sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A CADA MANHÃ, O RENASCER. ESTAR VIVO É MILAGRE PERMANENTE




Entre mortos e feridos, cascatas de pedras a atulhar esperanças, o grito alucinado frente à enxurrada de mazelas, estou vivo. Estar vivo é milagre constante. Por muito pouco a vida se esvai: um coágulo de sangue no cérebro, um tropeção, o vírus, o tiro, o acidente de trânsito, um acaso, o esgarçamento ético, a desprovisão moral.
A cada manhã, o renascer. Agora sei por que o bebê faz manha à hora em que o sono começa a vencer-lhe a resistência. Teme a morte, a segregação do aconchego, o retorno às cavernas uterinas. O sono apaga-lhe os sentidos, a consciência, o (con)tato com mãos e olhares afetuosos.
Crescer é dormir sem medo. Confiante de que há de se acordar no dia seguinte. Quero despertar amanhã e espero que não apenas do sono. Também dessa letargia que me acossa, desse propósito de inconsistência que me assalta, dessa lúgubre angústia de andarilho que, além de perder o mapa, perdeu-se no mapa.
De minhas ranhuras brota delicado som de flauta. Não sou dado ao absinto e sei que a vida é aposta. Todas as minhas fichas estão postas no tabuleiro dos deserdados. Jogo ao lado dos perdedores. É apenas isto que me interessa: ao faminto, o pão e a paz. De que valem todos os poderes do mundo se não enchem um prato de comida? De que valem todos os reinos se não plenificam a alma com o gosto da uva?
Não sou engaiolador de pássaros. Quero-os vivos, o vôo arisco enrugando ventos. Quero-os saltitantes entre flores que cultivo em meu canteiro íntimo. Quero-os gorjeando melodias matutinas. Quero-os despertando-me, sem, contudo me provocarem a vertigem das alturas.
Chega de abortos! Quero a vida despontando na cidadania inelutável, na teimosia dos inconformados, na ociosidade intemporal dos mendigos, nas mulheres condenadas a bordar dores incolores, na despossuída humilhação dos que clamam por um pedaço de terra, de chão, de casa, de direito. Tenhamos todos acesso à vida, distribuída à farta como pão quente pela manhã, sem jamais temer as intermitências da morte.
Quero um tempo dos livros saboreados como pipoca, o corpo saciado de apetites, a mente livre de despautérios, o espírito matriculado num corpo de baile, ao som dos mistérios mais profundos. E de pássaros orquestrados pela aurora, rios desnudados pela transparência das águas, pulmões exultantes de ar puro e mesa farta de manjares dionisíacos.
Reparto meu pão com soldadores de afetos, dançarinos trôpegos de incertezas, duendes que povoam alucinados meu imaginário, musas incorrigíveis de meu crochê literário, anjos protetores de minha débil fé e magos que revelam o pior de mim mesmo. Neste mundo desencantado, mas não redimido, nele sorvo a minha redenção como as anfípodas que, no fundo dos oceanos, se banqueteiam de flocos de matéria orgânica.

(por EUGENIO SANTANA - escritor laureado e autor de livros publicados; jornalista profissional de mídia impressa; poeta, publicitário e editor. Membro efetivo da Academia de Letras do Noroeste de Minas (ALNM), cadeira número dois; sócio efetivo da UBE/SC-GO – União Brasileira de Escritores. Escrevo e publico a partir dos 16 anos de idade, com um só propósito: transmitir VERBO DE LUZ que possa acrescentar algo na vida dos meus leitores. Busco a Transcendência através da Literatura em seus variados gêneros. Escrever é minha Missão.)

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