sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

INQUIETAÇÕES METAFÍSICAS, UM SABER REPLETO DE SABOR




A vida é substancialmente o que não se vê. Planta raízes no mais profundo de nós mesmos, no labirinto que, pelos meandros da alma, nos conduz ao jardim mais secreto.
Em 14 de junho de 2006 fez 20 anos que Jorge Luis Borges, arquiteto de interiores, reencantou-se, anjo de luz que sempre foi. Resta-nos o inestimável legado literário, tecido em contos fantásticos, inquietações metafísicas, um saber repleto de sabor.
A literatura sobrevive a seus autores quando feita de interiores. A perenidade do teatro grego e também de Guimarães Rosa, Dante, Cervantes, Shakespeare, Dostoiévski, T.S. Eliot, W.B. Yats, Drummond, Quintana, Hilda Hilst, Clarice Lispector, Rimbaud, Neruda, Thiago de Melo, Fernando Pessoa, Baudelaire ou Machado de Assis reside no talento capaz de fazer da pena o estilete a penetrar interiores e pinçar, lá no fundo, os fantasmas que habitam os porões da alma humana.
Somos interiores exilados nessa sociedade do óbvio, onde flutua à superfície dejetos numa poça d’água infecta. O entretenimento, disfarçado de cultura pós-moderna, analfabeto em matéria de espiritualidade, objetiva e reifica-nos o ser, vulnerável ao estupro do que há em nós de mais essencial.
As linhas do novo carro são tão sensuais quanto às da modelo exposta no sofisticado açougue do voyeurismo. Artistas se transformam em meros acessórios de produtos, o político vale pelo visual, rompe-se o limite entre o necessário e o supérfluo.
Agora, tudo é produzido: o sorriso do empresário, o gesto do atleta, a postura da deputada. Devassados em nosso interior, deambulamos como ébrios pelas veredas da vida, cegos pelo excesso de luz. Há tantos ruídos que nossos ouvidos já não distinguem sons. Onde o murmurar do riacho, o gemido das pedras levadas pela cachoeira, o rumor inconsolável da maré retornando suas ondas no limite da praia, o farfalhar das árvores escovadas pelas asas do vento?
Perdemos a memória de nossos sabores ancestrais: o cheiro da calda açucarada, do pão quente e do assado gordurosamente temperado. Condenados ao fast-food, qual filme de Chaplin somos rápidos em tudo. Amamos sôfregos, trabalhamos ansiosos, conversamos gagos de preocupações, vivemos aprisionados pelo ritmo alucinado dessa sociedade que se vangloria estupidamente de ser competitiva. No horizonte oco sobressai o medo de que a doença nos atinja, os filhos sejam proscritos do futuro, o dinheiro escasseie, a violência nos vitime.
Medo, no lugar de esperança, entusiasmo, otimismo e fé.
Quem edificou essa Torre de Babel? Borges, que na falta de olhos para enxergar tanto aguçou o espírito, diria: nossa cegueira pontilhada de ilusões consumistas, de sonhos inatingíveis, de ambições ególatras. Aos 78 anos de idade, numa conferência na Universidade de Belgrano sobre “A imortalidade”, ele acentuava que “se o tempo é infinito, em qualquer momento estamos no centro do tempo.”

(por EUGENIO SANTANA - escritor laureado e autor de livros publicados; jornalista profissional de mídia impressa; poeta, publicitário e editor. Membro efetivo da Academia de Letras do Noroeste de Minas (ALNM), cadeira número dois; sócio efetivo da UBE/SC-GO – União Brasileira de Escritores. Escrevo e publico a partir dos 16 anos de idade, com um só propósito: transmitir VERBO DE LUZ que possa acrescentar algo na vida dos meus leitores. Busco a Transcendência através da Literatura em seus variados gêneros. Escrever é minha Missão.)

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