sábado, 3 de julho de 2010

OS DESCAMINHOS DE MÁRIO (*)


Beirava meio dia e Mário está sentado no tronco, embaixo do Ipê roxo, aproveitando a sombra da árvore benfazeja – sentindo o opróbrio da barriga cheia, empanturrada do almoço farto – um ensopado de surubim, fruto da pesca no São Chico, feito no capricho pela solícita negra Terência, que o serve há mais de três lustros...

Deixa escapulir, involuntariamente, um sonoro arroto. Olha para todos os lados e diz em alto e bom som, para si mesmo: - “gases!”.

Sua casa, de frente para o largo, com duas janelas protegidas por uma tela fina e um portão lateral – um caramanchão antigo que vem pelo alpendre, mostra uma trepadeira que tem o dom de florir o ano todo.

Está de frente para a praça da Matriz, e, logo após se entrevê a barranca do grande rio. É sábado e ele não tem absolutamente nada para se ocupar, como de resto todo o populacho da cidadezinha, que àquela hora jaz escornado em camas e redes para à sesta.

A cidadezinha pára do meio dia às três da tarde, por um costume que ninguém sabe explicar de onde veio, excetuando o bar do Augusto, ali mesmo na esquina, onde uns rapazes jogam uma interminável partida de sinuca. Passou o olhar sonolento por todo o largo – nem uma vivalma – só o sol escaldante e imperdoável que tirita feio por cima do casario antigo.

Olhou atentamente a copa das mangueiras – nem uma folha mexia. “Vamos todos estorricar vivos!”, comentou monossilábico. Tinha essa mania de falar sozinho, acumulando, na bagagem, antológicos vexames públicos, até dentro da igreja, em plena missa de domingo...

Esta tarde é muito especial para ele, mas desde que amanhecera e que se olhara no espelho, sentiu alguma coisa amargando dentro de si – completava cinqüenta anos.

“Meio século, porra!”. A negra Terência arrumava a mesa do café, quando ele apareceu de pijama listrado na copa. “Felicidades para o senhor, prefeito!”, congratulou a velha serviçal. Sensibilizado pela lembrança sentou-se à mesa para o café da manhã e sentiu-se o homem mais sozinho do mundo. O chá de erva-cidreira (que ali era chamado de capim santo) adocicava todo o ar.

“Meio século!”, exclamou alto e sentiu que o bolo de aniversário tinha um gosto amargo.

Saiu de casa, por conta do calor insuportável, parou e ficou no centro do largo, dormindo em pé, quase eterno. Dali onde está agora todo o corpo escorado no tronco do Ipê roxo, dá para ver toda a extensão do rio, de uma margem à outra – uma imensa lâmina de prata ao sol. Aquela paisagem só muda nas épocas chuvosas de outubro a março, quando o rio se espraia do lado de lá e fica furioso beijando as barrancas do lado de cá.

Ouviu o chiar estridente de uma cigarra explodindo em bronquites musicais, chiou, chiou – a cigarra ajudava a esquentar mais ainda o tremeluzir do sol. Como uma onda, vinha à algazarra dos rapazes na sinuca – nesses anos teve um que quase encaçapou a bola sete e esteve a ponto de comprometer a partida que combinaram ser eterna. Não eram os mesmos de tantos anos passados, mas ninguém percebia a substituição dos jovens jogadores – as Forças Armadas colhiam a safra da turma que estava completando dezoito anos e outra turma se incorporava àquela mesa estragada, sob a vigilância do velho Augusto, que ali fora ficando mais seco, com uma toalha de rosto amarrada ao pescoço, debruçado no balcão ensebado.

“Meio século, porra!...”. A vida que poderia ter sido e que não pôde ser. Sequer um filho para celebrar sua memória alada.


Dois volumes manuscritos, trezentos e tantos poemas feitos e refeitos no ócio das horas mortas na prefeitura velha, engavetados à espera de um estímulo maior (que nunca vinha) para digitá-los e enviá-los para alguma editora famosa do Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Recife ou Porto Alegre. No íntimo achava os poemas uma futilidade, mas não tinha coragem para rasgá-los – quem sabe tinham estilo, originalidade e criatividade? Quando reservava um fim-de-semana para os longos momentos etílicos, lia-os com um outro olhar, atentamente em sua cadeira cativa do bar “Tudo Azul” – sentia-se o próprio bardo, o vate venerável, o maior poeta do mundo, faltava ser descoberto, revelado e laureado. Acrescentava anotações às margens e nas entrelinhas do caderno de capa preta, carcomido pelas asas do tempo.

Estaria ali para derrubar a poesia insossa deste país que só celebrava uns cinco poetas e a mídia impressa publicava qualquer imbecilidade que eles escrevessem! A poesia era a fórmula mágica para assassinar o tédio, a solidão, a mesmice e desendoidecer.

“O rejuvenescimento da mente do homem... a mente só é retraída quando o homem se sente frustrado, extenuado, desencantado e deprimido... carregando sobre os ombros uma indecifrável neuroforia...”.

Uma lavadeira, com uma imensa barriga, aparece saída da barranca do rio, com uma enorme trouxa na cabeça e vem vindo para atravessar o largo.

Quando amo e se amo, amo de verdade, Nuria, “meu coração soca pilão dentro do peito, vira monjolo que esmaga, soca, soca, vira munha, me esfarela, moendo os ossos... triturando as asas da alma”.

É preciso estar atento e ágil feito um gato.

“Mário, Mário, você vai para o sertão e aquilo ali vai te consumir...”. Proféticas palavras dos amigos que ainda lhe chegavam frescas nas asas da memória.

Pegou o trem do sertão até Piracanjuba, depois a jardineira velha e a poeira medonha, facão de estrada que sacudia tudo e ali aportara no fogo dos seus vinte e cinco anos. A luta para não deixar se consumir no fogo lento dos costumes do interior foi sem trégua. Resultou inútil.

Era um projeto de escritor, e se esse espécime raro não conseguia sobreviver nos grandes centros, que dizer da tentativa de construir ali esta meta no interior mais isolado e dali ganhar a admiração e o reconhecimento do mundo?

Começou por namorar a filha do fazendeiro mais rico e influente da região, João Guilherme Novaes, meteu-se até o pescoço na política, enfiou-se pelos desfiladeiros das retóricas baratas para engambelar o populacho, saiu distribuindo tapinhas nos ombros (êta, falsidade!), balinhas, "santinhos" e brinquedos 1,99 nos natais, prestou atendimento a doentes, encaminhou órfãos e meninos de ruas para o serviço social; ajudou mulheres desenganadas, se enfurnou por vilas e distritos os mais remotos levantando a bandeira da vida nova, não esta vida de merda, senhoras e senhores, porque vocês são os esquecidos do poder, "a praça é do povo como o céu é do condor" (devia ter dito urubu, pois que ali ninguém sabia o que era um Condor...), vamos acabar de vez com o fisiologismo, nepotismo e os podres poderes; precisamos de sangue novo.

O próspero fazendeiro João Guilherme Novaes se elegeu deputado estadual e Mário - o homem dos caminhos inversos - o cargo de prefeito daquela provinciana e distante cidadezinha do interior de Goiás. Uma vaga na AGL e, posteriormente, ABL, pleitearia depois. Doravante, Mário teria todo o tempo do mundo para fazer um copidesque “caprichado" de seus textos e reorganizar sua "carreira" literária...

(EUGENIO SANTANA)


- Eugenio Santana é escritor, Jornalista (DRT/GO 1319), ensaísta literário, Copidesque, Redator Publicitário. Autor de quatro livros publicados. Membro efetivo da Academia de Letras do Noroeste de Minas, cadeira nº. 2. Sócio da UBE/GO. Correio eletrônico: autor-e.santana@bol.com.br – Celulares: (21) 9346-8198 e 7177-6359

(*) Dedico este conto – no estilo de Guimarães Rosa - ao primo escritor e roteirista de filme Fernando Santana Rubinger e, principalmente, ao meu avô-materno José Ulhôa Sant’Anna, que foi proprietário da Fazenda “Aldeia de Cima”, uma das cinco maiores da Região de Paracatu, Minas Gerais. Valendo enfatizar que, foi justamente nesta Fazenda que eu nasci, com a ajuda de uma parteira, às 9h da manhã, no outono de 1956 (19/4).

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