quarta-feira, 8 de setembro de 2010

VÔOS E MIRAÇÕES - O PÁSSARO ORIGINAL


As condições de um pássaro solitário são cinco:
Primeiro, que ele voe ao ponto mais alto;
Segundo, que não anseie por companhia, nem a
De sua própria espécie;
Terceiro, que dirija seu bico para os céus;
Quarto, que não tenha uma cor definida;
Quinto, que tenha um canto muito suave.

O medo e a ousadia se equilibram. Ousadia, quando saímos a campo aberto para caçar o Poder. Medo, quando a posição se inverte e somos por ele caçados.
Um pássaro original é, necessariamente, um pássaro solitário, posto que carece até da companhia dos de sua espécie. E das alturas máximas, onde vive, não teme enxergar as coisas por prisma, até então, desconhecido. E canta suave, agradecendo ao Poder que o sustenta em sua originalidade. A ausência de cor definida serve para se manter incógnito. Como arauto do Poder, à semelhança dos animais mágicos sem rotina, ele só aparece aos demais seres como um presságio, um emissário.
A última condição, dirigir o bico para os céus, eu compreendia muito bem. Quando me transformara em um condor, esse preceito se revelara para mim, possuído de lógica irretorquível. Mas seria necessário tornar à condição de pássaro para explicar isso.
A viagem no Daime, rumo às raízes perdidas da condição humana e da criação do Universo, nos fazia pássaros originais. Ora em bandos, ora sozinhos, decifrando, em cada coisa viva, os sinais de tempos muito remotos, quando a chave do mistério era muito mais clara.
Tudo isso era muito fascinante, mas, igualmente, muito penoso. Pois, como diria D. Juan:
“A arte de ser um guerreiro é equilibrar o terror de ser homem com a maravilha de ser homem.”
O ser que habitava no Daime, e que servia do nosso corpo e da nossa mente para se revelar, expunha, a cada passo, a nossa fragilidade e a nossa força, a ambigüidade dessa condição oscilante.
Como que saído de um transe, abandonei minhas reflexões. Um imenso gavião levantou vôo de um pinheiro. Era um pássaro original e solitário, que viera ali confirmar tudo.
Com esse espírito, me senti animado a continuar o meu caminho. E o meu Diário. Nele, ia anotando os acontecimentos mais significativos, em cada sessão de trabalho.

(Eugenio Santana, FRC – copy-desk/fragmento.)

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