quarta-feira, 20 de abril de 2011

VI, VIVI, OUVI, OBSERVEI, TRANSCENDI; VOEI...





A TRAGÉDIA FAZ EMERGIR forças insuspeitadas em algumas pessoas. Por mais devorador que seja, o mesmo sofrimento que derruba faz voltar a crescer.

NÃO VOU ME ALEGRAR jantando fora quando perdi meu amor, perdi minha saúde, perdi meu amigo, perdi meu emprego, perdi minha utopia... perdi algo que dói, fere e machuca, seja o que for.

PERMITAM-ME O LUTO NO PERÍODO SENSATO. Me ajudem não interferindo demais. O telefonema, a flor, a visita, o abraço, sim, mas por favor, não me peçam alegria sempre e sem trégua.
Se não formos demais doentes nem perversos, a dor por fim se consumirá em si mesma.
Alguma coisa positiva vai nos fazer dar o primeiro passo para fora da UTI emocional em que a perda nos colocou. Um dia espiamos para o corredor, passamos da UTI para um quarto, finalmente olhamos a rua e estamos de novo em movimento.

A PERDA DO AMOR pelo fim do amor, por abandono ou traição, supera toda a nossa filosofia de vida, nossos valores, independe de nós.
Nada conforta, nada consola. Como o outro está ainda ali, vivo, talvez com outra pessoa, nossa mágoa e sentimento de rejeição se misturam ao inconformismo e às tentativas, eventualmente inúteis, de recuperarmos quem não nos quer mais.

Muitas vezes, mais do que sonhávamos, um novo amor nos aguarda. Quando ele não aparece e se esgota o tempo, embora sempre seja tempo de amar - mesmo com 80 anos -, aprendemos que há outras formas de amar. Não substituem mas iluminam: amigos, família, alguma novidade, um interesse, uma viagem.

SOMOS MAIS que corpo e ansiedade: somos mistério, o que nos torna maiores do que pensamos ser - maiores do que os nossos medos.
Foi-se a cada vez um pedaço importante de mim. Mas como em certos animais, as partes perdidas se refizeram, diferentes - não me sinto mutilado, embora a cada dia sinta em mim aqueles espaços vazios que não voltarão a ser ocupados.
Aprendi que a melhor homenagem que posso fazer a quem se foi é viver como ele gostaria que eu vivesse: bem, integralmente, saudavelmente, com alegrias possíveis e projetos e planos até impossíveis.

VAMOS PERDENDO capacidade de sermos integrados com o universo, mesmo o minúsculo universo de um pedaço de jardim ou quarto de criança. E nos privamos do necessário recolhimento que algumas vezes nos reabasteceria com o combustível da reflexão, do silêncio e do sentimento mais natural das coisas.
Nesta casa de agora, afetos essenciais povoam. Não há isolamento. Amigos de qualquer idade também vêm me ver. Alguns por assuntos triviais e alegres. Outros por angústias severas com as quais na juventude eu certamente não saberia lidar. Na maior parte das vezes não sei o que lhes dizer.
Nenhuma sugestão, nenhuma frase brilhante. Mas talvez sintam que a esta altura vi,vivi, ouvi, observei, transcendi; voei.
Pouco me surpreende.
Quase nada me deixa impactado.
Tudo me toca, me assusta e me comove: o mais comum, e o mais insólito. Tudo forma o cenário e caminho. Que a maturidade - ou a idade-do-lobo? -, me fez amar com menos ansiedade e quem sabe menos futilidade - não menos alegria.

NÃO É NATURAL proibir-se de viver por causa da opinião alheia. Não é natural envergonhar-se de amar, desejar, em qualquer idade. É inatural não ter mais projetos aos 70 anos.
O essencial é que a que estou vivendo seja "a minha vida": não aquela que os outros, a sociedade, a mídia querem impor.

(copy-desk by EUGENIO SANTANA, FRC - Escritor e Jornalista. Membro efetivo da ALNM -Academia de Letras do Noroeste de Minas, cadeira nº 2)

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