguagem universal há de chegar... Essa linguagem falará de alma para alma, resumindo todos os perfumes, sons, cores, ligando todo o pensamento.
Longe de mim o desejo de perverter tuas esperanças: a vida se encarregará disso. Como todo mundo, irás de decepção em decepção. Com tua idade tive a vantagem de ter gente que me desiludiu e que me fez enrubescer de minhas ilusões; eles me educaram realmente.
A injustiça governa o universo. Tudo o que nele se constrói, tudo o que nele se desfaz, leva a marca de uma fragilidade imunda, como se a matéria fosse o fruto de um escândalo no seio do nada. Cada ser se nutre da agonia de outro ser: os instantes se precipitam como vampiros sobre a anemia do tempo; o mundo é um receptáculo de soluços.
A função dos olhos não é ver, e sim, chorar; e para ver, realmente, é preciso fechá-los: é a condição do êxtase, da única visão reveladora, no momento em que a percepção se esgota no horror do já visto, do irreparavelmente sabido desde sempre.
O importante é mandar: esta é a aspiração de quase todos os homens. Somente os mendigos e os sábios não a experimentam; a não ser que seus jogos sejam ainda mais sutis...
As ideologias foram inventadas para dar um brilho ao fundo de barbárie que se mantém por meio dos séculos, para cobrir as inclinações assassinas comuns a todos os homens.
A Árvore da Vida não conhecerá mais primavera: é um tronco seco; com ela farão urnas para nossos ossos, nossos sonhos e nossas dores do mundo.
Somos os últimos: cansados do futuro, e ainda mais de nós mesmos, esprememos o suco da terra e despimos os céus. Nem a matéria nem o espírito podem seguir alimentando nossos sonhos: este universo está tão seco como nossos corações. Já não existe substância em nenhuma parte: nossos antepassados nos legaram sua alma esfarrapada e sua medula carcomida. A aventura chega ao fim; a consciência expira; nossos cantos se desvanecem, já brilha o sol dos moribundos!
A amargura, princípio de tua determinação, teu modo de atuar e de compreender, é o único ponto fixo em tua oscilação entre o asco do mundo e a compaixão por ti mesmo.
A única função do amor é a de ajudar-nos a suportar essas tardes de domingo, cruéis e intermináveis, que nos ferem para o resto da semana e para toda eternidade.
Neste mundo nada está em seu lugar, começando pelo próprio mundo. Não há que assombrar-se então com o espetáculo da injustiça humana. É igualmente inútil repudiar ou aceitar a ordem-social: somos obrigados a sofrer suas mutações, para melhor ou para pior, com um conformismo desesperado, como sofremos com nascimento, amor, clima ou morte.

(Copy-desk/fragmento/releitura por EUGENIO SANTANA, FRC - Escritor, Ensaísta literário e Jornalista profissional.)

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