segunda-feira, 16 de agosto de 2010

MÁXIMA, QUALIDADE.MÍNIMA, QUANTIDADE - A VIDA E OS LIVROS


Na verdade não tenho muitos livros: há alguns anos, fiz certas escolhas na vida, guiado pela idéia de procurar ter no máximo de qualidade, com o mínimo de coisas. Não quer dizer que tenha optado por uma vida monástica: muito pelo contrário, quando não somos obrigados a possuir uma infinidade de objetos, temos uma liberdade imensa. Alguns de meus amigos (e amigas) reclamam que, por causa do excesso de roupas, perdem horas de suas vidas tentando escolher o que vestir. Como resumi meu guarda-roupa a um “blue jeans básico da Levis”, não necessito enfrentar este problema.

Mas não estou aqui para falar de moda, e sim de livros. Para voltar ao essencial, decidi manter apenas 109 livros em minha biblioteca – alguns por razões sentimentais, outros porque estou sempre relendo. Tal decisão foi tomada por diversos motivos, e um deles é a tristeza de ver como bibliotecas acumuladas cuidadosamente durante a vida são depois vendidas a peso, sem qualquer respeito. Outra razão: por que manter todos estes volumes em casa? Para mostrar aos amigos que sou culto – intelectual? Para ornamentar a parede? Os livros que comprei serão infinitamente mais úteis em uma biblioteca pública que em minha casa Anapolina.

Antigamente, poderia dizer: preciso deles porque vou consultá-los. Mas hoje em dia, quando há necessidade de qualquer informação, conecto o computador portátil, digito uma palavra-chave, e diante de mim aparece tudo que preciso. Ali está a internet, a maior biblioteca do planetazul. Claro que continuo comprando livros – não existe meio eletrônico que consiga substituí-lo. Mas assim que termino, deixo que ele viaje, dou para alguém, ou entrego em uma biblioteca pública. Minha intenção não é salvar florestas ou ser generoso: apenas creio que um livro tem um percurso próprio, e não pode ser condenado a ficar imóvel em uma estante.

Sendo escritor, posso estar advogando contra mim mesmo – afinal, quanto mais livros comprassem, mais dinheiro ganharia. Todavia, seria injusto com o leitor, principalmente em países onde grande parte dos programas governamentais de compras para bibliotecas é feito sem usar o critério básico de uma escolha séria: o prazer da leitura com a qualidade do texto.

Deixemos, pois, nossos livros viajarem, serem tocados por outras mãos, e desfrutados por olhos alheios. Lembro-me vagamente de um poema de Jorge Luis Borges que fala dos livros que jamais tornarão a ser abertos. Por acaso, tenho alguns livros de Borges – é um escritor que estou constantemente relendo.
Há uma linha de Verlaine que nunca mais me lembrarei.
Há um espelho que já me viu pela última vez.
Há uma porta fechada até o final dos tempos.
Entre os livros de minha biblioteca
Há algum que já não tornarei a abrir.

(Eugenio Santana, FRC – Fragmento/Copy-Desk.)

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